Título original: Moartea Domnului Lazarescu
De: Cristi Puiu
Com: Doru Ana, Monica Dean, Alina Berzunteanu
Género: Dra
Classificação: M/12
ROM, 2005, Cores, 150 min.
"Quando, no passado mês de Maio, o júri da 60.ª edição do Festival de Cannes, presidido por Stephen Frears, decidiu premiar com a Palma de Ouro a terceira longa-metragem do virtualmente desconhecido realizador romeno Cristian Mungiu (4 Months, 3 Weeks and 2 Days), a assim chamada «nova vaga» do cinema romeno passou, em definitivo, a «estar na moda». Já por cá, o mês de Junho trouxe consigo uma mostra itinerante do novo cinema romeno (organizada pelo Instituto Romeno de Lisboa), que tratou de levar a «boa nova» às cidades de Coimbra, do Porto e de Lisboa. Entre as obras então apresentadas, contavam-se — para além de A Morte do Sr. Lazarescu, de Cristi Puiu, que esta semana conheceu estreia nas salas — duas longas que deverão em breve chegar ao circuito comercial pela mão da Atalanta Filmes: 12:08 East of Bucarest, de Corneliu Porumboiu, e The Paper Will Be Blue, de Radu Muntean. Tratam-se de três inequívocos sinais do renascimento de uma cinematografia que só agora (e apesar dos esforços realizados nos anos 90 por cineastas como Nae Caranfil ou Radu Mihaileanu) começou a digerir a pesada herança deixada pela ditadura comunista de Ceausescu."
"Consciente do seu passado recente, o novo cinema romeno representa bastante mais do que um efeito de moda artificialmente gerado por duas ou três revistas da especialidade. Prova disso mesmo é A Morte do Sr. Lazarescu. Segunda longa-metragem de Cristi Puiu — e a primeira deuma série de seis sobre os subúrbios de Bucareste que o cineasta pretende realizar em homenagem aos seis contos morais de Rohmer —, Lazarescu interroga até ao tutano os poucos ossos de uma linha narrativa que se quer prosaica e minimalista. Quem vier à procura de uma «história» não encontrará muito mais do que isto: a crónica do calvário de um velho (o Sr. Lazarescu do título, interpretado pelo brilhante Ion Fiscuteanu) que vai peregrinando de hospital em hospital em busca de um lugar onde o deixem morrer. A seu lado, em pleno purgatório, encontraremos apenas esse anjo-da-guarda travestido de paramédica (Luminita Gheorghiu) que, fazendo seus os destinos de Eneias e de Antígona, cruzará a noite de Bucareste com o moribundo «às costas» e desafiará a justiça dos homens a fim de lhe dar sepulcro. Pelo meio fica, ainda, um impiedoso retrato do sistema de saúde romeno — espécie de inferno burocrático kafkiano habitado por médicos lacónicos e/ou carniceiros que Puiu vai filmando de câmara ao ombro, num estilo quase documental que nos transporta sem mediações para o interior do drama vivido —, mas isso é o que menos nos interessa. O que interessa é a forma como essa câmara «em situação» suporta a «peregrinação exemplar» de uma personagem que já não pode morrer."
"De facto, mais do que o Ivan Iliitch de Tolstói ou do que o Joseph K. de Kafka, a personagem que Lazarescu nos traz à memória (por contraposição) é a do célebre «burro crístico» cujo calvário Bresson tão bem descreveu no seu Au Hasard Balthazar. Tanto num filme como no outro, aquilo que se dá a ver é a inexorável sucessão de acasos que vão lentamente aproximando os protagonistas da morte. Mas se Balthazar se define como uma «obra ascendente» que enceta um diálogo com a transcendência e com o mistério teológico da graça (tema maior do cinema de Bresson), já Lazarescu se define, ao invés, como uma «obra decaída» que se limita a dialogar com a imanência e com o facto consumado da desgraça. Estamos perante uma diferença metafísica de fundo, que muito claramente se manifesta no antagonismo existente entre os últimos planos de ambos os filmes. Enquanto o Balthazar de Bresson é uma personagem crística que ainda pode encontrar na morte um ponto de fuga para o seu calvário, o Lazarescu de Puiu é uma personagem mundana que já não pode morrer e cujo calvário consiste menos no inferno da sua vida do que na impossibilidade da sua redenção pela morte (é por isso, de resto, que o filme de Bresson se conclui com a morte de Balthazar e o de Puiu com a não-morte de Lazarescu). ""É essa toda a tragédia de uma personagem que parece carregar o sentido do seu destino no seu nome: Dante Lazarescu, isto é, aquele que, tal como Dante, visita os nove círculos do inferno e que, ao contrário de Lázaro, nunca poderá ressuscitar (pelo simples facto de nunca ter chegado a morrer)."
Vasco Baptista Marques, Expresso de 10/11/2007
