
Jean Paul Sartre e André Glucksman.
No caderno DNA, inserido no DIÁRIO DE NOTÍCIAS de hoje (13/08/2004), estão contidas algumas inverdades "politicamente correctas" acerca de dois intelectuais franceses: Jean Paul Sartre e André Glucksman.
É verdade que Sartre criou o existencialismo ateu. Não é menos verdade - o que ali não é mencionado - que tal constitui uma dupla contradição. A filosofia existencialista foi criada como resposta à crise da razão, há mais de 200 anos, por Kierkegard, e consistia essencialmente na defesa do Homem individual e concreto, crente em Deus. Logo, falar de existencialismo ateu não faz sentido. O mesmo se pode afirmar relativamente à conciliação dos "hossanas" cantados por Sartre a Marx, Engels, Lenine, Estaline, Mao, a URSS, a China e a Albânia com o Homem individual e concreto, pois o comunismo assenta na defesa do colectivismo e no "esmagamento do individualismo burguês", como se diz na gíria, o que conduziu a sociedades totalitárias e concentracionárias.
Diz a mesma peça que Sartre foi um dos maiores pensadores franceses, chamando-lhe mesmo "maitre à penser". Um mestre do pensamento cairia em contradições daquelas? Saberá o autor da dita peça, José Mário Silva, que Sartre tinha grande dificuldade em acabar as suas obras?
Também é afirmado que André Glucksman foi um dos principais dirigentes do Maio de 68, sendo então e já durante os anos 70, maoista, tendo "virado praticamente para a direita radical".A parte final é pura mentira. Glucksman abandonou a extrema-esquerda, há cerca de 30 anos, e criou com Bernard Henri Levy e outros ex-esquerdistas o chamado movimento dos novos filósofos, defensor de um novo humanismo consistente na recusa e denúncia de todas as ditaduras e violações dos direitos humanos, na apologia da democracia e da liberdade.
Tal movimento foi importante na denúncia do totalitarismo comunista. Certamente, por tal motivo, o dito colaborador do DN sentirá algumas cócegas que o levam a deturpar ideias e factos em nome da correcção política. Ainda será dos que acham que atacar o comunismo é ser reaccionário? Parece não ter aprendido nada com a História recente.
Os PC (politicamente correctos) costumam ver em toda a gente de esquerda grandes intelectuais e pensadores. O próprio Sartre dizia que quem não fosse de esquerda não era inteligente, sendo tal tese rebatida e desmontada por um intelectual francês que começou na esquerda e se tornou liberal-conservador, Raymond Aron. Saberá o Sr. José Silva quem é Aron e outros intelectuais da direita francesa democrática, como Jean D'Ormesson,Jean François Revel, François Furet, ou Stefan Courtois, que é de esquerda, mas anti-comunista? Saberá que nos anos 30/40, houve em França intelectuais fascistas destacados, como Robert de Brasilach, Céline ou Drieu de la Rochelle?
Como já referi em diversos artigos escritos para a blogosfera sampedrense e não só, não tenho qualquer simpatia pelo fascismo. Como o Dr. Álvaro Cunhal também não tem, o que não o impediu de em entrevista concedida há alguns anos dizer: "Céline era fascista, mas era um grande escritor". A correcção política leva, como se vê, a ser mais papista que o Papa. Quando tal acontece, cai-se no ridículo.
Por Manuel Silva