
No dia 13 de Fevereiro de 1965, a polícia política do regime salazarista (PIDE) assassinava o general Humberto Delgado em Espanha, junto à fronteira daquele país com Portugal, próximo de Badajoz.
Humberto Delgado começou por ser um Homem do regime. No entanto, após ter sido colocado como adido militar nos EUA e ter aí constatado o funcionamento da democracia, passou a ser um opositor de Salazar.
Em 1958, foi candidato a Presidente da República com o apoio da oposição. Por onde passou durante a campanha, juntou inúmeras multidões. O país estava farto da ditadura. O candidato regimista Américo Tomás venceu à custa de chapeladas nas urnas. O medo do regime da campanha do general sem medo foi tal que, a partir daí, nunca mais houve eleições presidenciais até ao 25 de Abril.
Há, no entanto, que afirmar algumas verdades politicamente incorrectas relativamente àquele general.
Não era de esquerda. Ideologicamente, estaria ao nível do PSD. Aliás, o PCP apoiou-o depois de o ter caluniado, chamando-lhe "o general coca-cola". Caluniado pelos comunistas havia sido também, em 1949, o candidato presidencial da oposição, general Norton de Matos, o qual, à última hora foi apoiado pelo PC, a contra-gosto.
Mais tarde, Humberto Delgado exila-se no Brasil, onde fundou, com anti-fascistas portugueses e espanhois, o DRIL (Directório Revolucionário Ibérico de Libertação), responsável pelo assalto ao Santa Maria, em 1961.
Em 1962, já na Argélia, lidera a FPLN (Frente Patriótica de Libertação Nacional), a qual integrava liberais, sociais-democratas, socialistas, o PCP e uma corrente de extrema-esquerda, a qual incluia os maoistas do CMLP/FAP (Comité Marxista-Leninista Português/Frente de Acção Popular), o maoista independente Vitor Cunha Rego e indivíduos influenciados por correntes esquerdistas libertárias, como Manuel de Lucena, hoje um intelectual independente, de direita liberal.
Em 1964, Humberto Delgado, o sector centrista e uma parte do sector ultra-esquerdista (Carlos Lança, Patrícia Lança, sua esposa, hoje militante do PSD, e Adolfo Ayala, entre outros) da FPLN, cindem com os socialistas e os comunistas tradicionais, bem como alguns ultra-esquerdistas, e criam outra FPLN, a Frente Portuguesa de Libertação Nacional.
A Frente Patriótica, então na mão, entre outros, de Piteira Santos, Manuel Alegre, Tito de Morais, Pedro Ramos de Almeida (comissário do PCP), desfere diversos ataques verbais a Humberto Delgado.
Naquele dia fatídico, há 40 anos, Humberto Delgado, pensando ir encontrar-se com outros oposicionistas, caiu na cilada. No entanto, quem o aconselhou a ter cuidado com o que ia fazer foram os seus companheiros da Frente Portuguesa, os quais alertaram a comunidade internacional para o seu desaparecimento, enquanto a Frente Patriótica afirmava tratar-se de uma campanha publicitária do general.
Demorou algum tempo a ser encontrado o seu corpo. Entretanto, após o referido desaparecimento, membros da Frente Patriótica assaltaram a casa de Delgado e furtaram documentos comprometedores, tendo agredido barbaramente Adolfo Ayala, que se encontrava no interior da residência.
Essa denúncia foi feita pelo mesmo Ayala, entretanto já falecido, há muitos anos, em entrevista ao "Expresso". Um dos agressores ali mencionado era o delator (foi por tal motivo expulso do PCP) Fernando Piteira Santos, também já desaparecido. Nessa entrevista, Ayala, entretanto mais moderado politicamente, dizia ser socialista, mas ter dito a Mário Soares, de quem era amigo, que nunca aderiria ao partido enquanto tivesse como seus militantes Manuel Alegre e Tito de Morais.
O pide que assassinou Humberto Delgado, Casimiro Monteiro, foi condenado a uma pesada pena de prisão, à revelia, após o 25 de Abril. Como fugiu de Portugal após aquela data, nunca pagou pelo que fez.
Sobre as grandezas e misérias do por Vera Lagoa chamado "bando de Argel", aconselhamos a leitura do livro "Acuso", escrito por Henrique Cerqueira, um dos últimos aliados de Humberto Delgado, também falecido. Aquele livro esgotou, há quase 30 anos, 3 edições.
Por Manuel Silva