21.1.05

GLOBALIZAÇÃO ECONÓMICA, SIM. SOCIAL TAMBÉM



O Presidente da República disse na China que a evolução para um regime democrático não se faz à cotovelada. É certo ter razão relativamente a países com tradições totalitárias desde há longas décadas e com um aparelho de Estado extremamente forte e concentracionário, como é o chinês.

Só que, naquele país, a abertura e a liberalização têm sido apenas económicas e não políticas. Continuam a existir um regime de partido único, uma feroz repressão sobre qualquer movimento dissidente e a pena de morte, incluindo por enforcamento.

Em consequência da sua liberalização, a economia chinesa tem atingido grande pujança. Os têxteis daquele país estão a invadir o mundo inteiro.

É certo que se se pretende combater a pobreza nos países menos desenvolvidos, os países ricos terão de abrir as fronteiras aos seus produtos. Com o consequente desenvolvimento económico verificado naqueles países e correlativa melhoria de poder de compra, o Ocidente poderá apostar em produtos que ali possam ser comprados e lucrar com tais trocas comerciais.

Só que, como em outros países do hemisfério sul, na China trabalha-se 12 e 14 horas por dia, sem sindicatos livres ou direito à greve, como, aliás, acontecia no tempo de Mao. Recordo, a propósito, uma frase do maoista Arnaldo Matos, num comício do MRPP, no Verão de 1975: "camaradas, temos que lutar pela semana das 40 horas. Deve ser um dos objectivos centrais do movimento operário e popular. Enquanto estivermos em regime capitalista. Em regime socialista, trabalharemos as horas necessárias para defesa e salvaguarda da revolução". Estas palavras mostram claramente o que significam os direitos dos trabalhadores para um comunista na oposição e no poder...

A experiência prova que o comércio livre faz crescer a economia e melhorar as condições de vida das populações. No entanto, o liberalismo não deve ser só económico, mas também político. Ser liberal, na mais ampla acepção do termo, é defender uma economia de mercado regulada pelo Estado de Direito Democrático.

A globalização deve ser económica, mas tamém social, como tem defendido o papa João Paulo II. Uma das condições para a admissão de qualquer país na OMC deveria ser a do respeito pelos direitos dos trabalhadores, tal como são garantidos nos sistemas jurídicos democráticos ocidentais. Países que praticam o "dumping social" deveriam ser banidos do livre comércio internacional.

Por Manuel Silva