Título original: Youth Without Youth
De: Francis Ford Coppola
Com: Tim Roth, Alexandra Maria Lara, Bruno Ganz
Género: Rom, Thr
Classificação: M/12
EUA, 2007, Cores, 124 min.
"Há 40 anos ele era uma espécie de chefe de fila da geração dos «movie brats», aqueles tipos barbudos que primeiro estudavam cinema e depois saíam das universidades para fazer filmes, coisa nunca vista em Hollywood - a geração de George Lucas, Steven Spielberg, Brian de Palma e de um tal Martin Marcantonio Luciano Scorsese, que vinha de Nova Iorque mas também era um deles. E, se Francis Ford Coppola não era o melhor deles - não teve a perspicácia industrial de Lucas, o sentido do público de Spielberg, a cinefilia arrojada de Brian de Palma, a criativa energia frenética de Scorsese -, foi o que teve uma carreira mais pejada de surpresas e o único cuja vida dava um grande romance americano. Ele conseguiu fazer de um típico filme de indústria - O Padrinho - uma apaixonante obra de autor; desafiou os céus, gastando milhões, rodando Apocalypse Now na selva, com uma equipa que parecia um exército sem sequer ter um argumento definido - e transformou a aventura num genial sucesso; quis reinventar o cinema de estúdio num dos mais portentosos filmes do século - One from the Heart (Do Fundo do Coração) - e perdeu nisso tudo o que tinha, ganhando ainda muitos anos a pagar intermináveis dívidas. Mas também fez filmes menores ou falhanços radicais - como esse desengonçado Jack que nunca entenderei. Agora, há 10 anos que não nos brindava com um filme novo, ocupado como produtor de fitas alheias (entre as quais as da filha, Sofia) e de celebrados vinhos californianos. Nas fotos aparecia-nos de boina, barba muito grisalha, ventre rotundo, quase um pai de família siciliano, entre vinhedos e oliveiras..."
"Até que, a aproximar-se dos 70 anos, nos aparece com um filme pessoal, autofinanciado com vários parceiros europeus, rodado na Roménia a partir de um romance de Mircea Eliade. O tema? Um homem de 70 anos, Dominic Matei, reputado filólogo, que percebe que não terá tempo para acabar a sua obra magna, uma investigação sobre as relações entre a linguagem e a consciência. Desesperado, parte para Bucareste onde tenciona suicidar-se. Mas, ao atravessar a rua, durante uma tempestade, é atingido por um raio. Profundamente queimado e em coma, é transportado ao hospital, onde os médicos constatam que pouco há a fazer. Só que, a pouco e pouco, o nosso homem recupera, nascem-lhe novos cabelos (e já não são brancos), dentes sãos irrompem das gengivas, a pele e a compleição são agora de um homem de 30 e a sua mente tem espantosas capacidades de aprendizagem. Os céus deram-lhe afinal mais tempo, depois do tempo. Mas também materializaram um duplo, um reverso maléfico, um anjo negro para combater."
"Isto é apenas o início de uma história intrincada e, não raras vezes, obscura, que leva o protagonista a vários pontos da Europa e, efectivamente, à conclusão da sua obra, mas a um preço que não vale a pena pagar. Coppola filma-a com enorme elegância e um olhar quase irónico, à medida que desfia (ou emaranha) o novelo, cruzando géneros fílmicos, do «thriller» ao melodrama, numa obra que, no fundo, é uma meditação sobre a velhice e o recorrente mito do rejuvenescimento. Neste sentido, é um filme que lhe vem do fundo do coração, percebe-se que ele foi buscar a Eliade uma espécie de bálsamo, pois Uma Segunda Juventude é um filme que nos diz que o tempo depois do tempo devido é qualquer coisa que não se deve almejar - a menos que queiramos para nós a solidão dos vampiros. Mas também é um filme onde se vê que Coppola quer romper regras (vários fios ficcionais ficam suspensos ou pouco explicados, sonhos, fantasmas, realidade têm texturas não claramente diferenciadas), deixar a imaginação fluir, como se o cineasta quisesse ter, outra vez, a liberdade de um estreante (a poder pôr a câmara de pernas para o ar), a fascinação pelos filmes da mocidade (há muito de cinema dos anos 40/50 em Uma Segunda Juventude). Talvez, por isso, o filme seja tão desconcertante, a uma primeira visão, porque nada nos preparara para isto. Mesmo que uma minúcia analítica nos possa referenciar parentescos e cruzamentos com outras fitas do cineasta, na verdade é um corte, um salto no escuro. Para cúmulo, Uma Segunda Juventude não é nem um recomeço nem uma serena contemplação do ocaso - Coppola não é Visconti, deveras. É, antes, uma obra de turbação, comovente na sua própria precariedade, nas irresolúveis contradições. Difícil, porque nos intriga em vez de nos fascinar - e muito, muito estimulante.""Entretanto, o filme deve ter cumprido a sua função de bálsamo (a não ser que tenha sido de chicotada psicológica): Coppola já está a filmar de novo - Tetro, com Vincent Gallo e Carmen Maura, por estes dias em início de rodagem em Buenos Aires."
Jorge Leitão Ramos, Expresso de 12/04/2008
