Victor de Sousa diz um texto...
31.5.08
30.5.08
Manuel Alegre e vários outros históricos socialistas estão, há um mês, em contacto com dirigentes do Bloco de Esquerda e vários independentes e renovadores comunistas. Este «diálogo novo» resulta, na próxima terça-feira, 3 de Junho, numa festa/comício, no Teatro da Trindade, em Lisboa, que foi convocado em nome dos «valores de Abril», mas que não deixará de servir para lançar fortes críticas ao Governo de José Sócrates.Entrevista na SicNotícias, onde fala sobre a eventualidade de um novo partido e sobre as relações com Mário Soares.
27.5.08
A Comissão Nacional de Eleições (CNE) detectou quase uma centena de casos de erros na atribuição de mandatos nas autárquicas de 2005, por incorrecta aplicação do método de Hondt, e em 15 eleições as falhas alteraram resultados...
Se o mercado não consegue disciplinar os preços, os lucros nem o selvático prendar dos recursos empresariais com os vencimentos multimilionários dos executivos, então por que não nacionalizar os petróleos e tentar outros modelos?
Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal
Título original: Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull
De: Steven Spielberg
Com: Harrison Ford, Karen Allen, Cate Blanchett
Género: Acç, Ave
Classificação: M/12
EUA, 2008, Cores, 124 min.
"Revisitar Indiana Jones não é forçosamente uma boa ideia. Os tempos mudaram muito e os tipos que ainda sabem o que eram os 31 partes estão hoje de quinquagenários para cima. Além disso, como pôr a miudagem a identificar-se com um herói que já tem idade para ser avô desses jovens espectadores? Osso duro de roer..."
"O certo, todavia, é que Spielberg pôs mãos à obra, voltou a colocar o chapéu e o chicote em Harrison Ford, foi buscar Karen Allen à memória do primeiro filme e dotou-a de um filho quase adulto para dar descendência a Indiana, escolheu Cate Blanchett para vilã de serviço, no que fez muito bem, porque tudo o que ela faz é perfeito. E pô-los a todos em movimento em busca do El Dorado, com extraterrestres de permeio e muitas piscadelas de olho cinéfilas (do vislumbre da Arca Perdida à aparição de Shia LaBeouf a mimetear Brando), um argumento mais em correria que em elegância, onde não faltam índios aguerridos, rios turbulentos, mistérios e enigmas, areias movediças, formigas assassinas, uma cidade pré-colombiana escondida por detrás de uma cascata amazónica, feros soviéticos à caça do mesmo que Indiana (já que o filme se passa no auge da Guerra Fria) - tudo posto em cena de um modo bem-humorado e, evidentemente, competente, ou não fosse grande a indústria americana do entretenimento e Spielberg e George Lucas dois dos seus mais proeminentes gurus. Mas há que perguntar se o cinema ganha alguma coisa com isso, para lá do fugaz prazer epidérmico que sentimos. Sintoma dessa superficialidade é o filme recusar o que poderia ser um trunfo - o envelhecimento do herói, as contingências que o passar do tempo gera. Mas não lhe interessa reflectir sobre os mitos, afinal de contas Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal quer-se um dos maiores «blockbusters» de 2008, e as máquinas de fazer dinheiro não se constroem com apelos à reflexão do espectador."
Título original: Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull
De: Steven Spielberg
Com: Harrison Ford, Karen Allen, Cate Blanchett
Género: Acç, Ave
Classificação: M/12
EUA, 2008, Cores, 124 min.
"ENTRE 1981 E 1989, Indiana Jones lutou contra os nazis e contra os sanguinários thughs, teve nas mãos a Arca da Aliança e o Santo Graal, e Steven Spielberg conquistou, definitivamente, o coração dos empedernidos cinéfilos que ainda se lembravam dos 31 partes, dos «serials» dos anos 30, das aventuras em lugares exóticos, plenos de armadilhas e onde o herói havia de salvar a rapariga nem que fosse no último momento. Entre 1981 e 1989, a trilogia idealizada por George Lucas e posta em cena por Steven Spielberg foi um sucesso estrondoso e relançou os filmes de aventuras com ímpeto idêntico ao que A Guerra das Estrelas causara no reino da ficção científica."
"Revisitar Indiana Jones não é forçosamente uma boa ideia. Os tempos mudaram muito e os tipos que ainda sabem o que eram os 31 partes estão hoje de quinquagenários para cima. Além disso, como pôr a miudagem a identificar-se com um herói que já tem idade para ser avô desses jovens espectadores? Osso duro de roer..."
"O certo, todavia, é que Spielberg pôs mãos à obra, voltou a colocar o chapéu e o chicote em Harrison Ford, foi buscar Karen Allen à memória do primeiro filme e dotou-a de um filho quase adulto para dar descendência a Indiana, escolheu Cate Blanchett para vilã de serviço, no que fez muito bem, porque tudo o que ela faz é perfeito. E pô-los a todos em movimento em busca do El Dorado, com extraterrestres de permeio e muitas piscadelas de olho cinéfilas (do vislumbre da Arca Perdida à aparição de Shia LaBeouf a mimetear Brando), um argumento mais em correria que em elegância, onde não faltam índios aguerridos, rios turbulentos, mistérios e enigmas, areias movediças, formigas assassinas, uma cidade pré-colombiana escondida por detrás de uma cascata amazónica, feros soviéticos à caça do mesmo que Indiana (já que o filme se passa no auge da Guerra Fria) - tudo posto em cena de um modo bem-humorado e, evidentemente, competente, ou não fosse grande a indústria americana do entretenimento e Spielberg e George Lucas dois dos seus mais proeminentes gurus. Mas há que perguntar se o cinema ganha alguma coisa com isso, para lá do fugaz prazer epidérmico que sentimos. Sintoma dessa superficialidade é o filme recusar o que poderia ser um trunfo - o envelhecimento do herói, as contingências que o passar do tempo gera. Mas não lhe interessa reflectir sobre os mitos, afinal de contas Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal quer-se um dos maiores «blockbusters» de 2008, e as máquinas de fazer dinheiro não se constroem com apelos à reflexão do espectador.""A dúvida é saber se o velho Indiana ainda se aguenta, face aos ventos que agora sopram dos confins mágicos de Harry Potter ou dos piratas das Caraíbas. Pelo menos, genica não lhe falta."
Jorge Leitão Ramos, Expresso de 24/05/2008
Jorge Leitão Ramos, Expresso de 24/05/2008
26.5.08
A uma semana da eleição para a presidência do PSD, talvez seja apropriado fazer um retrato político dos três candidatos principais: Ferreira Leite, Passos Coelho, Santana Lopes. Quando toda a gente fala da misteriosa identidade do PSD (social-democrata? liberal? populista?) e os próprios candidatos seriamente a discutem na televisão como se estivessem num seminário académico, é preciso dizer que Manuela Ferreira Leite representa o que há de mais genuíno e profundo no partido: a tradição autoritária que vem de Salazar e Marcelo e que Sá Carneiro e depois Cavaco manifestamente receberam. Manuela recusa a retórica democrática; insiste na discrição e na reserva; afirma mais do que discute; e, como dizia o outro, sabe muito bem o que quer e para onde vai. Os portugueses gostam disto. O PSD também. Pedro Santana Lopes jura que mudou, mas não mudou. Continua a oscilar entre o papel de vítima (da televisão e da imprensa, do inimigo interno, da perfídia do mundo) e o papel de "menino guerreiro", sempre pronto a combater por ele e pelo partido, por mais desesperada que à primeira vista pareça a situação. Não se cansa de proclamar que é o homem que não podia ganhar a Câmara da Figueira e a ganhou; ou que não podia ganhar a Câmara de Lisboa e a ganhou. Infelizmente, quase nunca se lembra da patética aventura do seu Governo e da humilhante derrota de 2005. Ao repertório habitual acrescentou agora um ajuste de contas com o "grupo antipartido", que acha responsável pelas suas desgraças e, por extensão, da colectiva desgraça do PSD. No princípio da campanha, declarou que não era hoje tão "imprevisível". Não lhe ocorreu com certeza que o mal dele é ser excessivamente previsível.
Pedro Passos Coelho, que saiu do nada, explica dia a dia, com grande convicção e ênfase, que um verdadeiro chefe, um chefe nato, não nasce da experiência. E cita Aznar e Zapatero. O que sugere irresistivelmente a frase de um velho deputado a um aspirante a ditador de França, que se comparava a Napoleão: "Meu general, com a sua idade, Napoleão já tinha morrido." Pedro Passos Coelho não é o Napoleão (nem o Aznar) do PSD e a sua candidatura anda entre uma espécie de Suíça partidária (um "país" neutro para fugir à guerra) e um campo de refugiados. Apoiar Passos Coelho é a maneira de evitar um compromisso perigoso com Ferreira Leite ou com Santana e é, além disso, uma boa maneira de "voltar ao activo" para alguns restos de "cavaquismo" e do regime de Marques Mendes, como para o populismow que seguiu Menezes e se arrependeu a tempo. Esta mistura não promete o futuro, qualquer futuro. Esta mistura ressuscita o passado.
Afinal, as FARC não são uma organização terrorista...
"Um dia, o Presidente dos EUA disse: «As FARC são uma organização terrorista».
No dia seguinte, os principais jornais, rádios e televisões do mundo informavam: «As FARC são uma organização terrorista».
Pouco depois, a União Europeia decidia que «as FARC são uma organização terrorista» - decisão que passou a fazer parte dos discursos dos respectivos governantes.
Nos dias, noites e manhãs seguintes, o exército de analistas residentes dos principais jornais, rádios e televisões do Planeta, adoptava e intercalava nos seus escritos e peças oratórias, frases como: «de entre as organizações terroristas que operam no sub-continente americano, as FARC são, sem dúvida...», ou: «organizações terroristas como as FARC...»; ou: «essa organização terrorista que dá pelo nome de FARC..» - e, desde então, os serviços noticiosos de todos esses média passaram a apensar, sempre, à sigla «FARC» a designação «organização terrorista».
Nas semanas e meses seguintes, intelectuais famosos e famosíssimos, entrevistados pelos principais jornais, rádios e televisões dos cinco continentes, expressavam o seu veemente repúdio pelas «FARC, essa execranda organização terrorista».
Hoje, milhões de pessoas no mundo sabem, sem margem para dúvidas, que, como há muito tempo disse o Presidente dos EUA, «as FARC são uma organização terrorista».
Está a obra feita.
Posto isto, quem há aí que se atreva a dizer que as FARC não são uma organização terrorista?
Alguém se atreve? Quem?..." »
23.5.08
Lars e o Verdadeiro Amor
Título original: Lars and the Real Girl
De: Craig Gillespie
Com: Ryan Gosling, Emily Mortimer, Paul Schneider
Género: ComDra
Classificação: M/12
EUA, 2007, Cores, 106 min.
"Lars é um jovem com problemas. Introvertido e magoado, vive à parte (numa casa construída no quintal da irmã e do cunhado), numa pequena e simpática comunidade no norte dos EUA, onde todos gostam dele e o compreendem, aceitando a sua singular idiossincrasia. Um dia, Lars surge em casa da irmã com uma estranha «namorada»: uma boneca insuflável que encomendara pela Net e que corresponde ao seu ideal da perfeita companheira. Não está aqui qualquer «perversão» de carácter sexual. A boneca é, para Lars, objecto de devoção e de ternura, a companheira «perfeita», que não desilude quem nela confia. Bianca (como se «chama») é, para Lars, um ser vivo, que ele trata com respeito, e como ser vivo «passeia» pela cidade, «vai» às compras e mais tarde «cai» de cama «doente»."
Título original: Lars and the Real Girl
De: Craig Gillespie
Com: Ryan Gosling, Emily Mortimer, Paul Schneider
Género: ComDra
Classificação: M/12
EUA, 2007, Cores, 106 min.
"DE REPENTE aparecem aqueles corpos celestes que, no espaço de um momento, iluminam um céu demasiado uniformizado pelo brilho permanente das mesmas estrelas. Estes cometas passam e, muitas vezes, acabam esquecidos. Mas no tempo em que brilham provocam uma emoção diferente e, no que se refere ao cinema, instilam no espectador um sentimento de plenitude, algumas vezes de bem-estar consigo próprio e com os outros. Alguns desses filmes são (por vezes com um sentido algo pejorativo) chamados de «feel good movies» (filmes de fazer sentir bem). Lars e o Verdadeiro Amor entra nesta categoria. O filme é uma surpresa e tem uma história que nos reconcilia com a vida, mesmo que o faça apenas durante o breve espaço de tempo em que o vemos."
"Lars é um jovem com problemas. Introvertido e magoado, vive à parte (numa casa construída no quintal da irmã e do cunhado), numa pequena e simpática comunidade no norte dos EUA, onde todos gostam dele e o compreendem, aceitando a sua singular idiossincrasia. Um dia, Lars surge em casa da irmã com uma estranha «namorada»: uma boneca insuflável que encomendara pela Net e que corresponde ao seu ideal da perfeita companheira. Não está aqui qualquer «perversão» de carácter sexual. A boneca é, para Lars, objecto de devoção e de ternura, a companheira «perfeita», que não desilude quem nela confia. Bianca (como se «chama») é, para Lars, um ser vivo, que ele trata com respeito, e como ser vivo «passeia» pela cidade, «vai» às compras e mais tarde «cai» de cama «doente»."
"As reacções paradoxais dão lugar a uma benévola compreensão e tolerância por parte da comunidade, que se vai unir numa espécie de conspiração, fazendo seu o olhar de Lars. Deste ponto de vista, o filme aproxima-se de um clássico como Harvey, com James Stewart, ou do mais recente Truman Show. Destaque ainda para a notável interpretação de Ryan Gosling, que valeu ao actor vários prémios internacionais."
Manuel Cintra Ferreira, Expresso de 17/05/2008
Manuel Cintra Ferreira, Expresso de 17/05/2008
Portugal foi apontado em Bruxelas...


...como o Estado-membro com maior disparidade na repartição dos rendimentos, ultrapassando mesmo os Estados Unidos nos indicadores de desigualdade.
21.5.08
O Enigma de Fermat
Título original: La Habitación de Fermat
De: Luis Piedrahita, Rodrigo Sopeña
Com: Lluís Homar, Alejo Sauras, Santi Millán, Federico Luppi
Género: Thr
ESP, 2007, Cores, 88 min.
Título original: La Habitación de Fermat
De: Luis Piedrahita, Rodrigo Sopeña
Com: Lluís Homar, Alejo Sauras, Santi Millán, Federico Luppi
Género: Thr
ESP, 2007, Cores, 88 min.
"NÃO HÁ dúvida que a Espanha é um país que está a dar cartas na produção cinematográfica: não só pela qualidade dos novos realizadores como pela originalidade de tratamento de temas e géneros clássicos, em especial no campo do fantástico e do policial ou de suspense (Hollywood está atenta e tem copiado, ou está em vias de copiar, alguns sucessos, de Amenábar a Almodóvar), tendo também «invadido», de forma feliz, o domínio da animação. O filme é um exemplo perfeito do que se disse. "
"Premiado em vários festivais (incluindo dois prémios nos últimos Fantasporto), O Enigma de Fermat é uma auspiciosa estreia no cinema de dois jovens argumentistas e realizadores vindos da televisão: Luis Pedrahita e Rodrigo Sopeña. O tema parece saído da imaginação de autores de histórias à volta de enigmas, de Jorge Luís Borges a Umberto Eco, e a um nível mais popular, O Código da Vinci, mas mais particularmente um filme como Cubo."
"Quatro matemáticos ficaram presos numa sala que se vai comprimindo e a única forma de o impedir é resolverem enigmas propostos pelo carcereiro. Inteligente, cheio de suspense e, por vezes, divertido."
M. Cintra Ferreira, Expresso de 17/05/2008
M. Cintra Ferreira, Expresso de 17/05/2008
19.5.08
O Segredo de um Cuscuz
Título original: La Graine et le Mulet
De: Abdel Kechiche
Com: Habib Boufares, Hafsia Herzi, Farida Benkhetache
Género: Dra
Classificação: M/12
FRA, 2007, Cores, 151 min.
"TERCEIRO FILME como realizador do tunisino Abdellatif Kechiche, O Segredo de Um Cuscuz começa por ancorar-nos no ponto de vista de Slimane (extraordinário Habib Boufares), um velho e lacónico ajudante de calafate despedido por «improdutividade» das docas de Sète (pequena cidade no sul de França) que decide comprometer a sua indemnização na transformação em restaurante familiar de uma abandonada e decrépita traineira. Trata-se aqui de um retrato de personagem ao qual a realização de Kechiche irá sobrepor o retrato de um grupo, disseminando os pontos de vista pela família e pelos amigos de Slimane para auscultar o pulso da comunidade magrebina radicada no sul de França — comunidade que a câmara enquadra, para variar, sem recurso a definições politicamente esquemáticas ou esteticamente exóticas."
"O resultado da empreitada deixa-nos entre o entusiasmo e a euforia. De facto, seguindo as pisadas de Jean Renoir e de Maurice Pialat, o filme de Kechiche procura dinamitar a fronteira interposta entre o cinema de autor e o cinema popular, para investir de uma dimensão épica, heróica e trágica as personagens que localiza, enquadra e descreve em função dos seus ritmos próprios. É um projecto estético e político que se espelha, segundo a bela expressão de Jean Michel Frodon nos «Cahiers du Cinema», na constituição de um cinema «falado do interior por aqueles que habitam um mundo sem voz», que o mesmo é dizer: na constituição de um cinema onde a palavra tem um papel essencial."
"À imagem e semelhança do que acontece no anterior filme, A Esquiva — onde a realização de Kechiche empreende um campo-contracampo entre a linguagem popular dos «banlieues» e a linguagem erudita —, O Segredo de Um Cuscuz parece revestir a forma de um ensaio sobre os jogos de linguagem, encenando os seus diferentes níveis e registos e sondando as lógicas políticas e sociais de inclusão ou exclusão que regem a sua utilização."
"Problema central do filme, a linguagem é, também, o seu mais evidente motor, comandando de um ponto de vista formal a articulação e organização da «mise-en-scène», que se desdobra em longas sequências pontuadas por grandes planos cuja duração parece ser proporcional não apenas ao número de personagens em cena mas sobretudo à cadência dos discursos vertebrados."
Título original: La Graine et le Mulet
De: Abdel Kechiche
Com: Habib Boufares, Hafsia Herzi, Farida Benkhetache
Género: Dra
Classificação: M/12
FRA, 2007, Cores, 151 min.
"TERCEIRO FILME como realizador do tunisino Abdellatif Kechiche, O Segredo de Um Cuscuz começa por ancorar-nos no ponto de vista de Slimane (extraordinário Habib Boufares), um velho e lacónico ajudante de calafate despedido por «improdutividade» das docas de Sète (pequena cidade no sul de França) que decide comprometer a sua indemnização na transformação em restaurante familiar de uma abandonada e decrépita traineira. Trata-se aqui de um retrato de personagem ao qual a realização de Kechiche irá sobrepor o retrato de um grupo, disseminando os pontos de vista pela família e pelos amigos de Slimane para auscultar o pulso da comunidade magrebina radicada no sul de França — comunidade que a câmara enquadra, para variar, sem recurso a definições politicamente esquemáticas ou esteticamente exóticas."
"O resultado da empreitada deixa-nos entre o entusiasmo e a euforia. De facto, seguindo as pisadas de Jean Renoir e de Maurice Pialat, o filme de Kechiche procura dinamitar a fronteira interposta entre o cinema de autor e o cinema popular, para investir de uma dimensão épica, heróica e trágica as personagens que localiza, enquadra e descreve em função dos seus ritmos próprios. É um projecto estético e político que se espelha, segundo a bela expressão de Jean Michel Frodon nos «Cahiers du Cinema», na constituição de um cinema «falado do interior por aqueles que habitam um mundo sem voz», que o mesmo é dizer: na constituição de um cinema onde a palavra tem um papel essencial."
"À imagem e semelhança do que acontece no anterior filme, A Esquiva — onde a realização de Kechiche empreende um campo-contracampo entre a linguagem popular dos «banlieues» e a linguagem erudita —, O Segredo de Um Cuscuz parece revestir a forma de um ensaio sobre os jogos de linguagem, encenando os seus diferentes níveis e registos e sondando as lógicas políticas e sociais de inclusão ou exclusão que regem a sua utilização."
"Problema central do filme, a linguagem é, também, o seu mais evidente motor, comandando de um ponto de vista formal a articulação e organização da «mise-en-scène», que se desdobra em longas sequências pontuadas por grandes planos cuja duração parece ser proporcional não apenas ao número de personagens em cena mas sobretudo à cadência dos discursos vertebrados."
"E, no entanto, neste filme, não são apenas os sentidos da visão e do ouvido que nos convidam a participar na representação: o olfacto, o tacto e o paladar parecem constituir também, para a realização de Kechiche, figuras de primeiro plano. Para prová-lo lá está a sequência do almoço em família — verdadeira orquestra de imagens, sons, cheiros, gestos e sabores na qual julgamos surpreender a figura de estilo que melhor se adequa a este delicioso preparado de cuscuz. E o seu nome é sinestesia".
Vasco Baptista Marques, Expresso de 17/05/2008
Vasco Baptista Marques, Expresso de 17/05/2008
LOCAL
São Pedro do Sul

"Não foi fácil chegar aqui, porque nem sempre fui compreendido", afirma o empresário, que do petróleo passou para o negócio da "água milagrosa".
São Pedro do Sul

"Não foi fácil chegar aqui, porque nem sempre fui compreendido", afirma o empresário, que do petróleo passou para o negócio da "água milagrosa".
17.5.08
LOCAL
São Pedro do Sul
O PCP alertou que a empresa municipal Termalistur, de S. Pedro do Sul, "se prepara para vender o capital social" ao grupo Martifer, do concelho vizinho de Oliveira de Frades, mas o presidente da autarquia nega essa intenção. Contactado pela Agência Lusa, o presidente da Câmara de S. Pedro do Sul e também da Termalistur, António Carlos Figueiredo negou que esse negócio esteja em cima da mesa, garantindo "nunca ter ouvido essa hipótese da boca de alguém".
[Comunicado]
São Pedro do Sul
O PCP alertou que a empresa municipal Termalistur, de S. Pedro do Sul, "se prepara para vender o capital social" ao grupo Martifer, do concelho vizinho de Oliveira de Frades, mas o presidente da autarquia nega essa intenção. Contactado pela Agência Lusa, o presidente da Câmara de S. Pedro do Sul e também da Termalistur, António Carlos Figueiredo negou que esse negócio esteja em cima da mesa, garantindo "nunca ter ouvido essa hipótese da boca de alguém".[Comunicado]
16.5.08
14.5.08
LOCAL
São Pedro do Sul
ASAE encerra refeitório da escola básica 2/3...
São Pedro do Sul
ASAE encerra refeitório da escola básica 2/3...
...o presidente da Câmara de S. Pedro do Sul responsabilizou ontem o Ministério da Educação pela situação a que chegou o refeitório da escola básica 2/3, encerrado segunda-feira pela Autoridade de Segurança Alimentar e Económica. A Directora Regional de Educação do Centro garantiu à SIC que o refeitório cumpre todas as normas de higiene e segurança... [VIDEO SIC] [VIDEO RTP 1]
13.5.08
Cartas a Uma Ditadura
Título original: Cartas a Uma Ditadura
De: Inês de Medeiros
Género: Doc
Classificação: M/12
FRA/POR, 2006, Cores e P/B, 60 min.
"As grandes senhoras, das grandes famílias, algumas nos palacetes que ainda habitam, renovam o seu fervor por Salazar e pela trilogia «Deus, Pátria, Família» que condensava o ideário do regime. As outras, sem quadros nas paredes, coadas a uma luz muito diferente e mostrando na pele outros suores, já não falam do ditador com a mesma certeza. Este filme mostra que há uma marca de classe nos últimos abencerragens do Estado Novo. Mas mostra também, em referência aos anos 50, que o suporte político do presidente do Conselho se espalhava por muitos outros estratos sociais, que o ditador era amado — por vezes até à histeria — como as imagens demonstram. Nada de novo. Todos os ditadores da época, de Hitler a Estaline, desencadearam respostas emocionais desse tipo."
"Desde o «inaugural» Deus, Pátria, Autoridade, em 1975, que a viagem à memória do salazarismo que o cinema português tem seguido se processa, em geral, segundo uma estratégia de denúncia. Sobre as imagens do tempo, um texto acusa invariavelmente a inverdade da retórica das imagens (tiradas de actualidades ou documentários da época, ou seja, «infectadas» pelo mal político que as controlara), expondo uma visão «correcta». Ou então, contrapõem-se imagens de época a outras do presente, testemunhais, confrontando o tempo do aperreamento com o tempo da liberdade. Cartas a Uma Ditadura segue esta segunda via, mas de um modo muito particular. O filme, centrado num conjunto de cartas de apoio a Salazar e a um Movimento Nacional das Mulheres Portuguesas criado em 1958, na sequência do terramoto com que Delgado abalou o regime, foi interrogar algumas das signatárias que conseguiu localizar, entre figuras da alta burguesia e mulheres do povo. Só que a face testemunhal não está lá para se constituir contraditório ao peso dos filmes de época. Está lá para atestar que o salazarismo, em termos de mentalidade, dura até aos nossos dias."
"Inês de Medeiros tinha seis anos em Abril de 1974, cresceu e tornou-se adulta em clima democrático, é alguém para quem o salazarismo e a retórica do Estado Novo são velharias bafientas de um passado negro que ela não viveu — felizmente! Uma estratégia de denúncia pressupõe uma energia de combate e, porventura, a realizadora acha que essa guerra acabou há muito tempo. Prefere, por isso, compreender o que se passou, dando de barato, na desafectada narrativa com que enquadra a época em que as cartas surgiram, que o regime de Salazar é algo de verberado e enterrado pela dinâmica histórica. Daí que a constatação da permanência de valores e mentalidades salazaristas que o filme limpidamente mostra não faça soar uma sirene de alarme, apenas uma funda mágoa. Ou seja: Cartas a Uma Ditadura não considera que essa permanência possa constituir embrião, ovo da serpente, de que outro autoritarismo retrógrado se erga. E não lhe passa pela cabeça a explicitação da denúncia, tão óbvia lhe parece a realidade do Estado Novo. De certa maneira, Cartas a Uma Ditadura é a certidão de óbito do contraponto fascismo/antifascismo por perda de operacionalidade no presente."
Título original: Cartas a Uma Ditadura
De: Inês de Medeiros
Género: Doc
Classificação: M/12
FRA/POR, 2006, Cores e P/B, 60 min.
"Inês de Medeiros tinha seis anos em Abril de 1974, cresceu e tornou-se adulta em clima democrático, é alguém para quem o salazarismo e a retórica do Estado Novo são velharias bafientas de um passado negro que ela não viveu — felizmente! Uma estratégia de denúncia pressupõe uma energia de combate e, porventura, a realizadora acha que essa guerra acabou há muito tempo. Prefere, por isso, compreender o que se passou, dando de barato, na desafectada narrativa com que enquadra a época em que as cartas surgiram, que o regime de Salazar é algo de verberado e enterrado pela dinâmica histórica. Daí que a constatação da permanência de valores e mentalidades salazaristas que o filme limpidamente mostra não faça soar uma sirene de alarme, apenas uma funda mágoa. Ou seja: Cartas a Uma Ditadura não considera que essa permanência possa constituir embrião, ovo da serpente, de que outro autoritarismo retrógrado se erga. E não lhe passa pela cabeça a explicitação da denúncia, tão óbvia lhe parece a realidade do Estado Novo. De certa maneira, Cartas a Uma Ditadura é a certidão de óbito do contraponto fascismo/antifascismo por perda de operacionalidade no presente."
"Estimulante e triste filme este que nos lembra o sarro que ainda temos agarrado à pele e que nem trinta anos de esfregadelas conseguiram remover. Havemos de cheirar sempre àquilo? Inês de Medeiros já não cheira, este filme é descomplexadamente livre."
Jorge Leitão Ramos, Expresso de 10/05/2008
Jorge Leitão Ramos, Expresso de 10/05/2008
10.5.08
Shine a Light
Título original: Shine a Light
De: Martin Scorsese
Classificação: M/12
EUA/GB, 2008, Cores, 122 min.
"Shine a Light é um dos mais perfeitos «filmes-concerto» de que há memória. E de um ponto de vista exclusivamente cinematográfico, pode dizer-se que os Rolling Stones são uma banda feliz. Como conjunto, e sem referir outro tipo de aparições, eles estão no centro de três filmes notáveis: One + One: Sympathy for the Devil, de Jean-Luc Godard (1968), talvez o mais sugestivo filme da contracultura dos anos 60, Gimme Shelter, de Albert e David Maysles (o primeiro é colaborador de Scorsese em Shine a Light), que talvez seja o documentário «definitivo» sobre os Stones, e Shine a Light, o «filme-concerto» perfeito."
"Apesar das semelhanças evidentes entre A Última Valsa e Shine a Light, há, entre eles, uma diferença significativa. O primeiro pode considerar-se um documentário, pois Scorsese vai filmar o que será a despedida de The Band. Shine a Light, por seu lado, é um filme preparado sobre um concerto dado exactamente para ser filmado. Num caso destes, o realizador pode preparar a cena tal como se se tratasse de um outro filme seu, de ficção. Pode? Poderia, se não se tratasse dos Rolling Stones, que mantêm a sua irreverência e sentido de provocação, mesmo que se trate agora de uma atitude mais ou menos «blasé», já uma marca do grupo, tacitamente aceite pelo «establishment»."
"De facto, deste ponto de vista, Shine a Light também poderia ser visto como a manifestação dos Stones como membros do mesmo «establishment» de que foram um dos grupos mais críticos nas décadas de 60 e 70. E talvez haja, da parte de Scorsese uma certa ironia, gozo (se não mesmo, «maldadezinha») em fazê-los serem apresentados nada menos do que por Bill Clinton, cujas palavras abrem este concerto dado no Beacon Theater de New York, em 2006, num espectáculo de beneficência para uma ONG apoiada pelo ex-Presidente dos EUA, e exactamente no dia do seu aniversário (quase uma festa de família, pois conta com a presença do clã Clinton, e muitos convidados que lhe são próximos)."
"Mick Jagger, em particular, parece ter-se divertido espicaçando Scorsese, que vemos em cenas iniciais pedindo insistentemente a lista das canções que irão entoar a fim de estabelecer o seu plano de trabalho. Face à inevitável impossibilidade de o conseguir, dados os improvisos da banda, Scorsese encolhe os ombros resignado e desabafa: «It’s all rock’n’roll!»"
"O espectáculo filmado faz parte da digressão dos Stones «Bigger Band Tour» de 2006, e Jagger teria sugerido ao realizador que filmasse o concerto que seria dado em Copacabana, no Brasil, perante dezenas de milhares de pessoas. Scorsese recusou. O seu projecto era outro. O pequeno teatro Beacon era perfeito para o controlo total das câmaras e dos movimentos. O filme, aliás, é, para além do recital de música, uma verdadeira lição de cinema por parte do realizador. Scorsese requereu à Associação Americana de Directores de Fotografia autorização (que lhe foi extraordinariamente concedida) para usar um vasto número de experientes e oscarizados profissionais como operadores de câmara que, sob a orientação geral de Robert Richardson, fazem da captação de imagens e dos movimentos das câmaras outros tantos «personagens» do filme e parceiros fundamentais das músicas dos Stones. O saber e a habilidade de Scorsese mostram-se também nas cenas de abertura e de encerramento, após o concerto, e em que ele participa. No final, Scorsese acompanha a câmara até à saída do teatro e dirige-se-lhe de forma eufórica; «Sobe! Sobe!», e a câmara vai subindo, direita ao céu, abarcando a cidade iluminada, num plano que faz «raccord» com o final do seu Gangues de Nova Iorque."
Título original: Shine a Light
De: Martin Scorsese
Classificação: M/12
EUA/GB, 2008, Cores, 122 min.
"Foi um longo caminho o que levou Martin Scorsese, pelo campo musical, a Shine a Light. Caminhada iniciada em 1970 com a sua colaboração na montagem do clássico documentário Woodstock, e dois anos depois na de Elvis on Tour. A paixão de Scorsese pela música popular está bem expressa numa série de trabalhos bem conhecidos dos cinéfilos: o documentário sobre a despedida de The Band em A Última Valsa, sobre Bob Dylan em No Direction Home, e na produção da magnífica série The Blues (e tem previsto, já para 2010, um novo trabalho, desta vez sobre George Harrison). Mas os Rolling Stones ocupam um lugar especial na sua vida e obra. Não foi preciso esperar por Shine a Light para se perceber o papel que a famosa banda teve na vida e formação de Scorsese. De Os Cavaleiros do Asfalto a The Departed: Entre Inimigos, passando por Tudo Bons Rapazes e Casino, a música dos Stones está sempre presente. De certo modo, Shine a Light não é mais do que uma celebração dessa longa paixão."
"Shine a Light é um dos mais perfeitos «filmes-concerto» de que há memória. E de um ponto de vista exclusivamente cinematográfico, pode dizer-se que os Rolling Stones são uma banda feliz. Como conjunto, e sem referir outro tipo de aparições, eles estão no centro de três filmes notáveis: One + One: Sympathy for the Devil, de Jean-Luc Godard (1968), talvez o mais sugestivo filme da contracultura dos anos 60, Gimme Shelter, de Albert e David Maysles (o primeiro é colaborador de Scorsese em Shine a Light), que talvez seja o documentário «definitivo» sobre os Stones, e Shine a Light, o «filme-concerto» perfeito."
"Apesar das semelhanças evidentes entre A Última Valsa e Shine a Light, há, entre eles, uma diferença significativa. O primeiro pode considerar-se um documentário, pois Scorsese vai filmar o que será a despedida de The Band. Shine a Light, por seu lado, é um filme preparado sobre um concerto dado exactamente para ser filmado. Num caso destes, o realizador pode preparar a cena tal como se se tratasse de um outro filme seu, de ficção. Pode? Poderia, se não se tratasse dos Rolling Stones, que mantêm a sua irreverência e sentido de provocação, mesmo que se trate agora de uma atitude mais ou menos «blasé», já uma marca do grupo, tacitamente aceite pelo «establishment»."
"De facto, deste ponto de vista, Shine a Light também poderia ser visto como a manifestação dos Stones como membros do mesmo «establishment» de que foram um dos grupos mais críticos nas décadas de 60 e 70. E talvez haja, da parte de Scorsese uma certa ironia, gozo (se não mesmo, «maldadezinha») em fazê-los serem apresentados nada menos do que por Bill Clinton, cujas palavras abrem este concerto dado no Beacon Theater de New York, em 2006, num espectáculo de beneficência para uma ONG apoiada pelo ex-Presidente dos EUA, e exactamente no dia do seu aniversário (quase uma festa de família, pois conta com a presença do clã Clinton, e muitos convidados que lhe são próximos)."
"Mick Jagger, em particular, parece ter-se divertido espicaçando Scorsese, que vemos em cenas iniciais pedindo insistentemente a lista das canções que irão entoar a fim de estabelecer o seu plano de trabalho. Face à inevitável impossibilidade de o conseguir, dados os improvisos da banda, Scorsese encolhe os ombros resignado e desabafa: «It’s all rock’n’roll!»"
"O espectáculo filmado faz parte da digressão dos Stones «Bigger Band Tour» de 2006, e Jagger teria sugerido ao realizador que filmasse o concerto que seria dado em Copacabana, no Brasil, perante dezenas de milhares de pessoas. Scorsese recusou. O seu projecto era outro. O pequeno teatro Beacon era perfeito para o controlo total das câmaras e dos movimentos. O filme, aliás, é, para além do recital de música, uma verdadeira lição de cinema por parte do realizador. Scorsese requereu à Associação Americana de Directores de Fotografia autorização (que lhe foi extraordinariamente concedida) para usar um vasto número de experientes e oscarizados profissionais como operadores de câmara que, sob a orientação geral de Robert Richardson, fazem da captação de imagens e dos movimentos das câmaras outros tantos «personagens» do filme e parceiros fundamentais das músicas dos Stones. O saber e a habilidade de Scorsese mostram-se também nas cenas de abertura e de encerramento, após o concerto, e em que ele participa. No final, Scorsese acompanha a câmara até à saída do teatro e dirige-se-lhe de forma eufórica; «Sobe! Sobe!», e a câmara vai subindo, direita ao céu, abarcando a cidade iluminada, num plano que faz «raccord» com o final do seu Gangues de Nova Iorque."
"E não falei ainda da música e dos convidados. Mas a música é dos Stones e está tudo dito (da abertura clássica com «Jumpin’ Jack Flash», ao incontornável «Sympathy for the Devil») e os convidados são Jack White III, Christina Aguilera (com quem Jagger faz dueto em «Live with Me») e Buddy Guy (com Jagger, no que é o momento mais estimulante do concerto)."
Manuel Cintra Ferreira, Expresso de 10/05/2008
Manuel Cintra Ferreira, Expresso de 10/05/2008
9.5.08
Mas em que é que ficamos afinal?...

O Avante! deu à fabulosa Anabela Fino a oportunidade de recolher as opiniões de Jerónimo de Sousa sobre a sua recente viagem a Angola. Às questões mais incómodas, o secretário-geral do PCP preferiu responder socorrendo-se das posições oficiais do MPLA, como se fosse um mero porta-voz do partido do Governo de Angola.
Mas o resultado é fascinante: da corrupção (que não sentiu “como um fenómeno instalado e em desenvolvimento”) ao MPLA (“uma força progressista, de esquerda e africana”), de José Eduardo dos Santos (que “tem grande prestígio no seio do MPLA e na sociedade angolana, pelo que não será de estranhar que venha a ser o candidato escolhido [para presidente da República]) à economia de mercado sem uma sociedade de mercado (“a vontade de não transformar a sociedade angolana numa sociedade capitalista no sentido clássico”), da liberdade de imprensa (“onde há conteúdos muitos radicais e mesmo ofensivos em relação ao MPLA”, como aqui se comprova) à democracia no Zimbabué (“é bom lembrar que a democraticidade das eleições foi posta em causa”), Jerónimo revelou-se muito (bem) impressionado com o que encontrou em África.
Tivessem as autoridades locais distribuído prémios a todas as candidatas a “«miss Angola» amputada pelas minas” e Angola seria mais do que “um país em construção, livre e soberano” — seria um mundo perfeito. »

O músico e activista Bob Geldof afirmou em Lisboa que Angola é um país “gerido por criminosos”. »
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O Avante! deu à fabulosa Anabela Fino a oportunidade de recolher as opiniões de Jerónimo de Sousa sobre a sua recente viagem a Angola. Às questões mais incómodas, o secretário-geral do PCP preferiu responder socorrendo-se das posições oficiais do MPLA, como se fosse um mero porta-voz do partido do Governo de Angola.Mas o resultado é fascinante: da corrupção (que não sentiu “como um fenómeno instalado e em desenvolvimento”) ao MPLA (“uma força progressista, de esquerda e africana”), de José Eduardo dos Santos (que “tem grande prestígio no seio do MPLA e na sociedade angolana, pelo que não será de estranhar que venha a ser o candidato escolhido [para presidente da República]) à economia de mercado sem uma sociedade de mercado (“a vontade de não transformar a sociedade angolana numa sociedade capitalista no sentido clássico”), da liberdade de imprensa (“onde há conteúdos muitos radicais e mesmo ofensivos em relação ao MPLA”, como aqui se comprova) à democracia no Zimbabué (“é bom lembrar que a democraticidade das eleições foi posta em causa”), Jerónimo revelou-se muito (bem) impressionado com o que encontrou em África.
Tivessem as autoridades locais distribuído prémios a todas as candidatas a “«miss Angola» amputada pelas minas” e Angola seria mais do que “um país em construção, livre e soberano” — seria um mundo perfeito. »
A Última Cartada
Título original: 21
De: Robert Luketic
Com: Jim Sturgess, Kate Bosworth, Kevin Spacey, Laurence Fishburn
Género: Dra
Classificação: M/12
EUA, 2008, Cores, 123 min.
"Não se trata, porém, como Os Onze do Oceano, de um típico «capper movie» (filme de assaltos). Existe «desvio», sim, mas dentro de alguma «legalidade», se assim quisermos entender o método eficazmente aplicado. Rezam as crónicas (mas vamos lá saber até que ponto se aproxima da verdade) que a proeza aqui exposta se inspira em factos verídicos. Quais são eles? Na essência, trata-se de ganhar ao «blackjack», nos casinos de Las Vegas, utilizando a «contagem de cartas», feita por um grupo de jovens especialistas, cinco pequenos génios estudantes, que aplicam os seus «supercérebros» num complicado esquema de contagem de cartas e sinalizações entre si, de modo a que o jogador entre na mesa propícia ao sucesso. O jovem Ben Campbell apenas procura arranjar os 300 mil dólares de que precisa para entrar na Universidade dos seus sonhos, Harvard. Mas, como acontece sempre nestes casos (lembram-se de Humphrey Bogart em O Tesouro da Sierra Madre?), as primitivas boas intenções vão ao ar quando o jovem se deixa entusiasmar pela vida de prazer da cidade do jogo."
"Se são cinco os jovens jogadores, porque então sete no título que demos a esta crónica? Porque eles são apenas os peões treinados e manipulados por alguém que já fora como eles, Micky Rosa, e está proibido de entrar em salas de jogo por ter sido apanhado nas «contagens», sendo agora professor, tendo descoberto nas aulas os seus «herdeiros». O veterano do jogo é-o também como actor: Kevin Spacey, numa excelente composição. E o sétimo? Bem, neste caso trata-se de Cole Williams (outro veterano, Laurence Fishburne), chefe de segurança do casino alvo dos nossos jovens «heróis», que vê os seus dias de trabalho chegarem ao fim com o avanço da tecnologia (a instalação de um software que permite «ler» todas as expressões dos jogadores e detectar as possíveis fraudes) e resolve tirar algum proveito do seu último duelo com o antigo conhecido e adversário Micky Rosa."
Título original: 21
De: Robert Luketic
Com: Jim Sturgess, Kate Bosworth, Kevin Spacey, Laurence Fishburn
Género: Dra
Classificação: M/12
EUA, 2008, Cores, 123 min.
"A Última Cartada deve ser tomado apenas por aquilo que é: um divertido (com alguns bons momentos de emoção e de acção) filme para adolescentes, sem grandes complexidades nem análises psicológicas das personagens. Sendo um filme sobre o jogo de cartas, não se espere do trabalho de Robert Luketic (o realizador de Legalmente Loira) algo como O Aventureiro de Cincinnati (argumento de Sam Peckinpah filmado por Norman Jewison). Aliás, nem o jogo é o póquer (estamos agora às voltas com o «blackjack») nem o jovem Jim Sturgess mostra o carisma de um Steve McQueen. Se quisermos encontrar uma comparação para A Última Cartada, ela será com a série de Steven Soderbergh à volta dos assaltos organizados por Danny Ocean (George Clooney). A diferença entre eles é a mesma que vai do exercício de estilo de um mestre ao desempoeirado esforço do aprendiz."
"Não se trata, porém, como Os Onze do Oceano, de um típico «capper movie» (filme de assaltos). Existe «desvio», sim, mas dentro de alguma «legalidade», se assim quisermos entender o método eficazmente aplicado. Rezam as crónicas (mas vamos lá saber até que ponto se aproxima da verdade) que a proeza aqui exposta se inspira em factos verídicos. Quais são eles? Na essência, trata-se de ganhar ao «blackjack», nos casinos de Las Vegas, utilizando a «contagem de cartas», feita por um grupo de jovens especialistas, cinco pequenos génios estudantes, que aplicam os seus «supercérebros» num complicado esquema de contagem de cartas e sinalizações entre si, de modo a que o jogador entre na mesa propícia ao sucesso. O jovem Ben Campbell apenas procura arranjar os 300 mil dólares de que precisa para entrar na Universidade dos seus sonhos, Harvard. Mas, como acontece sempre nestes casos (lembram-se de Humphrey Bogart em O Tesouro da Sierra Madre?), as primitivas boas intenções vão ao ar quando o jovem se deixa entusiasmar pela vida de prazer da cidade do jogo."
"Se são cinco os jovens jogadores, porque então sete no título que demos a esta crónica? Porque eles são apenas os peões treinados e manipulados por alguém que já fora como eles, Micky Rosa, e está proibido de entrar em salas de jogo por ter sido apanhado nas «contagens», sendo agora professor, tendo descoberto nas aulas os seus «herdeiros». O veterano do jogo é-o também como actor: Kevin Spacey, numa excelente composição. E o sétimo? Bem, neste caso trata-se de Cole Williams (outro veterano, Laurence Fishburne), chefe de segurança do casino alvo dos nossos jovens «heróis», que vê os seus dias de trabalho chegarem ao fim com o avanço da tecnologia (a instalação de um software que permite «ler» todas as expressões dos jogadores e detectar as possíveis fraudes) e resolve tirar algum proveito do seu último duelo com o antigo conhecido e adversário Micky Rosa."
"Estamos, pois, face às personagens e elenco, num típico filme de passagem de testemunho entre gerações, com os jovens jogadores assumindo-se como a imagem do futuro face à retirada, forçada ou não, dos veteranos, tema permanente no cinema americano, em especial nos «westerns». Se o seu tratamento, aqui, não apresenta nada de relevante, o filme, porém, desenvolve-se com ritmo e graça. Os espectadores não terão, por isso, muitas razões de queixa."
Manuel Cintra Ferreira, Expresso de 03/05/20085.5.08
My Blueberry Nights – O Sabor do Amor
Título original: My Blueberry Nights
De: Wong Kar-wai
Com: Jude Law, Norah Jones, Chad R. Davis
Género: Dra, Rom
Classificação: M/12
EUA, 2007, Cores, 90 min.
"Abertura do Festival de Cannes o ano passado (e do lusitano IndieLisboa, há uma semana apenas), My Blueberry Nights – O Sabor do Amor teve uma recepção matizada a reticências, aquela «fine bouche» que os críticos gostam tanto de fazer, sobretudo a um autor aclamado em que detectam um suposto passo em falso. Não será da minha boca, há mais de trinta anos neste labor, que se ouvirão remoques ao prazer da reticência. Espanta-me, todavia, vê-la operativa num filme como este, em que a maneira tem marca, mas me parece limpa de ganga."
"A fita tem história simples: Elizabeth (Norah Jones) sofre um desgosto de amor e, em vez de confrontar, mexer, remexer a ferida, decide ir embora, após conhecer o dono de um bar (Jude Law) que, apesar de ter muito poucos clientes a gostar de tarte de mirtilo, a mantém no menu, porque pode aparecer alguém que a mereça — e ela merece. Ele mesmo está num processo de cura, desintoxicação de uma mulher que tarda em voltar."
"Elizabeth parte, portanto, estrada fora, num curso que, de Nova Iorque, a levará até ao Pacífico oceano, encontrando na rota criaturas que de um mal similar sofrem. Nisto de afectos, a geografia conta pouco. E temos direito a duas histórias — a de Rachel Weisz e a de Natalie Portman — que, noutros tempos, talvez fossem dois «sketches» de um filme desse modo arrumado, mas que, em pleno século XXI, se engrenam no mesmo corpo. Gosto das duas, cada uma com seu sabor, a primeira mais dramática, interior, mortal, a segunda mais solar, veloz, colorida, uma tintada a álcool, a segunda desenhada a Jaguar."
"Gosto dos actores e das actrizes que lhe dão carne, seja ela feita de suor e sexo (Rachel Weisz), seja de cor e liberdade (Natalie Portman), mas gosto, sobretudo, do jogo firmado na «mise-en-scène», dessa impotência que Wong Kar Wai manifesta em pôr a câmara de frente e filmar. Qual quê?! Se não houver um vidro de permeio, e nesse vidro uma cintilação de revérbero, se não houver um objecto entre os actores e a câmara não teimar em rodeá-lo, se o mundo, enfim, não tiver simplicidade e existirem sempre portas, manchas, espelhos, montras, obstáculos, traços de cor, fulgores, Wong Kar Wai pura e simplesmente não consegue filmar."
Título original: My Blueberry Nights
De: Wong Kar-wai
Com: Jude Law, Norah Jones, Chad R. Davis
Género: Dra, Rom
Classificação: M/12
EUA, 2007, Cores, 90 min.
"Não são precisos nem cinco minutos para que, mesmo se genérico não houvesse, um espectador atento identifique estar perante um filme de Wong Kar Wai. Isto é tão raro no cinema que vale o seu peso em ouro. Os cromatismos marcados (aqueles vermelhos e azuis de uma tonalidade precisa de que ele bem podia reclamar autoria e respectivos direitos), o gosto pela câmara movente, pelos néons, numa composição dos planos tão bizarra quanto inebriante, a música que desliza como uma segunda pele, a noite com os seus reflexos, tudo está desenhado para mostrar ao mundo que a chegada do realizador à América não o fez perder o lastro dos seus traços de orientais, da sua imagem de marca."
"Precisemos, todavia, um facto. De americano, My Blueberry Nights – O Sabor do Amor tem o espaço de rodagem, a língua e os actores, mas não os capitais que permitiram a Wong Kar Wai filmar esta travessia pela América. O dinheiro veio de França, da China e de Hong Kong, tendo os irmãos Weinstein adquirido direitos de distribuição americanos, mas sem participar directamente na produção."
"Precisemos, todavia, um facto. De americano, My Blueberry Nights – O Sabor do Amor tem o espaço de rodagem, a língua e os actores, mas não os capitais que permitiram a Wong Kar Wai filmar esta travessia pela América. O dinheiro veio de França, da China e de Hong Kong, tendo os irmãos Weinstein adquirido direitos de distribuição americanos, mas sem participar directamente na produção."
"Abertura do Festival de Cannes o ano passado (e do lusitano IndieLisboa, há uma semana apenas), My Blueberry Nights – O Sabor do Amor teve uma recepção matizada a reticências, aquela «fine bouche» que os críticos gostam tanto de fazer, sobretudo a um autor aclamado em que detectam um suposto passo em falso. Não será da minha boca, há mais de trinta anos neste labor, que se ouvirão remoques ao prazer da reticência. Espanta-me, todavia, vê-la operativa num filme como este, em que a maneira tem marca, mas me parece limpa de ganga."
"A fita tem história simples: Elizabeth (Norah Jones) sofre um desgosto de amor e, em vez de confrontar, mexer, remexer a ferida, decide ir embora, após conhecer o dono de um bar (Jude Law) que, apesar de ter muito poucos clientes a gostar de tarte de mirtilo, a mantém no menu, porque pode aparecer alguém que a mereça — e ela merece. Ele mesmo está num processo de cura, desintoxicação de uma mulher que tarda em voltar."
"Elizabeth parte, portanto, estrada fora, num curso que, de Nova Iorque, a levará até ao Pacífico oceano, encontrando na rota criaturas que de um mal similar sofrem. Nisto de afectos, a geografia conta pouco. E temos direito a duas histórias — a de Rachel Weisz e a de Natalie Portman — que, noutros tempos, talvez fossem dois «sketches» de um filme desse modo arrumado, mas que, em pleno século XXI, se engrenam no mesmo corpo. Gosto das duas, cada uma com seu sabor, a primeira mais dramática, interior, mortal, a segunda mais solar, veloz, colorida, uma tintada a álcool, a segunda desenhada a Jaguar."
"Gosto dos actores e das actrizes que lhe dão carne, seja ela feita de suor e sexo (Rachel Weisz), seja de cor e liberdade (Natalie Portman), mas gosto, sobretudo, do jogo firmado na «mise-en-scène», dessa impotência que Wong Kar Wai manifesta em pôr a câmara de frente e filmar. Qual quê?! Se não houver um vidro de permeio, e nesse vidro uma cintilação de revérbero, se não houver um objecto entre os actores e a câmara não teimar em rodeá-lo, se o mundo, enfim, não tiver simplicidade e existirem sempre portas, manchas, espelhos, montras, obstáculos, traços de cor, fulgores, Wong Kar Wai pura e simplesmente não consegue filmar."
"Maneirismo? Já aconteceu — mas não em My Blueberry Nights – O Sabor do Amor. No traçado de solidões, no caminho do esquecimento que permite a Elizabeth tornar a Nova Iorque e reacender a vontade de amar, a forma de que se serve Wong Kar Wai tem o artificialismo bastante para nos consentir uma judiciosa degustação formal, sem perder de vista que o importante é os sentimentos. Bom, mesmo bom, é sorver a linguagem, mas ninguém dispensa que a pele vibre de caminho. Por outro lado, convenhamos não ser Norah Jones uma actriz excelsa, mas concedamos que cumpre e dispensemos todos os aplauso ao triunvirato Jude Law/Rachel Weisz/Natalie Portman que brilha neste filme enleante de um mestre do cinema destes dias."
Jorge Leitão Ramos, Expresso de 03/05/2008
Jorge Leitão Ramos, Expresso de 03/05/2008
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