Título original: Diary of the Dead
De: George A. Romero
Com: Joshua Close, Scott Wentworth, Michelle Morgan
Classificação: M/16
EUA, 2007, Cores, 95 min.
"Diário dos Mortos não estava para ser o que era. Na verdade nem estava previsto ser filme para chegar ao público. À partida tratava-se apenas de um trabalho em que Romero deveria orientar um grupo de alunos de cinema, trabalho, portanto, livre das imposições de bilheteira e mercado, Mas o produtor Peter Grunwald leu o argumento e sugeriu a Romero que o fizesse tendo em vista uma possível exploração comercial, garantindo-lhe, ao mesmo tempo, aquilo que Romero mais presava: a total independência e liberdade criativa, sem pressões de qualquer ordem. Romero aceitou a oferta e o resultado foi este Diário dos Mortos."
"Diário dos Mortos não é, como muitos poderão pensar, uma «sequela» de A Terra dos Mortos, a magnífica obra-prima do género que Romero ofereceu ao público há dois anos atrás, com um elenco de vedetas (Dennis Hopper, Ásia Argento, etc.) e vasto suporte técnico e financeiro da Universal. Aliás, quem veja a série com atenção verificará que, no fim de contas, nenhum é sequela de outro, formando cada um corpo independente, ligados entre si por uma visão crítica dos tempos em que surgiram. Mas Diário dos Mortos, sendo isso mesmo, é também uma obra com características especiais."
"Na verdade o filme forma uma espécie de «revisão» da obra zombie de Romero e retoma praticamente o seu ponto de partida, isto é, o filme de 1968, A Noite dos Mortos-Vivos. Mas não o faz na típica visão nostálgica, antes transpõe a ideia básica para os tempos de hoje, construindo, deste modo, aquela que parece ser a mais feroz e sarcástica crítica à política actual norte-americana e à manipulação dos «media» pelo poder. E tudo isto se faz utilizando um estilo moderno que, porém, não está ali apenas como manifestação de «modernismo», satisfação de qualquer vaidadezinha pessoal, de um autor que não precisa de qualquer estímulo desses."
"Muitos lembrar-se-ão, face a Diário dos Mortos, de filmes como O Projecto Blair Witch ou o excelente e ainda em exibição [REC] (ou, mais atrás, o Manual de Instruções para Crimes Banais, de Remy Belvaux, verdadeiro pioneiro deste tipo de filmes). Como nestes, em Diário dos Mortos, a câmara (e o seu operador, geralmente invisível para nós) é um outro «personagem» e testemunha de todos os acontecimentos."
"A diferença entre o filme de Romero e os restantes do mesmo tipo, é que no seu caso ele não se assume como testemunha única, nem é um exercício de estilo que acaba, geralmente, limitado, pois não pode passar para além do olhar da câmara. Desde o começo que Romero dá uma direcção cinematográfica ao projecto, fazendo do filme um trabalho de montagem que reúne, para além dos testemunhos das duas câmaras que acompanham a equipa, excertos da Net e gravações várias (inclusive de câmaras de vídeo-vigilância), construindo, deste modo, uma narrativa mais rica e coerente. E tal forma é aplicada «dentro» do filme, isto é, parte da iniciativa de uma das personagens, Debra (Michelle Morgan) de divulgar pelo mundo a verdade dos factos, que o poder procura escamotear, carregando o resultado final, que é o «filme no filme», Death of the Dead, na Net para expor a ameaça (e a manipulação) ao mundo inteiro."
"Esta nova fábula apocalíptica é tratada também com muito humor. Para além dos comentários que percorrem o filme, destaque-se a presença de um camponês Amish, com uma forma especial de resolver a crise zombie."
Manuel Cintra Ferreira, Expresso de 19/04/2008
Manuel Cintra Ferreira, Expresso de 19/04/2008




