28.4.08

Blade Runner - Versão Final
Título original: Blade Runner
De: Ridley Scott
Com: Harrison Ford, Rutger Hauer, Sean Young
Género: Dra, Thr
Classificação: M/12
EUA, 1982, Cores, 117 min.

Photobucket

"A meio da década de 70 a ficção científica era um género praticamente morto. Por esse tempo, um jovem cineasta, de seu nome George Lucas, teve sérias dificuldades para montar um projecto chamado A Guerra das Estrelas, recusado por tudo quanto era estúdio e gente sensata. Mas quando o filme estreou, em 1977, o êxito foi de tal monta que os estúdios começaram a procurar filmes na mesma onda — até porque as duas sequelas que, entretanto, se produziram (O Império Contra-Ataca, 1980, e O Regresso de Jedi, 1983) cobriram a 20th Century-Fox literalmente de ouro. Steven Spielberg deu uma ajuda à onda com Encontros Imediatos do 3.º Grau (1977), dois anos depois Ridley Scott empurrou o género para o terror (Alien, o 8.º Passageiro) e Robert Wise foi buscar uma velha série de televisão e adaptou os personagens para o grande ecrã, com Star Trek. Mas foi preciso esperar por 1982 para que a coisa explodisse numa girândola estonteante. Esse é o ano de E.T. — O Extraterrestre, de Spielberg, de Tron, de Steven Lisberger, de Veio do Outro Mundo, de John Carpenter, de Star Trek II – A Ira de Khan, de Nicholas Meyer — e de Blade Runner. Contudo, não há abundância sem risco, alguns dos filmes afundaram-se nas bilheteiras – Blade Runner foi um deles."

"Talvez isto hoje seja espantoso para todos os que viram, ao longo dos vinte e seis anos que passaram desde então, a fama do filme consolidar-se, ao ponto de se ter tornado uma referência no género. Só que, nesse ano de 1982, as pessoas estavam muito mais dispostas a deixar-se comover com o extraterrestre ternurento que só queria voltar para casa (ou mesmo a deixar-se assustar pelo monstro rapace que irrompia do peito dos humanos que o incubavam (do que a olhar para o filme de Ridley Scott, complexo e contemplativo."

"Blade Runner tornou-se um filme de culto, mas só em pequenos nichos de espectadores que o idolatravam, intrigados pelo tom de «film noir» futurista, mas em que o futuro era uma coisa glauca, nocturna, superpovoada, fumarenta, perigosa, suja, sem piedade. As maravilhas tecnológicas, esses replicantes que eram tão iguais aos humanos que até podiam ignorar que não tinham nascido de um ventre de mulher, não serviam, de facto, uma prosperidade colectiva que nada no filme indiciava. As pessoas eram massas vegetando num capitalismo sem regras, sob o olhar de poderosas corporações, tão gigantescas e faraónicas que até habitavam em pirâmides imensas. Os replicantes, esses eram uma espécie de escravos, máquinas para substituir os humanos em tarefas ou missões que nenhum homem ou mulher aceitaria — e, no fim, disponíveis para a sucata, desactivados por pré-programado desfecho. Até que um dia se revoltam, implacável e desapiedadamente. E nós não sabemos que mais desejar, se a vitória do detective privado (Harrison Ford a lembrar-nos Bogart) encarregado de os perseguir e eliminar, se a sobrevivência desses seres com que todos os humilhados e oprimidos se hão-de identificar. E a pairar por cima de tudo, a grande dúvida de já não ser possível saber quem é humano quem é replicante, nem ter a certeza — como nenhum de nós tem — de quanto tempo resta de vida. «Para sempre» não é é expressão à escala humana. A música de Vangelis, quase uma melopeia eclesial, mas com batida forte, envolvia o conjunto que deixou toda a gente estupefacta e alguns de nós maravilhados."



"Espantoso espectáculo visual — todos o reconheceram — muito menos foram os que se dispuseram a amar a tragédia dos seus protagonistas, a apreciar a grandeza épica da morte de Rutger Hauer, por exemplo. Depois, ao longo dos anos e muito particularmente depois da aparição do DVD, sucederam-se edições «home video» em sucessivas versões, aparadas sobretudo em relação ao final. Agora está aí o «final cut» (diz o realizador) que, meses após ter sido lançado em DVD, aparece nas salas (e não deveria ter sido ao contrário?). Boa decisão. Há uma ou duas gerações de espectadores que nunca puderam ver num grande ecrã e, por Deus, este é um daqueles filmes em que o tamanho faz mesmo diferença. Não é, decididamente não é, a mesma coisa que os clarões tenham cinco metros ou cinco centímetros de altura no nosso campo de visão. Blade Runner numa sala de cinema é uma experiência visual e sonora — cinematográfica — que convém apreciar, pelo menos uma vez na vida."
Jorge Leitão Ramos, 26/04/2008