Título original: [Rec]
De: Jaume Balagueró, Paco Plaza
Com: Javier Botet, Manuel Bronchud, Martha Carbonell
Género: Ter
Classificação: M/16
ESP, 2007, Cores, 85 min.
"Setembro de 2007. A lembrança ainda está presente: não vimos REC em Veneza. O filme esteve lá, sim, numa secção secundária, mas num festival onde é humanamente impossível ver tudo, outras prioridades se levantam. Filme de terror «puta madre!» feito por «nuestros hermanos», ainda mais encostado a um canto pelos programadores de Marco Müller, convenhamos, não agoirava coisa boa. Outubro de 2007: voltamos a ouvir o nome REC (vem da tecla «record») quando este é exibido pela primeira vez no seu país, no Festival de Sitges (que o premiou), não muito longe da cidade onde foi rodado (Barcelona). O «buzz» à sua volta já é enorme. Fala-se de um filme de terror incrível, que mete mesmo medo, para variar. Não é por acaso que, em Espanha, ele foi interdito a menores de 18 anos, classificação que deve repetir-se agora em Portugal. Fala-se, sobretudo, do filme mais pirateado do momento na Net pelo país vizinho - e quem está familiarizado com estes meandros sabe que os espanhóis não brincam em serviço. O mito alastra, sobretudo na Net, como The Blair Witch Project o fez há quase dez anos, inaugurando uma etapa. De resto, há muito mais do que esta coincidência entre ambos. Já em 2008, em Fevereiro, REC ganha o Fantasporto e junta novo prémio a uma lista que, entretanto, já vai longa. Não admira, portanto, que esta produção espanhola, «indie» como poucas, chegue agora às salas portuguesas. Almodóvar à parte, é coisa rara."
"Realizado por dois cineastas que já tinham colaborado num documentário sobre um «reality show», REC arranca com a simpática Ángela (Manuela Velasco, uma revelação), repórter de TV, apresentadora do programa «Mientras Usted Duerme», que é um título bem sugestivo para o que depois vem. O filme simula um directo, esse directo transforma-se em pesadelo: Ángela e o seu «cameraman» vão acompanhar a vida nocturna dos bombeiros de Barcelona, em seguida chamados de urgência por uma velhota que está a precisar de ajuda. Quando a velhota morde o bombeiro e a porta do prédio se fecha, arranca uma «praga zombie» imprópria para cardíacos. Não há muito a contar para além do dispositivo, que de resto não é novo e vem de The Blair Witch...: noite escura rasgada pelo projector da câmara do repórter; aposta numa câmara subjectiva e ao ombro, só possível com o desenvolvimento tecnológico do vídeo digital; «jump cuts» sucessivos; olhar nervoso, a querer devorar tudo. Olhar que, no limite, é o nosso, já que este filme força o espectador a ser testemunha do seu exorcismo, coloca-o no lugar de quem filma, com os monstrengos prontos a entrarem em campo e sem aviso. Quando assim é o caso, é preciso haver um sentido de humor de «comboio fantasma» (e esta é uma das surpresas) que ultrapasse a encenação da histeria. REC tem, de facto, esse sentido de humor, por mais paradoxal que isto pareça. Ao contrário do recente Cloverfield, onde os efeitos especiais e o monstro que arrasa Nova Iorque acabavam por se tornar um embaraço, REC retira do seu maneirismo, da simplicidade do seu gesto, uma força surpreendente. Não sairá tão cedo da memória."
Francisco Ferreira, Expresso de 12/04/2008
Francisco Ferreira, Expresso de 12/04/2008
