16.3.05

O CRISTIANISMO E A QUESTÃO SOCIAL

"É permitido roubar em caso de necessidade extrema? É". Quem é o autor desta frase? Algum revolucionário esquerdista, algum anti-capitalista primário? Não, pertence a S. Tomás de Aquino, santo e filósofo da escolástica, do séc. XIII, vilipendiado pela vulgata marxista e considerado por João Carlos espada, em artigo recente, como "o primeiro liberal".

"Quando damos aos miseráveis as coisas que lhes são indispensáveis, não lhes fazemos qualquer favor; devolvemos-lhes aquilo que lhes pertence". Esta afirmação é ainda mais antiga, do séc. VI, e pertence ao papa S. Gregório Magno.

No Concílio Vaticano II foi concluido que "aquele que se encontrar em extrema necessidade tem direito de tomar, dos bens dos outros, o que necessita" (Gaudium et Spes).

Talvez alguns crentes fiquem chocados com as expressões acima referidas, vindas de Papas e de um santo que deu nome a um saudoso colégio em tempos existente em S. Pedro do Sul, no qual fui estudante, no ano lectivo de 1970/71. No entanto, as mesmas não põem em causa o direito de propriedade, que realiza o ser humano. Vêm dizer-nos, isso sim, é que a propriedade privada tem de ter uma função social e estar ao serviço do bem comum. Que o mercado só faz sentido e é justo se diminuir e não aumentar as desigualdades. Se atacar a pobreza e não tornar os ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Se for conjugado com a solidariedade e a justiça social. São estes os desafios que o cristianismo lança à globalização e especialmente aos vencedores ideológicos mais recentes: os liberais.

É isto o verdadeiro cristianismo social. Cristo nasceu, viveu e morreu pobre. Trabalhou como operário carpinteiro, com S. José, cujo dia, aliás, se comemora no próximo sábado. O Seu exemplo de pobreza e desprendimento de bens materiais não implica termos de ser pobres para sermos cristãos, mas pormos a riqueza criada ao serviço da comunidade e, em particular, dos mais pobres. É isso mesmo que Cristo quis dizer ao afirmar ser mais fácil um camelo passar no buraco de uma agulha que um rico entrar no reino dos céus.

Por Manuel Silva