Título original: The Lookout
De: Scott Frank
Com: Joseph Gordon-Levitt, Jeff Daniels, Matthew Goode
Género: Dra, Thr
Classificação: M/12
EUA, 2007, Cores, 99 min.
"Vigilante é um título enganador, porque o seu significado pode ser tomado noutro sentido. Habituados que estamos a um cinema de acção brutal e a justiceiros expeditos, poder-se-ia tirar a ilação de que se trata de mais uma variação do «justiceiro por conta própria», o «vigilante» segundo Charles Bronson e outros do mesmo gabarito. Ora, «vigilante» tem, aqui, o seu significado mais prosaico, o do homem que guarda um edifício a horas em que todos os outros dormem. Prosaico e simples. É uma espécie de guarda-nocturno, colocado num pequeno banco de província."
"Mas a personagem do «vigilante» é menos prosaica e simples do que a sua função. É um homem «doente» e atormentado. Um jovem, que fora uma das grandes promessas do hóquei no gelo da universidade que frequentava e que ficou reduzido quase a um farrapo em consequência de um trágico acidente quando, com a namorada e uns amigos, andava velozmente pela estrada, à noite, de luzes apagadas, pelo prazer de ver os pirilampos brilhando na escuridão, cruzando-se com eles, como pequenos fogos-fátuos, e acabando por chocar com uma debulhadora que deixa marcas irreversíveis em todos. O jovem, Chris (Joseph Gordon-Levitt, que os espectadores conhecem da série de televisão Terceiro Calhau a Contar do Sol e do filme há pouco estreado Mysterious Skin), sai do hospital com um traumatismo cerebral que lhe afecta a memória, e se vê forçado (como o herói de Memento) a tomar notas dos seus actos, para saber o que fez e o que deve fazer. Os pirilampos tornam-se, deste modo, uma espécie de metáfora do que é a sua vida, acendendo e apagando, em pequenos «flashs»."
"Chris, que se recusa a viver com os pais, gente abastada, por julgar ter destruído os sonhos que nele se depositavam, habita num pequeno apartamento com outro deficiente, um cego (Jeff Daniels), apoiando-se, como podem, nas necessidades comuns. A deficiência de Chris irá ser aproveitada por um gang que planeia assaltar o banco da cidade, que ele guarda de noite. De um sombrio drama existencial, passa-se, de uma forma simples, para o «thriller» policial. Mas trata-se de um «thriller» sui generis, mais ou menos fora das normas, apesar de um final de características violentas."
"Vigilante tem todas as marcas de um clássico «thriller» americano dos anos 40 ou 50. Aliás, a personagem, e a situação para que é arrastada, assemelha-se a muitas criadas por autores do género daquela época, como William Irish ou, em particular, David Goodis, cantor de seres atormentados e marcados (veja-se o fabuloso Ao Cair da Noite/Nightfall, de Jacques Tourneur/1956). Como nas histórias de Goodis, e noutros filmes clássicos do género, a operação meticulosamente preparada acaba por falhar pelo (in)esperado factor humano, culminando numa dramática sequência final no campo coberto de neve (imagem que remete, de novo, para Ao Cair da Noite)."
"O autor de Down There (de onde François Truffaut tirou um dos seus grandes filmes, Disparem Sobre o Pianista) deve ter sido a inspiração de Scott Frank para o argumento deste filme, que trabalha a fundo as personagens, mais interessado nelas e nas suas motivações (mesmo o chefe do gang, interpretado pelo jovem actor britânico Matthew Goode, que conhecemos do filme de Woody Allen, Match Point, que se insinua junto de Chris, conquistando-lhe a amizade) do que na acção. Frank, que se estreia na realização com este filme, é já um experiente e reputado argumentista, responsável, nesta categoria, por filmes como Jogos (Quase) Perigosos, de Barry Sonnenfeld, Romance Perigoso, de Steven Soderberg, e, principalmente, Mentes Que Brilham, de Jodie Foster, e Relatório Minoritário, de Steven Spielberg, dois filmes em que, como em Vigilante, o cérebro e a memória desempenham um papel crucial nas respectivas narrativas.""Vigilante mostra que vale a pena estarmos vigilantes em relação ao nome de Scott Frank como director."
Manuel Cintra Ferreira, Expresso de 29/09/2007
