30.4.08

Boarding Gate - Porta de Embarque
Título original: Boarding Gate
De: Olivier Assayas
Com: Asia Argento, Michael Madsen, Carl Ng
Género: Thr
Classificação: M/16
FRA/LUX, 2007, Cores, 106 min.

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"Talvez este filme deixe muita gente a coçar a cabeça, intrigada — ou desiludida — por ver o cineasta de Destinos Sentimentais a correr atrás da futilidade. Um «thriller» erótico («ma non troppo») com uma Asia Argento que se vinga de um antigo amante americano em Paris por conta de um novo amante que a descarta em Hong Kong? Velocidade de execução, mais ritmo que tino, a lembrar a «série B», mas liberta de espartilhos? Tudo isso, tudo isso. Boarding Gate é um portal de acesso a um cinema que não está preso aos significados — à coerência simples de uma história que vá, compreensivelmente de A até C passando por B — mas atenta nos significantes — a duração dos planos, a sua cadência interna, a composição e a maneira como as coisas rimam. Difícil de explicar? Vamos ver se consigo."

"Por exemplo, em tudo quanto são referências da fita — a começar pela da prestigiada «Variety», que a demoliu quando foi apresentada no Festival de Cannes de 2007 — se diz que a personagem de Asia Argento é uma ex-prostituta. Não é isso que o filme nos diz, mesmo se nas suas proezas sexuais do passado houve dinheiro envolvido. Essas proezas seriam um fruto submissivo do amor, uma espécie de tributo que ela prestava ao amante rico e poderoso, ambos unidos um ao outro por um laço mais forte que a dependência dos vícios. Mas quem é aquela mulher? Todo o filme formula e reformula em nós essa incessante pergunta, todo ele joga numa cadeia de respostas e de contradições. Dirão os mais avisados: insensatez do argumentista e realizador Olivier Assayas. Dirão os mais temerários: jogo ficcional para o espectador balancear. Retorquirão os sensatos: vale tudo? Responderão os outros: vale tudo o que me for mantendo filado ao curso dos acontecimentos, à flor do ecrã."



"Deste dilema só posso dizer que entendo a sensatez, mas deixei que o jogo me conduzisse e gostei de ir. A última cena entre Asia Argento e Michael Madsen levou-me da lógica ao paradoxo, de Eros a Thanatos, da segurança à surpresa. Julgava eu saber o que ocorria, logo me contraditaram, assentei noutra certeza, depois deram-me a volta, nova certeza se instalou, mas era eu que não sabia nada de nada e a verdade era outra coisa ainda, talvez... Quando um filme é capaz disto sem que o espectador que sou resmungue um «whatever», deixo a sensibilidade sobrepor-se à razão. Boarding Gate não é um grande filme, mas é um exercício ficcional com uma sagacidade e uma efectividade a ter em conta. E com Asia Argento, actriz de bom peso e medida."
Jorge Leitão Ramos, Expresso de 26/04/2008