21.8.04

EX-MAOISTAS


Andy Warhol, Mao #91

Na edição da revista PÚBLICA, inserida no PÚBLICO, do passado dia 15 de Agosto, vinha uma reportagem com e sobre diversos ex-maoistas. A conhecida Procuradora da República, Maria José Morgado, ex-militante do MRPP e ex-dirigente da sua organização estudantil, a FEML (Federação dos Estudantes Marxistas-Leninistas), afirmou "ainda bem que não tomámos o poder".

Cerca de um ano antes de eu ter saído do MRPP, um amigo meu, independente de esquerda, disse-me: "se os teus camaradas Arnaldo Matos e Garcia Pereira fossem poder, tu poderias ter um lugar de destaque nos primeiros tempos, mas depois, serias uma das primeiras vítimas. Ou levavas um tiro na cabeça, ou acabavas num capo de concentração".

Hoje, dou toda a razão à minha ex-camarada Maria José Morgado e àquele meu amigo. Os maoistas são uma espécie rara. O próprio Abimael Guzzman, "o Presidente Gonzalo", o "maior marxista-leninsta vivo", "o líder da revolução mundial", presidente do Partido Comunista do Perú, mais conhecido por Sendero Luminoso, reconheceu na proposta de conversações de paz que fez, em 1993, ao governo peruano, que o marxismo não lidera quase nenhum movimento de massas, o que levou a direcção do seu partido, a considerá-lo, recentemente, traidor e neo-revisionista.

Em Portugal, resta o PCTP/MRPP, que apesar de ter votações superiores às de 1976, tem pouquíssimos militantes e nenhum "revolucionário profissional", como dizia Lenine. Na prática, não tem qualquer influência, especialmente nas fábricas, nos sindicatos e associações de estudantes, como em tempos idos. O seu secretário-geral (Arnaldo Matos saiu do partido, apesar de manter ainda ligações ao mesmo) Luís Franco, operário electricista e sindicalista no Metro, porque limitado política e culturalmente, não tem a projecção do seu antecessor. Nunca encabeça listas, nem aparece em conferências de imprensa. Ou seja, não passa de uma figura decorativa e inocente útil de Garcia Pereira, o líder de facto, a quem sempre teve grande ligação e por quem foi utilizado.

Não é por acaso que Luís Franco foi o escolhido para tais funções, as quais, certamente, Garcia Pereira não quer exercer por razões pessoais. Poderia ter sido escolhido Carlos Paisana, advogado, Homem de rara inteligência e grande honestidade, que foi um dos meus melhores amigos. Apesar de estarmos de relações cortadas (aquela gente deixa de falar a quem sai), reconheço aquelas suas qualidades e continuo a admirá-lo e a vê-lo como uma pessoa de boas intenções. Se não foi esta a escolha, é porque Garcia Pereira sabe que nunca o controlaria.

Nos anos 60, o conservadorismo social levou parte considerável da juventude à extrema-esquerda e particularmente ao maoismo, por associar o mesmo conservadorismo ao capitalismo e ao sistema parlamentar. Por outro lado, a adesão a tais ideais deveu-se à contestação ao "revisionismo" e "social-fascismo" soviéticos. Se tal aconteceu na Europa e nos EUA, em Portugal, porque se vivia um grande atraso económico, social e cultural, resultante da ditadura salazarista, e havia a guerra colonial, tais ideias tiveram muito melhores condições para germinar.

O 25 de Abril e a revolução que se lhe seguiu deram novo alento à exterma-esquerda e ao maoismo, muito especialmente. Com a derrota da revolução em 25 de Novembro de 1975, as mudanças na China e na Albânia, após a verificação de que constituiram embustes iguais ao soviético, a maioria dos esquerdistas, à semelhança dos seus congéneres estrangeiros, converteu-se à democracia parlamentar, aderindo em massa ao PSD e ao PS. Não foi por acaso que ninguém foi parar ao CDS ou ao PCP. Se nos fizemos politicamente contra o PC, o mesmo aconteceu relativamente à direita ultra-conservadora e dos interesses, representada pelo partido de Paulo Portas.

Aqueles movimentos tiveram, no entanto, aspectos positivos: levaram os sistemas capitalistas a integrar algumas das suas ideias, adoptando uma prática mais social e as sociedades tornaram-se mais abertas. Houve, no entanto, alguns "filhos" degenerados de tais movimentos: o relativismo moral e filosófico, tão ou mais pernicioso que o conservadorismo social e o terrorismo praticado por grupos como os Baader-Meinnhof, as Brigadas Vermelhas, ou as FP 25, consequêncis do desespero sentido, ao verem falhar os seus projectos.

O terrorismo daquelas organizações acabou, após ter espalhado destruição e morte. O relativismo mantém-se, com consequências negativas. Combatê-lo é hoje tão útil como a luta travada contra o conservadorismo social de há 30/40 anos, pois pode levar à destruição da civilização e da liberdade que respiramos.

Por Manuel Silva