21.10.07

A Estranha em Mim
Título original: The Brave One

De: Neil Jordan

Com: Jodie Foster, Terrence Howard, Nicky Katt
Género: Dra, Thr

Classificação: M/16

Austrália/EUA, 2007, Cores, 119 min.


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"Ela tem um programa de rádio onde conta histórias de Nova Iorque, a cidade que, dizem, não dorme. Ela vive uma história de amor tão frisada de romantismo que todos nós sabemos — é um filme de Neil Jordan, não? — que, fatalmente, não pode durar. Ela e o noivo são, então, atacados num túnel de Central Park, noite fatídica em que um grupo de marginais os espanca, enquanto um deles filma a cena com uma câmara de vídeo (pois não estamos nós na época do voyeurismo?). Ele morre e ela fica em coma. Quando sai, as feridas do corpo vão sarando, na lenta recuperação que o tempo proporciona. Mas não as da alma. Erica descobre-se com medo, insegura em todas as situações, a realidade ganha perfis de pesadelo, passos em volta passam a ser sintoma de um atacante em movimento. Resolve, então, comprar uma arma. E sente-se muito melhor. Uns dias depois dispara-a, pela primeira vez, contra um assaltante numa loja de conveniência, fora de horas. E fica espantada com o que sente. Nós, também. Na cidade que a câmara de Philippe Rousselot transfigura (dessaturando as cores e tornando-a fantasmática) há quem resista ao caos, à incapacidade da Polícia, ao laxismo geral."

"O cinema tem destas coisas. Nós olhamos Jodie Foster vagueando pela noite de uma Nova Iorque que mais parece Gotham City e não podemos evitar ver outras sombras naquele rosto duro, naquela fremência dos olhos, na pressão dos maxilares, no estremecimento tenso que perpassa por aquele corpo, afinal tão pequeno, afinal tão frágil. A sombra de uma adolescentezinha prostituindo-se por conta de um chulo de chapéu grande (Taxi Driver) ou de uma jovem agente do FBI em jogos perigosos com o mais temível e sedutor dos «serial killers» (O Silêncio dos Inocentes). E não apenas porque Jodie era a actriz de ambos os filmes, mas porque ambas eram personagens bifaces, com qualquer coisa de abissal, que nos atraíam, mas faziam medo. Um medo que não nascia do mal que nos pudessem fazer, antes do mal que pudessem revelar em nós. É dessa estirpe a Erica Bain de A Estranha em MimThe Brave One (por uma vez, um título português é melhor que o redutor original ). O espectador fica refém da mesma sensação de insegurança da protagonista, na cidade que positivamente se transfigura após o entremez romântico dos primeiros minutos. Projecta-se nela, no seu sofrimento, até na atitude desesperada de comprar uma arma porque já não aguenta a pressão de se sentir apavorada, mesmo nas situações mais triviais. E quando ela a usa, pela primeira vez — em legítima defesa — o espectador sente, com ela, uma impressão de alívio. Mas quando a usa, na vez seguinte, ela que ficou ali, na carruagem do metro, em aberta sensação de perigo, percebemos que já não se trata de elementar autoprotecção, mas de poder. O maior de todos — o que separa a vida da morte e que é prerrogativa exclusiva de Deus. Terrível volúpia que não queremos saber que podemos sentir."

"Temos, então, que A Estranha em Mim não é a história de uma justiceira securitária. Jodie Foster não é, definitivamente não é, uma versão feminina de Charles Bronson que andou a fazer sequelas de Death Wish durante 20 anos. Em vez disso, é uma parábola sobre a paranóia americana «na cidade mais segura do mundo», como diz Erica, no início, mas que se está a desfazer. Já nem há corredores no Plaza por onde passe a memória, nem aquele belíssimo bar onde se podia fumar mesmo em tempos de proibição e onde sentíamos vagar a presença de Cary Grant, antes de ser raptado numa Intriga Internacional que, agora, guarda uma lembrança irrecuperável. Essa cidade que o 11 de Setembro marcou e cuja resposta os americanos interrogam — mais que ninguém, porque a sofrem — se não terá sido fora de todas as proporções. Mesmo que fosse apetecível, mais horrífica porque era apetecível. A Estranha em Mim é o tremor de nos vermos ao espelho e não sabermos se somos quem sempre julgáramos ser."

"E é, sempre e superlativamente, Jodie Foster, outra vez brilhante, outra vez a transpirar inquietude, outra vez perturbada e perturbante, com aquele grão na voz a aparentar calmaria e a induzir sensações indizíveis, a dar-nos uma Erica Bain a cerrar os dentes diante das suas inseguranças, de quem gostamos mas não queremos gostar, na lâmina afiada que separa o Bem e o Mal — e nós já nem sabemos, como ela não sabe, de que lado estar. É que a vingança não é um direito, mas pode ser uma inevitabilidade."


"Vale a pena rematar dizendo que A Estranha em Mim é um dos grandes filmes do ano?"
Jorge Leitão Ramos, Expresso de 20/10/2007