Mário Vargas Llosa
No caderno DNA, do DIÁRIO DE NOTÍCIAS, vem um artigo publicado pelo escritor peruano Mário Vargas Llosa no EL PAÍS sobre a relação entre o Estado e os agentes culturais. Em linhas gerais afirma que os subsídios do Estado na cultura promovem a dependência do poder, mesmo em democracia, e castram a liberdade de criação, consequentemente. Afirma dever ser a cultura apoiada pela sociedade civil. O que o Estado pode fazer pela cultura é incentivá-la através de benefícios fiscais aos mecenas. A subsidiodependência de intelectuais e artistas, especialmente destes últimos, foi uma das marcas de água da política cultural de Manuel Maria Carrilho e Santana Lopes. Há, no entanto, uma diferença entre eles. Carrilho é bem mais culto que Santana Lopes. Lembram-se dos célebres violinos de Chopin?
Há duas frases de Vargas Llosa a reter fundamentalmente no dito artigo: "o Estado não promove o talento, mas a submissão", aqui a citar um amigo seu e "nós, os liberais, somos contra todos os monopólios e pela concorrência, também na cultura". Por essas e outras, eu, tal como Vargas Llosa, sou um ex-comunista convertido ao liberalismo.
O autor de "Conversa na Catedral" afirma que todos os ditadores são execráveis e nenhum merece respeito. Segundo notícias publicadas em vários jornais, o ex-ditador chileno Augusto Pinochet viu a sua imunidade levantada pelo poder judicial, devendo responder pelos crimes que cometeu. Não é revanchismo, é um acto de justiça. Apesar dos seus 85 anos e de o seu estado de saúde ser periclitante, deverá ser julgado pelo mal que fez. As suas mãos estão sujas de sangue. Nem que fique isento do cumprimento de pena em que possa ser condenado, à semelhança de um ex-dirigente nazi alemão, condenado a prisão perpétua, o qual conta mais de noventa anos. Mais do que aqueles tiranos, quem são julgados são os regimes que representaram.
Recordamos que Paulo Portas, há alguns anos, na oposição, se recusou a condenar Pinochet e relativizou os seus crimes!
Antes que o Robin ou outra pessoa me recorde, eu lembro que também Margareth Thatcher, por quem nutro grande admiração, bem como pela revolução liberal que dirigiu no Reino Unido, desculpou Pinochet, pelo seu papel na luta contra o comunismo. Aí, estou em desacordo com Lady Thatcher. No seu tempo, eu, se fosse inglês, votaria no Partido Conservador, o mais próximo das ideias liberais. Hoje, porque está muito à direita, votaria no Partido Trabalhista, o qual de socialista nada tem e está próximo do liberalismo clássico e moderno, na acção.
Na revista ÚNICA, do EXPRESSO, Rui Henriques Coimbra desfaz-se em elogios ao cineasta Moore e ataca violentamente Bush pela guerra contra o regime do fascínora nacionalista/socialista de Saddam. Na sua peça e nas citações do mesmo Moore não é proferida uma única palavra de condenação para com o sátrapa Saddam, responsável pelo assassinato de entre 6 e 8 milhões de pessoas, que vivia, tal como os seus familiares, no fausto, enquanto o povo passava miséria. Nem um elogio se vê relativamente aos esforços do actual governo iraquiano, LEGITIMADO PELA ONU, para construir uma sociedade democrática, promovendo eleições livres no início do próximo ano.
Se o Iraque tivesse estado sujeito a uma ditadura de direita, teriam (Coimbra e Moore) a mesma reacção? Pois é, para a esquerda, há ditadores bons e maus. Ou, como dizia um ditador português, Oliveira Salazar, "de um familiar ou amigo, quando não podemos dizer bem calamo-nos" .
Por Manuel Silva