Título original: My Blueberry Nights
De: Wong Kar-wai
Com: Jude Law, Norah Jones, Chad R. Davis
Género: Dra, Rom
Classificação: M/12
EUA, 2007, Cores, 90 min.
"Não são precisos nem cinco minutos para que, mesmo se genérico não houvesse, um espectador atento identifique estar perante um filme de Wong Kar Wai. Isto é tão raro no cinema que vale o seu peso em ouro. Os cromatismos marcados (aqueles vermelhos e azuis de uma tonalidade precisa de que ele bem podia reclamar autoria e respectivos direitos), o gosto pela câmara movente, pelos néons, numa composição dos planos tão bizarra quanto inebriante, a música que desliza como uma segunda pele, a noite com os seus reflexos, tudo está desenhado para mostrar ao mundo que a chegada do realizador à América não o fez perder o lastro dos seus traços de orientais, da sua imagem de marca."
"Precisemos, todavia, um facto. De americano, My Blueberry Nights – O Sabor do Amor tem o espaço de rodagem, a língua e os actores, mas não os capitais que permitiram a Wong Kar Wai filmar esta travessia pela América. O dinheiro veio de França, da China e de Hong Kong, tendo os irmãos Weinstein adquirido direitos de distribuição americanos, mas sem participar directamente na produção."
"Precisemos, todavia, um facto. De americano, My Blueberry Nights – O Sabor do Amor tem o espaço de rodagem, a língua e os actores, mas não os capitais que permitiram a Wong Kar Wai filmar esta travessia pela América. O dinheiro veio de França, da China e de Hong Kong, tendo os irmãos Weinstein adquirido direitos de distribuição americanos, mas sem participar directamente na produção."
"Abertura do Festival de Cannes o ano passado (e do lusitano IndieLisboa, há uma semana apenas), My Blueberry Nights – O Sabor do Amor teve uma recepção matizada a reticências, aquela «fine bouche» que os críticos gostam tanto de fazer, sobretudo a um autor aclamado em que detectam um suposto passo em falso. Não será da minha boca, há mais de trinta anos neste labor, que se ouvirão remoques ao prazer da reticência. Espanta-me, todavia, vê-la operativa num filme como este, em que a maneira tem marca, mas me parece limpa de ganga."
"A fita tem história simples: Elizabeth (Norah Jones) sofre um desgosto de amor e, em vez de confrontar, mexer, remexer a ferida, decide ir embora, após conhecer o dono de um bar (Jude Law) que, apesar de ter muito poucos clientes a gostar de tarte de mirtilo, a mantém no menu, porque pode aparecer alguém que a mereça — e ela merece. Ele mesmo está num processo de cura, desintoxicação de uma mulher que tarda em voltar."
"Elizabeth parte, portanto, estrada fora, num curso que, de Nova Iorque, a levará até ao Pacífico oceano, encontrando na rota criaturas que de um mal similar sofrem. Nisto de afectos, a geografia conta pouco. E temos direito a duas histórias — a de Rachel Weisz e a de Natalie Portman — que, noutros tempos, talvez fossem dois «sketches» de um filme desse modo arrumado, mas que, em pleno século XXI, se engrenam no mesmo corpo. Gosto das duas, cada uma com seu sabor, a primeira mais dramática, interior, mortal, a segunda mais solar, veloz, colorida, uma tintada a álcool, a segunda desenhada a Jaguar."
"Gosto dos actores e das actrizes que lhe dão carne, seja ela feita de suor e sexo (Rachel Weisz), seja de cor e liberdade (Natalie Portman), mas gosto, sobretudo, do jogo firmado na «mise-en-scène», dessa impotência que Wong Kar Wai manifesta em pôr a câmara de frente e filmar. Qual quê?! Se não houver um vidro de permeio, e nesse vidro uma cintilação de revérbero, se não houver um objecto entre os actores e a câmara não teimar em rodeá-lo, se o mundo, enfim, não tiver simplicidade e existirem sempre portas, manchas, espelhos, montras, obstáculos, traços de cor, fulgores, Wong Kar Wai pura e simplesmente não consegue filmar."
"Maneirismo? Já aconteceu — mas não em My Blueberry Nights – O Sabor do Amor. No traçado de solidões, no caminho do esquecimento que permite a Elizabeth tornar a Nova Iorque e reacender a vontade de amar, a forma de que se serve Wong Kar Wai tem o artificialismo bastante para nos consentir uma judiciosa degustação formal, sem perder de vista que o importante é os sentimentos. Bom, mesmo bom, é sorver a linguagem, mas ninguém dispensa que a pele vibre de caminho. Por outro lado, convenhamos não ser Norah Jones uma actriz excelsa, mas concedamos que cumpre e dispensemos todos os aplauso ao triunvirato Jude Law/Rachel Weisz/Natalie Portman que brilha neste filme enleante de um mestre do cinema destes dias."
Jorge Leitão Ramos, Expresso de 03/05/2008
Jorge Leitão Ramos, Expresso de 03/05/2008
