27.10.04

OS JOVENS DO PP NÃO SÃO NEO-CONSERVADORES
(NO SENTIDO AMERICANO DO TERMO)



Paulo Portas afirmou à sua juventude (umas escassas sessenta pessoas) que participou na Universidade de Verão em Setúbal: "sois neo-conservadores, por serdes novos e conservadores".

Como é sabido, na América, conservador tem o mesmo significado de liberal na Europa, enquanto liberal significa ser de esquerda.

Uma boa parte dos neo-conservadores veio da extrema-esquerda (Irving Kristol, Norman Podhoretz, ou o falecido Eldrige Cleaver, antigo dirigente dos "Panteras Negras", um grupo terrorista esquerdista dos anos 60) e da esquerda moderada (Robert Kagan ou Karl Rove).

O termo neo-conservadorismo significa renovação do pensamento conservador (leia-se liberal na gíria europeia). Aquela corrente é conservadora no que toca à defesa de valores tradicionais como a pátria, a família e a ética, mas sem cair em moralismos e repudiando o nacionalismo, pois defende o que se pode apelidar de messianismo democrático na libertação de povos e nações da opressão. Estão implícitos na mesma corrente princípios religiosos, especialmente uma referência à herança judaico-cristã, a qual, aliás, segundo muitos agnósticos, foi fundamental para a democracia criar raízes no Ocidente. No entanto, essa religiosidade tem implícita a separação entre Estado e Religião.

No que tange à organização do Estado e da economia, os neo-conservadores são liberais. No plano social, defendem a complementaridade entre o Estado e instituições particulares de solidariedade social, fazendo o Estado o que estas não tiverem condições para realizar.

Os neo-conservadores sempre defenderam políticas activas de integração de imigrantes e a igualdade de oportunidades para todos, independentemente do "estatuto social" ou da cor da pele.

Afirmações de dirigentes do PP, com destaque para o próprio Portas, como: "primeiro os portugueses, depois os imigrantes", ou de que, segundo estatísticas nunca confirmadas, a maioria dos crimes praticados em Lisboa são-no por negros (dito na última campanha autárquica) são contrárias àqueles princípios. Trabalhei no Tribunal da Boa Hora, onde vi muitos delinquentes serem condenados. A maioria eram brancos e portugueses. Os negros e ciganos eram uma minoria.

Também o nacionalismo serôdio que o PP parece ter arrumado temporariamente na gaveta está em contradição com o internacionalismo democrático dos "neo-con".

Por todos estes motivos, o PP (e a sua jota) está mais perto de Le Pen que dos neo-conservadores e, de um modo geral, dos republicanos americanos, os quais eu, liberal e adversário do conservadorismo social do PP, apoio.

Por Manuel Silva