Aquele Querido Mês de Agosto
Título original: Aquele Querido Mês de Agosto
De: Miguel Gomes
Com: Sónia Bandeira, Fábio Oliveira, Joaquim Carvalho
Género: Doc, Fic
Classificação: M/12
FRA/POR, 2008, Cores, 150 min.
Título original: Aquele Querido Mês de Agosto
De: Miguel Gomes
Com: Sónia Bandeira, Fábio Oliveira, Joaquim Carvalho
Género: Doc, Fic
Classificação: M/12
FRA/POR, 2008, Cores, 150 min.
"QUE ORDEM existe entre os efeitos do documentário e da ficção no segundo filme de Miguel Gomes? Aquele Querido Mês de Agosto acredita que podemos descobrir um documentário pelas suas qualidades dramáticas, tal como podemos descobrir uma ficção pelas suas revelações documentais. A partir deste jogo produtivo, do momento em que ficção e documentário interagem nos dois sentidos, há um mundo inteiro que se abre à nossa frente. Mas este é só um aspecto complexo de muitos que não conseguiremos nomear sobre um filme de duas horas e meia que passam a correr, cheio de mistérios, simultaneamente o mais livre que o cinema português nos deu em muitos anos e, não por acaso, o que mais questões teóricas sobre cinema levantou."
"A ficção vai contaminar, de facto, o documentário, em harmonia feliz, graças a um guião que já existia: a história de um melodrama vagamente incestuoso entre um pai, a sua filha e o primo desta. Esse trio romântico forma uma banda fictícia de música popular, os Estrelas do Alva, que anima bailes da região serrana de Arganil. Só que Arganil vai mais longe do que o «décor» pitoresco que se imagina. Também por isso, o filme decide procurar in loco, nas pessoas que vai encontrando, soluções para as suas personagens. Joaquim Carvalho, Sónia Bandeira e Fábio Oliveira, actores não profissionais, são lentamente conduzidos para os papéis do pai Domingos e dos primos Tânia e Hélder. Nada disto seria igual se não se aceitasse de braços abertos as microquimeras de Arganil e arredores, com procissões, «motards», fogos de Verão, velhas lendas como a da «noite dos colhões» e histórias de faca e alguidar, tudo a girar, na primeira metade do filme, em torno de Paulo «Moleiro», esse herói de um extraordinário «far-west» português, o tal que se atira do rio Alva e foi atropelado por marroquinos. Ele é um prodígio de autoencenação, já era lenda local, assim o filme o conserva. Há outros prodígios: 1) a cena da primeira vez entre os dois primos, teste difícil que Gomes ultrapassa com um pudor tocante. 2) o adeus de Tânia e Hélder, sem distinção entre lágrimas e sorrisos. 3) a procura do que se ouve mas não se vê, ou seja, do que há de fantástico no quotidiano, por parte de um director de som inconformado, na sequência final. Acredita-se no quê? Na verdade? Na mentira? Em ambos, evidentemente."
"Há outro aspecto fulcral. Aquele Querido Mês de Agosto permite que a rodagem entre clandestinamente na sua estrutura ao ponto de revelar, do interior, as entranhas da sua própria direcção de actores e produção. Isto adensa o mistério entre o que foi programado pelo filme e o que o acaso lhe deu. E tem, quanto a nós, uma leitura política, em ruptura com o cinema português actual, que nos deixa optimistas: é que a produção e a realização, aqui, unem-se contra as dificuldades. Materializam um acordo precioso em que todos trabalham para o mesmo domínio do caos que o filme soube organizar na montagem, ligando a vida ao mundo e o que vem de dentro ao que vem de fora do cinema pela graça natural do seu movimento."
Francisco Ferreira, Expresso de 23/08/2008
Francisco Ferreira, Expresso de 23/08/2008