26.1.07

Debate parlamentar: Sócrates é um exemplo do estilo de debate parlamentar que se tornou dominante nos últimos anos. Nesse estilo de debate é bom, faz bem a parada e a resposta, é ágil, agressivo no incidental, não tem pejo nenhum em usar expressões como "somos os primeiros na Europa a...", ataca sempre que pode o PSD (ele que é um pragmático sabe que o PSD é a alternativa e, mesmo minimizando a oposição, ataca-a frase sim, frase sim) mesmo em questões de Estado que implicariam distância da polémica inter-partidária. No seu conjunto, não tem grande vocabulário nem referências fora da política mais imediata, é eficaz para uma televisão complacente, repete o mesmo quantas vezes for preciso, para não dispersar o que quer dizer e condicionar a citação, é muito próximo do estilo jornalístico de tratar as questões, não tem dúvidas, nem hesitações. É monocórdico, proclama muito e ouve pouco. Tem umas noções de marketing e de comunicação, para além do treino que lhe dá a política profissional. Depois, Sócrates traz da sua formação académica de engenheiro, um know-how técnico e uma mentalidade tecnocrática. Hoje, ao falar de energia e de ambiente, de vez em quando lá aparecia o jargão, por exemplo quando falou de um "mix" de fontes de energia, pequenas palavras denunciadoras de um estilo de leitura de relatórios e de apresentações de PowerPoint.

É um estilo de intervenção parlamentar que ele partilha com a sua geração de políticos, com carreiras mais ou menos profissionalizadas nos partidos desde as juventudes. Vivendo num meio em que quase só se fala de política, só se lêem jornais, só se vê noticiários, adquire-se uma memória orientada para a narrativa política estereotipada, um traquejo no incidente e contra-incidente, na lembrança insidiosa ("tu acusas-me de fazer isto, mas tu também já fizeste aquilo"...), no responder ao lado, em habilidades múltiplas. Tudo isto ele faz bem, insisto, melhor do que os outros oficiais e os muitos aprendizes da mesma escola, que enchem o Parlamento.