16.1.13

Decisão de Risco
Título original: Flight
De: Robert Zemeckis
Com: Nadine Velazquez, Denzel Washington, Carter Cabassa
Género: Drama
Classificação: M/16
Outros dados: EUA, 2012, Cores, 138 min.


"Uma mulher passeia-se, gloriosa e nua, logo na primeira cena, acordando de uma noite que não deve ter sido de muito sono, a avaliar pelo estado dos lençóis e pelo número de garrafas vazias que há no quarto do hotel. Nudez que está lá para ser atirada aos nossos olhos — espantados? Claro que sim, nunca se viu nada parecido num filme de Zemeckis — tal como a linha de cocaína, logo a seguir, aspirada com ruído de quase motor por um Denzel Washington (ver entrevista na Revista) visivelmente transtornado. Só mais à frente, quando a nudez dá lugar aos uniformes, é que percebemos que ele é piloto, ela hospedeira, e que ambos vão, em caótico estado, trabalhar."


"“Decisão de Risco” começa de modo a meter-nos pelos olhos dentro que o comandante Whip Whitaker não está em condições legais de pilotar um avião. A aceleração sonambúlica que Washington empresta ao personagem — trabalho de ator nomeado para os Globos de Ouro e, provavelmente, na calha para os Óscares — é sem margem para dúvidas. Mas não estará em condições físicas para desempenhar a sua profissão? A resposta vem a dois tempos: primeiro na descolagem, em meio de vendaval descabelado, Whip leva, com segurança, o avião até lá acima, à calmaria; depois, na aterragem, quando falhas mecânicas põem o aparelho em queda, ele opta por navegar de cabeça para baixo, fazer uma manobra de pura audácia antes de aterrar de emergência num terreno rural, salvando de morte certa a larga maioria dos passageiros. É esta a decisão de risco de que fala o título português (o original, “Flight”, é bem mais seco e aberto de significações). Resposta, portanto: ele é capaz. O que o filme não interroga é se a audácia de voar de cabeça para baixo, evitando que o avião se despenhasse descontroladamente, teria sido tomada por Whip se ele não estivesse ‘acelerado’ a vodka e cocaína..."


"Acontece que “Decisão de Risco” não é sobre aviação, riscos, responsabilidades. É um filme sobre dependências. Whip é um alcoólico (a cocaína é apenas um modo de esconder, contrariar, os efeitos do álcool como, lá para a frente, o truculento personagem de John Goodman clarificará). Como todos os dependentes, mente a si mesmo e aos outros sobre a sua condição — e faz de toda a sua vida um vórtice, como se o álcool sugasse tudo o resto, a profissão, a família, os afetos, as lealdades. “Decisão de Risco” é a descrição quase clínica desse vórtice, envolvida por um inquérito ao acidente que as autoridades põem em marcha, do qual, parece, Whip pode conseguir safar-se — e nós até queremos que ele se safe, o homem é um herói, salvou aquela gente toda, além disso alguém quer pôr o maior galã negro do cinema americano na cadeia? Denzel Washington faz um herói anti-herói — e só para ver Zemeckis desfiar a contradição vale a pena olhar este filme."


"Veja-se como trabalha a gestão de sentimentos contrários na mente dos espectadores: Whip é competente, mas não é confiável, é simpático, mas não é sério, será justo destroçar-lhe a vida porque bebeu duas garrafinhas de vodka depois de uma noite louca temperada a cocaína logo pela manhã? E mesmo que seja justo, queremos essa justiça?"

"O melhor de “Decisão de Risco” é o modo como nos questiona, o pior é quando, politicamente correto, se conclui apologético e redentor — e quase arruína os estremecimentos morais com que nos fez lidar lá para trás. Jorge Leitão Ramos, Expresso de 12/01/2013