31.8.04

REVOLUÇÕES MAOISTAS NO PERÚ E NO NEPAL


Abimael Guzzman

Pelos motivos que referimos em anterior artigo, com o título "Ex-maoistas", nos anos 60 e 70, houve uma vaga maoista que varreu a Europa e a América, que teve implantação nas escolas e nas fábricas, especialmente entre operários jovens.

O maoismo desapareceu, especialmente após as mudanças operadas na China e na Albânia, os "bastiões do socialismo" no mundo e na Europa, como, na altura lhes chamávamos. Restam minúsculas organizações sem implantação que se veja junto das "massas", como é o caso do PCTP/MRPP.

O que resta de partidos e organizações maoistas criou, há 20 anos, o MRI (Movimento Revolucionário Internacionalista), uma espécie de nova internacional, que aponta como novo líder da revolução mundial o presidente do PC do Perú, mais conhecido por Sendero Luminoso, Abimael Guzzman, o "camarada Gonzalo". O MRPP não faz parte deste movimento. Por um lado, porque não gostará de considerar alguém além de Arnaldo Matos como novo líder revolucionário, por outro lado, terá dificuldades em ser reconhecido além fronteiras. Já nos velhos tempos, a China apoiava o PCP(m-l), de Heduino Gomes (Vilar), actual militante do PSD, e a Albânia apoiava o PCP(R), que utilizava a UDP, uma das componentes do BE, como frente de luta. Como é sabido, ambos aqueles partidos desapareceram.

Das organizações membros do MRI, não se ouve falar nas notícias internacionais. Exceptuam-se, porém, duas: o PC do Perú e o Partido Comunista do Nepal (maoista), liderado pelo "camarada Prachanda", porque desencadearam guerras naqueles países que originaram a morte de muitos milhares de pessoas.

O Perú e o Nepal são países muito pobres, com grandes diferenças sociais e classes médias minoritárias, além de, entre pequenos interregnos de democracia, terem sido oprimidos por ferozes ditaduras de direita e cleptocráticas, constituindo um caldo de cultura para atrair operários, camponeses, estudantes idealistas e outras camadas da população, ainda que minoritárias, para a revolução.

Os principais dirigentes daquelas organizações não são operários e muito menos pobres, mas intelectuais aderentes ao comunismo, convencidos que lutavam pela justiça humana e social. O seu desejo de em nome desses princípios (estão convencidos que lutam por uma sociedade melhor) estabelecerem uma sociedade perfeita levou-os ao terror, sequestrando e assassinando barbaramente todos os que se lhes opõem, incluindo muitos pobres e miseráveis que não aceitam as suas utopias.

Não é o facto de se ser culto que impede de se ser bárbaro. Abimael Guzzman é um brilhante intelectual. Foi professor catedrático de filosofia na Universidade de Ayacucho, zona onde se iniciou a guerrilha. A sua tese de doutoramento (sobre a perspectiva marxista da filosofia kantiana) é considerada uma das mais importantes obras filosóficas das últimas décadas! Historica e actualmente, muitos intelectuais se comprometeram com a barbárie em nome de boas intenções que enchem o inferno. Porque uma boa parte da intelectualidade pensa ser possível a perfeição social que poderá existir na literatura, num filme, ou num quadro e essa perfeição não é possível nas democracias, as quais assentam na livre opção e na diferença, identifica-se com ideologias totalitárias.

No Perú, como afirmámos no citado artigo, a guerrilha restringe-se a pequenos focos, após a prisão da maioria dos dirigentes senderistas. No Nepal, os guerrilheiros estão activos e controlam praticamente metade do país, podendo vir a tomar o poder, tornando aquele país, provavelmente, num segundo Camboja dos tempos do fascínora Pol Pot, também maoista.

Não basta combater militar e policialmente estes guerrilheiros. É necessário combater a pobreza e a miséria, através de uma verdadeira democracia, assente em eleições livres, na defesa dos direitos e garantias fundamentais e na liberalização acompanhada de uma forte componente social. Só assim aqueles idealistas amorais, como diz o meu amigo Pacheco Pereira, serão derrotados. Como afirmava Sá Carneiro, "o comunismo combate-se acabando com a miséria".

Por Manuel Silva