22.4.08

Nós Controlamos a Noite
Título original: We Own the Night
De: James Gray
Com: Joaquin Phoenix, Eva Mendes, Mark Wahlberg, Robert Duvall
Género: Dra, Thr
Classificação: M/16
EUA, 2007, Cores, 117 min.

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"No seu terceiro filme, de que é autor completo como nos restantes dois, onde assina a realização e o argumento, James Gray volta aos seus temas de eleição: a família e o mundo do crime, e mais particularmente ao do seu primeiro filme, Viver e Morrer em Little Odessa: a incrustação da máfia russa em Nova Iorque, na sequência da emigração que resultou da progressiva desagregação do império soviético, que teve origem na política de «transparência» («glasnost») implantada por Gorbatchov em 1985."

"Nós Controlamos a Noite decorre em 1988 e o seu pano de fundo é o progressivo poder da máfia russa no tráfico de droga e no controlo dos clubes nocturnos, e a guerra que a polícia da cidade vai travar para a controlar e tentar destruir (o que se revela, naturalmente, impossível). Mas sobre este pano de fundo é que se desenha a verdadeira história: a de uma família que parece desagregar-se, mas que saberá reencontrar em si as forças para se reconstituir."

"São três os membros dessa família: Burt Grusinsky, o pai (Robert Duvall), Joseph Grusinsky, o filho mais novo (Mark Wahlberg) e Bobby Green, o filho mais velho que mudou de nome para não ser reconhecido como membro da família (Joaquin Phoenix). Bobby é um empresário da noite, que explora um lucrativo clube nocturno, aberto com capital da máfia russa, e planeia abrir outra sala ainda mais ambiciosa, com os mesmos apoios."

"Se mudou de nome é porque o apelido Grusinsky é conhecido em certos meios: o pai e o irmão são dois agentes da polícia de Nova Iorque, que estão empenhados em combater a nova ameaça que representam os marginais russos. No encontro que os três têm durante uma festa, Burt avisa Bobby de que uma guerra se avizinha e que é preciso escolher o lado a que se pertence. Apesar de Joseph ser o seu filho preferido, por ter seguido as suas pisadas ingressando na polícia, no fundo Burt ama também o filho «pródigo». No desenrolar de uma operação, Joseph é gravemente ferido e Bobby aceita «espiar» os russos para informar o pai. Um drama mais grave irá provocar o «volte-face»: Bobby acaba por entrar para a polícia ajudando o irmão da luta contra a organização mafiosa."

"A propósito de Nós Controlamos a Noite falou-se de Entre Inimigos o filme de Scorsese sobre infiltrados em campos opostos. A comparação, que não era (injustamente) favorável ao filme de Gray, não tem razão de ser. Como já dissemos, Nós Controlamos a Noite antes de ser um «thriller» policial é um filme sobre uma família. E deste ponto de vista tem um dos finais mais pungentes e belos do cinema: a declaração de amor entre os irmãos. E é um filme, também, onde a mulher tem um papel positivo, o que não é frequente neste tipo de filmes, em que costuma ser remetida para papéis de traço forte (assassinas ou polícias), mas nunca como mulher dedicada ao homem que ama, e por ele empenhada. E Eva Mendes compõe essa figura com paixão."

"Não são estas apenas as facetas positivas deste excelente filme. Destaque-se ainda a fotografia de Joaquin Baca-Asay, com especial ênfase para os exteriores nocturnos, e a hábil direcção de James Gray, segura, como sempre, mas com dois momentos de excepção: o tiroteio na casa da droga e, em especial, a sequência da perseguição de carros, que é uma das melhores vistas em cinema, não por características espectaculares, de que Cameron, Friedkin e outros são mestres, mas na construção de uma certa tensão e suspense que deriva do ponto de vista da câmara, aqui praticamente quase sempre colocada dentro de um dos carros."



"Nós Controlamos a Noite é um título que se pode prestar a ambiguidades. Na verdade, o original We Own the Night, era o lema que a polícia nova-iorquina ostentava nas portas dos seus carros naquela época, uma forma de tranquilizar a população, mostrando-se atentos e sempre em acção para garantir a sua segurança. Mas quem, de facto, controlava as noites de Nova Iorque, uma cidade então considerada como uma das mais perigosas do mundo? Era o crime organizado, facto que justificou a acção e a fama de «salvador» de Rudolph Giuliani durante o seu mandato como «mayor» da cidade entre 1994 e 2001, ao fazer da guerra ao crime a sua prioridade, devolvendo segundo rezam as crónicas, a segurança à cidade."
Manuel Cintra Ferreira, Expresso de 19/04/2008