16.11.07

Control
Título original: Control

De: Anton Corbijn

Com: Sam Riley, Samantha Morton, Alexandra Maria Lara

Género: Dra, Mus

Classificação: M/16

Austrália/EUA/GB/JAP, 2007,
Preto e Branco, 121 min.


"Este texto podia chamar-se «Desordem» («Disorder»), ou «Jogo de Sombras» («Shadowplay»). Acabou por ficar «A Idade do Gelo» («Ice Age»), nome de outra canção dos Joy Division, incluída no último álbum da banda, Still. Não foi difícil encontrar título para o texto: bastou-nos folhear a tradução dos poemas de Ian Curtis, editada há quase 20 anos pela Assírio & Alvim, da responsabilidade de Pedro S. Costa e Paulo da Costa Domingos. O livro não é aqui chamado ao acaso. Numa nota que explica a dificuldade que a tradução dos poemas impôs, os dois autores rematam: «Pela intensidade de tudo quanto de si Ian Curtis inscreveu, nos seja a nós outros perdoada esta tentação de culto.» Perguntamos agora: e a Control, primeira longa-metragem do fotógrafo rock e autor de «clips» Anton Corbijn, ser-lhe-á perdoada a tentação de culto? Onde está a verdade e a mentira deste filme, que inaugurou a Quinzena dos Realizadores do último Festival de Cannes e se apresentou como um «biopic» de Ian Curtis?"

"Culto é coisa que não falta aos Joy Division desde que Ian Curtis, a 18 de Maio de 1980, e com apenas 23 anos, decidiu colocar uma corda à volta do pescoço, levando consigo os segredos de um grupo, de uma atitude, de um som que mudariam a história do rock nos tempos do «pós-punk». Curtis, que sofria de epilepsia, foi mitificado desde aí, tornou-se inspiração suprema para jovens suicidas em flor dos anos 80, ganhou aura póstuma de anjo exterminador ou coisa que o valha, cruz que jamais pediu para carregar, tanto quanto sabemos. Logo se tentou saber e até se escreveu o que fez Curtis nos seus derradeiros minutos, o disco que ouviu, que filme viu naquela madrugada fatal: o ídolo estava criado. Pouco depois, o resto da banda, Bernard Sumner, Peter Hook e Stephen Morris, respondia pela positiva, com nova acção criativa que acabaria por levar à formação dos New Order. A imprensa especializada, espantada pela «novidade Joy», que no seu tempo de vida, tal como se refere num dos textos seguintes, foi acontecimento para «happy few», garantiu a canonização de Curtis no estrelato rock."
"Há um livro, polémico — e isto para entrarmos em Control —, que levantou um pouco a poeira sobre Curtis. Chama-se Touching from a Distance (Carícias Distantes na versão portuguesa) e é uma autobiografia de Deborah Curtis, esposa de Ian, por sinal co-produtora do filme. Até o livro aparecer, pouca gente sabia que Curtis fora casado e que até tivera de Deborah uma filha, Natalie, nascida um ano antes da sua morte. É este livro que Anton Corbijn adapta, o que decerto vai chegar para dividir as hostes. Control não é só o filme que finalmente mostra a (falsa?) imagem de um Ian Curtis «inventado» pela escrita de Deborah e consagrado a preto e branco pela película de Corbijn. Um preto e branco magnífico, aliás, de alto contraste, a recordar o estilo de um Tony Richardson em The Loneliness of the Long Distance Runner, velha glória do cinema britânico sobre outros rebeldes sem causa. Mostra também o Curtis que cantava ao espelho as canções de Bowie. O Curtis «zombie» de uma Manchester «working class» onde eram poucos os sinais de beleza e esperança. Mais grave: o Curtis de coração mole, dividido entre o amor profundo a Deborah e a paixão por uma fã belga que se tornará sua amante, Annik Honoré — sugerido como causa do suicídio. O melhor filme contemporâneo, também ele um melodrama, sobre um homem que se suprime pela indecisão entre duas mulheres já foi feito: chama-se Sehnsucht (talvez alguns o tenham visto no IndieLisboa de 2006), é da alemã Valeska Grisebach. Não, decididamente não é por aqui que Control, por vezes permeável a «nuances BBC» com queda para sentimentalismos kenloachianos, vai marcar pontos a seu favor. E só é pena que o filme não tenha insistido mais em momentos de algum escárnio e maldizer, como os da aparição genial de John Cooper Clarke, ele que há uns bons anitos (há uns bons álbuns) cantava «(I Married) a Monster from Outer Space»... De qualquer modo, não se quer diabolizar Deborah, apenas referir que, ao adaptar o livro, Corbijn deixa para segundo plano, irremediavelmente, o mais importante: a música dos Joy Division."



"A força de Control, aquilo que o separa do seu pior e que tem alimentado capas de jornais e revistas pelo mundo fora vem, quanto a nós, de outro lado — da música e da erupção do registo dos concertos ao vivo. São excertos extraordinários e que ao livro nada devem. Este efeito de mimetismo, cem por cento conseguido, nunca antes foi visto num «biopic». Alguns falharam por completo neste ponto (foi longo o anedotário deixado por Val Kilmer em The Doors, de Oliver Stone, sobre Jim Morrison), outros arrastaram paixões e ódios extremos com a sua originalidade (Last Days, de Gus Van Sant, sobre Kurt Cobain), outros ainda levaram o género a territórios cinematográficos de experimentação (o novo I’m Not There, de Todd Haynes, sobre Bob Dylan, ainda por estrear). Mas nenhum destes arriscou transformar a cópia em «morceaux de bravoure». Muito se poderia dizer do trabalho de Samantha Morton em papel difícil (o de Deborah), mas o elogio vai para os quatro actores, britânicos de gema, que interpretam os Joy Division «alive». Destes destaca-se um extraordinário Sam Riley na pele de Curtis. Em performance, nos grandes planos em que o Corbijn autor de «clips» finalmente revela porque é grande na matéria, os quatro actores conseguem o milagre de estar a copiar e de criar algo de novo com a cópia; geram o efeito de regresso a um passado que se imagina ter sido pleno de alma e tensão. O verdadeiro Curtis talvez possa vaguear no curto-circuito dos concertos que transformam este Control num enigma sobre o tempo perdido, elevando-o a um patamar superior. Adivinha-se que esses momentos deixarão marcas profundas no ano cinematográfico de 2007. E talvez seja por eles que Anton Corbijn — julgue-o quem o quiser julgar — obtenha o perdão por ter materializado o fantasma, fazendo o ídolo descer à Terra."
Francisco Ferreira, Expresso de 10/11/2007