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29.12.09

Sherlock Holmes
Título original: Sherlock Holmes
De: Guy Ritchie
Com: Robert Downey Jr., Jude Law, Mark Strong
Género: Aventura, Policial
Classificação: M/12
Austrália/EUA/GB, 2009, Cores, 128 min.

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"APÓS UMA BREVE ausência, regressa o mais famoso detective da literatura popular, com mais de um século de existência, criado no final do século XIX por Sir Arthur Conan Doyle. Mais concretamente em 1887, com a primeira aventura no romance “Um Estudo em Vermelho”. O estilo de actividade e investigação do detective destacou-se pela originalidade de investigação. E Sherlock Holmes tornou-se, pouco depois, ainda nos tempos do filme mudo, um dos mais populares personagens de cinema, especialmente em fins da década de 30, com a chegada, como personagem, de Basil Rathbone, mais conhecido pelos papéis de vilão e que aqui se transforma no perfeito detective numa série de filmes. Apenas um novo intérprete, no ecrã de televisão, Jeremy Brett, conseguiria alcançar o mesmo nível de popularidade, pelo menos entre os mais ortodoxos admiradores das adaptações das obras de Conan Doyle. Outras, porém, procuravam uma espécie de variação, tentando uma percepção mais atenta da personagem do que a que servira de inspiração do autor. A mais interessante, procurando uma abordagem quase psicanalítica de uma personagem construída de forma ‘puritana’, da época em que surgiu, é a de Billy Wilder em “A Vida Íntima de Sherlock Holmes”, feito em 1970."

"A grande expectativa de uma nova abordagem da famosa personagem aparece com esta versão no novo filme de Guy Ritchie, de quem muitos salientam o facto de ter sido casado com Madonna vários anos e, como isso ou por causa disso, esquecerem geralmente o seu trabalho de realizador, caracterizado por um tipo de acção que se destaca por um estilo de truculência nas personagens marginais, e um estilo provocante, se não mesmo chocante, de que são exemplos filmes como “Um Mal Nunca Vem Só”, “Snatch, Porcos e Diamantes” e “RocknRolla”. Curiosamente, “Sherlock Holmes” foge um pouco ao estilo a que estamos habituados, o que corresponde antes de mais a um compromisso. Quer isto dizer que este filme evita, em parte, aquilo a que nos habituaram os filmes anteriores."

"A personagem de Sherlock, tal como é apresentada, procura ser mais moderna e audaciosa (na acção, especialmente com a sequência inesperada para quem conhece a ‘história’ do herói, que é a da luta de pugilismo que já servira de publicidade para chamar a atenção de forma insólita), o que se materializa principalmente na escolha do intérprete, e do seu famoso comparsa, o doutor Watson, que constituem uma excelente surpresa, com as figuras mais jovens e insinuantes que representam. Robert Downey Jr. e Jude Law, respectivamente Holmes e Watson, são, neste aspecto, um triunfo, na presença e no talento dos intérpretes. Porém, a mais surpreendente é a segunda, porque Holmes tem as suas manifestações excêntricas e de acção, que correspondem à imagem original das adaptações cinematográficas. A que Jude Law dá a Watson é muito mais sugestiva e acaba com a imagem típica de uma personagem simpática, mas que é geralmente desastrada, se não mesmo idiota, que Holmes acaba por receber de forma mais ou menos condescendente. Aqui é um companheiro ao seu nível na acção e no comportamento, que transforma a narrativa num sucesso."



"Destaque-se ainda como o argumento é construído, onde aparece de forma apenas discreta o famoso doutor Moriarty, que é deixado no final como pretexto para uma nova aventura e filme que se espera." Manuel Cintra Ferreira, Expresso de 26/12/2009

17.12.09

Uns Belos Rapazes
Título original: Les Beaux Gosses
De: Riad Sattouf
Argumento: Riad Sattouf, Marc Syrigas
Com: Vincent Lacoste, Anthony Sonigo, Alice Trémolière
Género: Comédia
Classificação: M/12
FRA, 2009, Cores

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Francisco Ferreira, Expresso de 12/12/2009

13.12.09

Ágora
Título original: Agora
De: Alejandro Amenábar
Com: Rachel Weisz, Max Minghella, Oscar Isaac
Género: Drama
Classificação: M/12
ESP, 2009, Cores, 126 min.

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Jorge Leitão Ramos, Expresso de 12/12/2009

12.12.09

Afterschool - Depois das Aulas
Título original: Afterschool
De: Antonio Campos
Com: Danielle Baum, Byrdie Bell, Emory Cohen
Género: Drama
EUA, 2008, Cores, 107 min.

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"“DEPOIS DAS AULAS”, o primeiro filme de um nova-iorquino de 26 anos com ascendência brasileira, estreou em Cannes e chega a Portugal na mesma data de “Uns Belos Rapazes”. Curioso: os dois filmes mais importantes da semana não podiam ser mais opostos, mas ambos colocam a adolescência no centro das atenções. No filme de Campos, que decorre num colégio interno da Nova Inglaterra, a adolescência está obcecada pela tecnologia. Depende dela. Aquilo que Robert (Ezra Miller, actor espantoso) entende por realidade é o que vê na Net: duas raparigas que se agridem brutalmente; um gato que toca piano; uma mulher humilhada num sítio de filmes porno... Campos vai investigar este modelo de teenager moderno, socialmente isolado, com o mundo inteiro ao alcance de um click. Mas o seu filme não é uma metáfora do desenvolvimento da tecnologia, nem a crítica de um sistema de ensino de elite, tão pouco a denúncia da falência de uma autoridade paterna (pais, professores...) substituída pela realidade virtual. O que Campos pretende é testar a consequência da interacção de todos estes vectores."

"Durante um trabalho extracurricular que Robert decide fazer em vídeo, acontece uma coisa terrível: a câmara DV do protagonista capta a morte brutal de duas irmãs gémeas, por overdose. Elas sangram e asfixiam à nossa frente, Robert assiste a tudo, fica paralisado — e a sua passividade impressiona. Captou ele essas imagens por mero acaso, como todos julgam? Ou será que, em silêncio (e esta é a grande fractura do filme), perseguiu algo que fosse, pelo menos, tão violento como o que se vê na Net? Nesse momento, já se sabe que Dave, colega de quarto de Robert, passa droga na escola. Mais tarde, é dito que a cocaína fatal tinha veneno de ratos. E as imagens daquela ‘morte em directo’, que abrem um inquérito policial, até nem são muito diferentes das imagens da ‘primeira vez’ do rapaz, filmada com a mesma distância clínica e o mesmo grau de abandono, como se toda a adolescência estivesse afinal presa a uma concha de emoções interditas. Prova disso é o filme de homenagem às gémeas que Robert depois edita — sem pinga de compaixão e de sentimentalismo."



"Captar a realidade, tal como ela é, com uma câmara e um microfone é uma ilusão — e um problema cinematográfico complexo. Vai sê-lo para Robert e também para os espectadores de “Depois das Aulas.” É que essa realidade, uma vez filmada, pode ser pervertida. E a um ponto tal que ela acaba por desaparecer. Quando o filme começa, o seu modelo parece óbvio: estamos a ver as imagens de ficção de um realizador (Campos) sobre as ‘imagens reais’ de um adolescente (Robert). Só que esta ordem de observação, tão confortável para nós, vai ser dinamitada. Campos escava bem fundo na aparência desta ‘hierarquia de olhares’ quando, numa sequência final notável, o filme decide correr todos os riscos — e integra imagens que perderam a autoria. Imagens sem ponto de vista. Como se, depois de tudo o que vimos, fosse impossível distinguir o que Campos filmou do que foi filmado por Robert. Neste momento, “Depois das Aulas” encontra o seu género: é um filme de terror puro." Francisco Ferreira, Expresso de 12/12/2009

7.12.09

Actividade Paranormal
Título original: Paranormal Activity
De: Oren Peli
Argumento: Oren Peli
Com: Katie Featherston, Micah Sloat
Género: Terror
Classificação: M/12
EUA, 2007, Cores, 86 min.

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"NESTA COISA de cinema, diabolismos e filmes de terror, há que ter cuidado. Não se pode esquecer o que está lá para trás. Os espectros fulminantes de Murnau. Aqueles que, como Tourneur, juraram a pés juntos que o Mal existia na Terra (e nos filmes). Os que trabalharam o cinema de terror como uma novela perfeita — e Friedkin não fez outra coisa em “O Exorcista”. Também os que viram no género o terreno ideal para introduzir revoluções profundas, como o provou Kubrick em “The Shining”, o primeiro filme em que a steadicam foi usada por um cineasta maior. À luz de tudo isto, com a chegada do videodigital e de orçamentos de pele e osso, eis a grande questão: o que dizer de um filme como “Actividade Paranormal”, em que o argumentista não sabe escrever, o câmara não sabe filmar e os actores, todos amadores, não sabem interpretar? Mais: qual é a consequência de um tempo em que as imagens e os sons, manipulados e cada vez mais anónimos, se ‘democratizam’ ao alcance de uma câmara e de um micro que até podem ser os de um telemóvel? Era fácil passar à frente de “Actividade Paranormal”. O problema é que este filme, disso estamos seguros, é um produto evidente do seu tempo. E os discursos que o condenam são infinitamente menos produtivos do que os que saem a terreiro em sua defesa."

"Porque se calhar há (e sempre houve...) um gesto instintivo de cinema que não se joga no campo da mestria, do ensaio, da concentração, muito menos no da repetição de fórmulas feitas, como 99% do cinema de terror contemporâneo. Um cinema que chega aos seus fins por outros meios — e, lá por ser ‘menos sério’, não é menos luciferino. Há dois vectores claros em “Actividade Paranormal”: de dia, Micah tem a câmara na mão; à noite, a câmara está fixa e o diabrete ataca. Os primeiros parecem adereços de preparação para os segundos, e esta estrutura é banal e repetitiva. Mas até aqui há subtilezas: 1) há um analista ‘formado em assombrações’, personagem pateta, que visita a casa no início do filme e que volta a surgir na ficção, uma hora depois, só para dizer que não pode ficar naquela casa nem mais um minuto; 2) Micah, depois de folhear livros do Demo e usar tábuas amaldiçoadas, arma-se em ‘Orfeu do YouTube’ e dá-nos a ver, na Net (tinha de ser), aí sim, uma breve sequência de terror puro sobre uma desgraçada, exorcizada algures nos anos 60, provável origem do problema que assola Katie. Não são estes dois momentos de uma eficácia inexplicável?"



"Mas o que mais impressiona é outra coisa: são as ganas daquele ‘perfeito anormal’, Micah, e, por ele, o desejo ardente de que o terror, atraído por uma câmara e por um micro, entre naquela casa. Katie desespera: “Turn it off, please!” Mas Micah não desliga a câmara. E, quanto mais ele chama pela besta, mais ela se aproxima. Isto resume-se a uma coisa: fé absoluta da ficção em si própria. Fé na imagem, no som, naquela espera e nuns truques de magia que Méliès inventou há cem anos. E uma leve esperança de que o cinema possa, de facto, atrair a maldição. É que Micah acredita no Demo. Acredita nele com todas as suas forças. Está obcecado por ele. E o Demo, que é bem educado, não costuma recusar certos convites." Francisco Ferreira, 05/12/2009

29.11.09

Lua Nova
Título original: The Twilight Saga: New Moon
De: Chris Weitz
Com: Kristen Stewart, Robert Pattinson, Billy Burke, Taylor Lautner
Género: Drama, Romance
Classificação: M/12
EUA, 2009, Cores, 130 min.

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"ESTA SEGUNDA parte de “Twilight” pode surgir, para os jovens espectadores, como uma certa desilusão. Isto porque comparada com a primeira, apresenta uma narrativa que se vai arrastando de forma um pouco forçada. A razão não é difícil de perceber. Desde o começo da produção, o projecto é o de uma trilogia, procurando-se concentrar o grande e definitivo confronto e destino das personagens na última parte. A sua execução depende do êxito de bilheteira da primeira parte. Conseguido este, as duas que se seguem apresentam um carácter unitário. Daí resulta que a parte intermédia, que agora se estreou, desenvolva as situações mas não resolva nenhuma, deixando uma forte expectativa no termo do episódio, e o final apenas anuncia o confronto final. Ficam apenas breves sinais. A grande inimiga de Bella, entre vampiros com destaque na primeira parte, está quase ausente, embora se mostre o perigo da sua presença. E Jacob, o ‘lobo’ apenas se transforma como manifestação de perigo. Ambas as situações anunciam a terceira parte."

"Parece-me que será apressado formular uma crítica mais pertinente por uma história ainda sem conclusão. Isto porque a ideia da produção parece ter sido cuidadosamente planeada, em especial com a escolha dos realizadores. A primeira parte coube a Catherine Hardwicke, especializada em histórias dramáticas, e esta que se estreou foi dirigida por Chris Weitz, mais virado para a fantasia (“A Bússola Dourada”) que aqui não sabe explorar a influência do drama de Shakespeare “Romeu e Julieta” na existência dos seus trágicos heróis."



"A terceira parte, a estrear no próximo ano, será realizada por David Slade e é esta a aposta em transformar dramaticamente a acção, pois trata-se de um director bastante talentoso e especializado na profundidade da tensão dramática e dos confrontos como testemunham os seus dois filmes conhecidos, “Hard Candy” e “30 Dias na Escuridão”, este último já marcado pela participação dos ‘vampiros’." Manuel Cintra Ferreira, Expresso de 28/11/2009

25.11.09

Ne Change Rien
Título original: Ne Change Rien
De: Pedro Costa
Com: Jeanne Balibar
Género: Documentário, Musical
Classificação: M/12
POR, 2009, Cores, 97 min.

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"“NE CHANGE RIEN” tem dois lados, como um LP. Um lado ‘A’, tenso e angustiado, e um ‘B’, mais melancólico e entregue ao sabor do vento, como uma das suas canções, ‘Johnny Guitar’. Talvez as duas partes se separem naquele misterioso ‘plano japonês’ em que duas senhoras fumam cigarros num bar de Tóquio. É um intervalo breve — dir-se-ia que o tempo, ali, parou —, como se ao espectador fosse permitido tomar um café a meio do espectáculo. E é o intervalo que basta para afastar esta hipótese de ‘filme-LP’ de quase tudo o que alguma vez aproximou a matéria musical da cinematográfica. Pois esta não é a história passiva de uma música já feita, antes a acção concreta de uma música ‘a fazer-se’ — e o seu processo criativo, que evolui à nossa frente, abre-nos novas perspectivas de julgamento."

"Durante a rodagem de “Ne Change Rien”, Jeanne Balibar, além dos concertos e ensaios, interpretou “La Périchole”, de Offenbach. A opereta tornar-se-ia o terceiro eixo de rotação do filme a explorar o perfeccionismo da artista. E se a espiral da Balibar rocker, na beleza e na penumbra que a envolvem, provoca empatia imediata (Jeanne está tão perto que quase parece podermos tocar-lhe nos cabelos), a Balibar cantora lírica, esteja ela entre a ‘espada e a parede’ de um ensaio ou num palco filmado dos bastidores, não é menos atraente. Afinal, falará “La Périchole”, que Offenbach criou 140 anos antes dos discos de Jeanne, dos mesmos tormentos das suas canções? Dos mesmos lamentos e desencontros? Quanto mais se vê o filme mais se desconfia que existe por ali um lastro a reflectir o passado na textura do presente, no mesmo espelho do romantismo; uma linha de ficção escondida que se insinua e vem coser as pontas."

"Trabalho, memória: mas isto não basta. E se aquele lado ‘A’ que imaginámos, formado essencialmente por grandes planos, fosse o inventor do romance? E se o lado ‘B’, em que a câmara se afasta consideravelmente do rosto de Balibar, anunciasse que o romance acabou? Afinal, Jeanne canta e não traz outra coisa do que canções de amor. Sorri, emociona-se, tortura-se, desespera... O seu teatro não é épico. Enquanto isso, o filme, noir do princípio ao fim, começa a criar personagens. E insistimos: há um thriller em “Ne Change Rien” ou, pelo menos, foi isso que vimos nele. Um thriller siderante em que, como noutros filmes de Pedro Costa, uma mulher se torna o espectro do desejo de um homem. O contacto é doce, a troca difícil. E a metamorfose não é uma mellow song: exige certas atmosferas, actores transformados em silhuetas pela luz e pela sombra, corpos que se exilam de si próprios para se suprimirem, como fantasmas que nos visitam e depois abandonam o ecrã em silêncio. Até que a matéria concreta ganhe um sentido sobrenatural. Até que o real e o poético possam ser o mesmo sonho."



"“Ne Change Rien” é um filme ultra-sensível. Deste cinema, haverá sempre pouco." Francisco Ferreira, Expresso de 21/11/2009

22.11.09

Tetro
Título original: Tetro
De: Francis Ford Coppola
Com: Vincent Gallo, Maribel Verdú, Alden Ehrenreich
Género: Drama, Mistério
Classificação: M/12
ARG/ESP/EUA/ITA, 2009, Cores e P/B, 127 min.

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"HÁ UM JOVEM que procura um irmão mais velho que anos antes se foi embora da casa paterna. Há um pai com tendências centrípetas, fazendo o mundo convergir para um ponto onde ele está. Há uma história trágica com ressonâncias de incesto e há uma jovenzinha fascinada que um pai rouba a um filho e depois se desarticula, como uma boneca a quem partiram as ligações. Há um tipo que praticamente enlouquece com a história da sua vida que não pára de escrever e mastigar — e uma mulher que o salva sem lhe matar os fantasmas. E há Coppola a dizer que todas aquelas histórias, personagens, relações, tramas e traições são verdadeiras, embora nada daquilo alguma vez tenha ocorrido."

"Já estou a ver, daqui a poucos anos, os biógrafos do realizador debruçados sobre “Tetro”, tentando esclarecer em cada recanto uma correspondência com a realidade, como se este fosse um filme com chaves para decifrar. Acrescento já que quero, no futuro, ler esse esforço, mas que, perante o filme, isso é o que menos me interessa. Pelo contrário, interessa-me muito verificar que esta espécie muito particular de saga familiar, em tom de melodrama embalado pelo som do bandoneón (fascinante banda sonora de Osvaldo Golijov), tem o sopro de uma ópera popular. É por isso que nenhum dos personagens é verdadeiramente realista e que a fotografia a preto-e-branco cria uma impressão de sufoco como eu não via desde “A Saudade de Veronika Voss” de Fassbinder (quem diria que já passou mais de um quarto de século!)."

"É por isso que as ruas do bairro de La Boca, numa Buenos Aires apaixonante e onírica, parecem cenários de um palco incomensurável, como pareciam as de “Do Fundo do Coração” que eram mesmo feitas num estúdio, as de “Tetro” não. É por isso que quando Maribel Verdú dança diante de um Alden Ehrenreich que não podia estar mais embevecido, aquilo parece um momento perfeito e a gente nem se interroga sobre os cordéis de ficção que ligam a cena ao que veio antes e ao que vem depois. Não: a gente fica ali, mais enfeitiçada do que o protagonista, sem querer saber mais nada a não ser a pura beleza diante dos olhos."

"E apetece que dure — infindavelmente. Como nos melhores filmes de Powell e Pressburger que Coppola explicitamente convoca, como nas grandes árias de Verdi que desejamos que não acabem nunca, “Tetro” é um objecto com o poder de retorsa sedução que só os pináculos artificialistas conseguem destilar. Tem tudo lá dentro, Eros e Thanatos, espantos, dores, bailado, a grande música, o teatro mais delirante, a tragédia, os espaços largos (como nos westerns), o melodrama da ralé, faca-e-alguidar, e a melhor arte elitista — até tem uma cena de iniciação sexual feita com uma alegria tão exuberante que apetece ser virgem outra vez. Esta massa infrene, pulsante, é caldeada pela mão de um autor que sabe tudo o que há para saber sobre cinema e que, como já nada tem a provar, faz aqui o mais livre dos seus filmes, o mais secreto, o mais barroco, um dos mais belos."



"(Tenho um amigo que acha Francis Ford Coppola o maior cineasta da História do Cinema. “Tetro” — e a trilogia dos Padrinhos, e “Apocalypse Now” e “Do Fundo do Coração” — quase me fazem dar-lhe razão.)" Jorge Leitão Ramos, Expresso de 21/11/2009

16.11.09

Os Sorrisos do Destino
Título original: Os Sorridos do Destino
De: Fernando Lopes
Com: Ana Padrão, Rui Morrison, Milton Lopes
Género: Drama
Classificação: M/12
POR, 2009, Cores, 98 min.

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"ADA É UMA MULHER cosmopolita, entre lançamentos de livros, programas de rádio, viagens a Itália e Wagner como música de fundo. Borboleta cultural, é natural que, aqui e ali, ceda às seduções que os artífices do gosto tão hábeis são a manusear. Do amor não saberemos o que pensa, mas o sabor da infidelidade está no rosto de Ana Padrão e cai-lhe bem. Carlos, o marido, pelo contrário, é um jornalista muito mais terra-a-terra, ao espavento sinfónica prefere os boleros de Los Panchos (espantosa banda sonora a desta fita — onde se compra?) e acerca do amor só sabemos que nunca há-de conseguir viver sem Ada. Rui Morisson é esse homem, seguro de si e, todavia frágil que, um dia, lê uma mensagem no telemóvel da mulher, por acaso, por artes do destino — ele que nem tem nem é capaz de manusear tais aparelhos. Descobre que há um tal Manuel B. que anseia por voltar a estar com ela. E resolve conhecer esse outro parceiro que andava pela sua vida e ele nem sonhava. Escritor angolano, em casa isolada, de excelente gosto e melhor vinho, Manuel é Milton Lopes (que já em “O Delfim” era o homem que a senhora ia buscar). O que Carlos encontra e como resolve aquilo que encontra não cumpre dizer aqui, vão ver o filme. Convém saber, contudo, que ele leva no bolso uma navalha de ponta e mola, mas que esta não é uma fita de faca e alguidar."

"“Os Sorrisos do Destino” é uma situação triangular tão antiga quanto a humanidade, contada com um sorriso nos lábios e um injúria no peito. Sagaz, o filme começa por uma alusão em subtexto (uma sessão fotográfica com uma top model em lingerie) onde o sexo se afixa com exuberante evidência, para depois o apagar quase por inteiro, como se esse fosse um assunto para o domínio do não-dito. Corajoso, enfrenta o pânico da solidão sem medo do ridículo naquela outra cena em que Carlos se levanta pela noite fora, sem norte nem rumo, e acaba acalentado pelo amigo que o mete na cama e lhe ajeita os lençóis, paternalmente — cena de uma verdade sem manejos, exemplar. Sofisticado, resolve-se numa espécie de encenação de alma grande, como se os comparsas masculinos fossem homens do mundo e soubessem sorrir perante os adejos das mulheres, os seus enlevos e enganos. Mas não sabem. No fundo há qualquer coisa de marialva por ali. Até no abandono a que Ada está votada."



"Existe, no mais recente filme de Fernando Lopes, uma vontade de olhar as agruras dos sentimentos — o adultério, os cansaços, os jogos de sedução — com a leveza nobre dos cínicos amargos do cinema (Lubitsch, Wilder, evidentemente). Constatemos, no entanto, o ponto de vista excessivamente masculino para que se verifique a equanimidade que esses mestres sempre se esforçavam por praticar. E, à falta da arte da esgrima com que desembrulhar diálogos e situações, notemos que sobra uma ibérica consternação: boleros em que se pode marinar a dor de corno, temperada a álcool — whisky ou tinto (do Douro) — e tristeza. Quase quase à beira das lágrimas. (Eu acho que a câmara desviou o olhar um segundo antes de acontecer. Questões de pudor, não temos nada com isso). Os filmes de verdade também têm direito a zonas reservadas." Jorge Leitão Ramos, Expresso de 14/11/2009

1.11.09

Os Substitutos
Título original: Surrogates
De: Jonathan Mostow
Com: Bruce Willis, Radha Mitchell, Rosamund Pike
Género: Acção, Ficção Científica, Thriller
Classificação: M/12
Estónia, 2009, Cores, 104 min.

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"NUM MUNDO em que há salas de chat onde é possível namorar sob uma identidade forjada, em que há sites onde se consegue simular uma outra existência através de avatares, onde há redes sociais em que se criam laços muitas vezes em nome de um desejo que não de uma realidade, como não acreditar na hipótese que “Os Substitutos” coloca? Seria assim: num próximo futuro as pessoas deixariam de sair à rua. Ficariam em casa, reclinadas diante de um ecrã e ligadas ciberneticamente a modelos que os simulariam, bonecos robóticos que os substituiriam na vida real e através dos quais todos os relacionamentos se processariam, de carácter profissional, social ou afectivo."

"A realidade dos espaços públicos das cidades passaria, deste modo, a ser ocupada apenas por esses avatares que um complexo sistema neuroeléctrico ligaria aos seus donos, de modo a que as sensações colhidas lá fora pudessem ser experimentadas pelos humanos. Claro: seria uma poderosíssima empresa planetária, uma microsoft da mecatrónica, quem fabricaria esses seres que poderiam ter um fácies similar aos dos possuidores (evidentemente melhorado, o envelhecimento seria uma das categorias a desaparecer radicalmente do espaço público) ou ter um rosto indistinto para utilização bélica — e essa empresa e os seus engenheiros seriam, então, qualquer coisa próxima do poder de um Estado absoluto, quiçá mesmo de Deus. E, claro ainda: haveria humanos que recusariam de forma radical a utilização, a presença, o simples convívio com os avatares. Esses, párias a viver em reservas, longe da evolução da espécie humana e dos seus benefícios, abrigariam um líder com carisma religioso e uma fé na reconquista da supremacia."

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"Um admirável mundo novo está criado, com a proximidade ao nosso para podermos extrair alguma reflexão. Nesse mundo acontece um mistério — alguém desenvolve uma arma que, ao destruir um avatar, mata também o seu dono — que Greer/Bruce Willis, agente do FBI, tem de destrinçar. Mas, enquanto avança no encalço do criminoso, debate-se com um problema íntimo. A mulher, encerrada num quarto desde a morte do filho de ambos, tem, enquanto avatar, um comportamento dissoluto, praticamente proibindo a Greer qualquer manifestação de afecto e interditando o contacto real entre ambos."

"“Os Substitutos” é excelente a instalar uma realidade ficcional, a trabalhar detalhes para a tornar maleável e a estabelecer o ‘contrato’ com o espectador de modo a que ele aceite a necessária suspensão da realidade. Tecnicamente é prodigioso (o trabalho sobre os rostos dos actores quando avatares, dando-lhes uma expressão quase humana, mas ficando um micrómetro aquém, é uma utilização perfeita dos recursos digitais). Depois, todavia, o filme afunila o extraordinário manancial à sua disposição numa trama onde as cenas de acção surgem quase por imposição externa e o núcleo policiário se revela bem curto quando se desvenda."



"Pessoalmente, gostaria muito mais de saber como se reconstrói uma humanidade depois de aquilo (é o que o fim do filme deixa em suspenso e quase dá por adquirido), que ver um avatar sem um braço aos saltos sobre ruínas e carcaças de automóveis mortos. Mas eu não tenho 13 anos e, já se sabe: nenhuma filosofia de vida suplanta uma boa explosão, pelo menos nos códigos que regem a maior parte dos filmes. A destes dias." Jorge Leitão Ramos, Expresso de 31/10/2009

31.10.09

O Delator!
Título original: The Informant!
De: Steven Soderbergh
Com: Matt Damon, Lucas McHugh Carroll, Eddie Jemison, Melanie Lynskey
Género: Acção, Comédia
Classificação: M/12
EUA, 2009, Cores, 108 min.

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"STEVEN SODERBERGH é um dos mais originais e insólitos cineastas americanos, com uma obra que se destaca pela alternância entre obras mais pessoais que são também uma espécie de jogos cerebrais e complexos (de que o último exemplo é o ainda inédito “The Girlfriend Experience” que antecede “The Informant!”) e aqueles que são outros tantos jogos lúdicos, de que as várias aventuras de Danny Ocean (George Clooney) são exemplo, ou “Erin Brockovich” e “Traffic”. Noutros, ainda, confluem as duas vertentes como em “O Falcão Inglês” e “Solaris” que para muitos são as suas obras-primas. Esta mistura de complexidade e simplicidade desconcerta em grande parte o espectador, com dificuldade em entrar no esquema, o que traz, por consequência um certo fracasso na bilheteira. Foi o que aconteceu com o seu irresistível e fabuloso “O Delator!”. "

"Esta incursão biográfica em Mark Whitacre (uma das melhores criações de Matt Damon, irresistível no papel de um mitómano que manipula tudo e todos) começa como um típico thriller político-económico, de que um dos exemplos mais recentes é “O Informador” de Michael Mann (1999). Como neste, encontramos um personagem que parece motivado por questões morais na denúncia de um ‘esquema’ que tem a ver com uma concertação de grandes corporações de produtos alimentares para fixarem preços no mercado global, e na qual está comprometida uma da qual é um dos vice-presidentes, a Archer Daniels Midland. Mark entra em contacto com agentes do FBI a quem expõe o esquema e torna-se um informador privilegiado, permitindo a captação de informações que irão levar a corporação a tribunal. "



"Porém, a pouco e pouco, no que parece um processo hábil e bem estruturado, vão surgindo sinais de que as coisas não são tão transparentes, e a exposição da personalidade de Whitacre vai revelando um mitómano onde a moral (?) se confunde com o interesse privado, e assistimos a uma manipulação incrível que acaba por deixar siderados os agentes do FBI. A evolução do processo toca as raias do absurdo e do burlesco que vão expondo a ambição que conduz Mark por todo o processo. A cadeia será apenas mais um passo na sua carreira!" Manuel Cintra Ferreira, Expresso de 24/10/2009

25.10.09

Desgraça
Título original: Disgrace
De: Steve Jacobs
Com: Jessica Haines, John Malkovich, Scott Cooper
Género: Drama
Classificação: M/16
África do Sul/Austrália, 2008, Cores, 120 min.

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"TANTO quanto sei, esta segunda longa metragem de Jacobs constitui, apenas, a segunda tentativa de adaptação ao cinema de uma obra de Coetzee. O facto é estranho, dada a notoriedade do autor, mas compreensível, dado que a escrita clínica de Coetzee, operando por sobreposição de sentidos, reivindica um olhar despojado e capaz de conciliar, num mesmo plano, o particular e o universal, o político (a situação da África do Sul, neste caso) e o religioso (a salvação do homem, neste caso). Desse ponto de vista, este filme vale, sobretudo, pela sua capacidade de interpretar criativamente o(s) sentido(s) do livro."

"Quem conhece o livro de Coetzee saberá, aliás, que o sentido da história de David Lurie (Malkovich) — professor de literatura numa universidade da Cidade do Cabo que procurará refúgio na quinta da filha depois de se envolver com uma aluna — se articula em três etapas: uma tese (a ordem do eu cativo do seu próprio egoísmo), uma antítese (a desordem do eu cativo da violência dos outros) e uma síntese (a desordem ordenada do eu despojado de si). Trata-se aqui de um conflito entre o sujeito e o mundo que Jacobs encena através de um jogo de contrastes entre o sentido disruptivo das imagens e a composição geométrica dos planos (como se o filme reflectisse a necessidade em que se encontra o protagonista de instalar uma ordem no caos), e que a mise en scène resolve através de uma operação de descentramento-recentramento das personagens no quadro. De facto, ao longo do filme, o centro dos quadros — de início habitado em exclusivo pela figura de Lurie — será objecto, ora de uma drenagem que projecta o protagonista para as margens ora de uma recolonização que o convida a partilhar o centro com outros."



"Precisávamos de um olhar ‘destes’ para fazer justiça a um livro ‘daqueles’." Vasco Baptista Marques, Expresso de 24/10/2009

19.10.09

Morrer Como Um Homem
Título original: Morrer Como Um Homem
De: João Pedro Rodrigues
Argumento: João Pedro Rodrigues, Rui Catalão
Com: Alexander David, Gonçalo Ferreira De Almeida, Jenni La Rue
Classificacao: M/18
FRA/POR, 2009, Cores, 133 min.

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"HÁ ALGO copiosamente fascinante no cinema de João Pedro Rodrigues. Doze anos volvidos sobre a curta-metragem “Parabéns” (com que espanto a descoberta, em 1997, no Festival de Veneza!) e após “O Fantasma” (2000) e “Odete” (2005), há uma coisa que já tomamos como certa — a temática gay —, mas subsiste, aprofunda-se, ganha peso e emoção o efeito-surpresa que cada novo filme traz consigo. É como se João Pedro Rodrigues não quisesse sair do mesmo território, mas recusasse percorrê-lo com navegador de bordo ou coordenadas conhecidas. Cada viagem é um mergulho, pode-se mesmo dizer que cada vez mais profundo, à polifacética humanidade que o ocupa."

"Desta vez é a história de Tónia, um travesti que não se limita a vestir-se de mulher no bar onde é profissional do espectáculo, mas transporta essa transformação para a vida quotidiana. No princípio do filme, Tónia aparece inclinada a fazer uma operação de mudança de sexo (cujos procedimentos clínicos são descritos com exemplar rigor e acompanhados pela utilização original do origami, essa arte de dobrar papel que aqui se molda na arte de dobrar carne e pele e fazer de um sexo masculino outra coisa — cena memorável!). A única razão para essa mudança, compreendemos depressa, é a vontade do companheiro em ter nela uma verdadeira mulher. Porque Tónia não parece muito inclinada a mudar de corpo."

"É, muito à letra, uma história de faca e alguidar: o homem de Tónia é um toxicodependente, um pequeno traste por quem ela está apaixonada nos limites melodramáticos que fizeram do fado uma canção de desgraças e lamúrias extremas. É um desespero de alma aquela dedicação profundamente feminina — se acreditássemos que pertence às mulheres a tendência a beijar as pedras do chão que ele pisar no caminho (e estou a parafrasear, evidentemente). Mas não acreditamos, nem nós, nem muito menos o filme — onde não há, note-se, uma única mulher. A grande tensão de “Morrer como Um Homem” é essa volúpia concentracionária de um só género que a arte de João Pedro Rodrigues consegue vincar e suspender ao mesmo tempo. Explico-me: nunca o filme oblitera que todas as figuras femininas que o habitam são travestis; mas há uma veracidade tão funda na representação que é fácil ao espectador tomar, nem que seja psicologicamente, as ‘mulheres’ por mulheres. De repente, as palavras escorregam, deslizam pelos dedos... ‘Representação’, foi o que escrevi atrás: é isso o que acontece quando um homem se veste e age como mulher? Qualquer resposta que se encontre para esta pergunta é uma vacilação. Eu acho que não sei e não sei se alguém sabe. “Morrer como Um Homem” é sobre isso, sobre o estremecimento da identidade, quando há uma miscigenização dos géneros — nos Óscares, Fernando Santos estaria nos intérpretes masculinos ou femininos?"



"“Morrer como Um Homem” é um melodrama de que Sirk havia de gostar, fotografado por Rui Poças com a mestria de quem afeiçoa luz e cor, onde se questiona, com preciosa coragem, o balouço entre o varonil e o feminil, aceitando a verdade e escorraçando todos os mundos virtuais (uma das zonas mais perturbantes do filme é a casa de Maria Bakker, lá onde o grotesco, a pose e o embuste se encontram, em contraponto à verdade sanguínea do par protagonista). E, cem anos que viva, a sequência do cemitério não a hei-de esquecer mais." Jorge Leitão Ramos, Expresso de 17/10/2009

7.10.09

Welcome
Título original: Welcome
De: Philippe Lioret
Com: Vincent Lindon, Firat Ayverdi, Audrey Dana
Género: Drama
Classificacao: M/12
FRA, 2009, Cores, 110 min.

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"BILAL (FIRAT AYVERDI), um curdo iraquiano, após uma longa viagem clandestina, chega a Calais, de onde telefona para uma antiga namorada, sua compatriota, que vive com a família em Inglaterra. O seu objectivo é atravessar o canal da Mancha e reencontrar a sua amada. Tem outro sonho também: jogar futebol no Manchester."

"O começo deste belo filme do francês Philippe Lioret, já com mais de meia dúzia de obras, todas inéditas entre nós, parece anunciar uma espécie de ‘conto de fadas’: a história de um emigrante e da sua luta por um futuro melhor. Os dados apontam para o inevitável happy-end. Não dura muito a ilusão. “Welcome” acaba por se revelar como um título irónico. Premiado no Festival de Berlim deste ano, o filme é uma grande tragédia contemporânea, um dos trabalhos mais amargos sobre o destino de tanta gente expatriada e do que ela padece numa União Europeia que lhes surge como um possível oásis, que depressa se torna uma fantasia. O filme expõe, de uma forma crua e dramática, a situação dos muitos emigrantes clandestinos que chegam a Calais e tentam passar para o outro lado do canal, expondo também como aos habitantes se torna quase impossível prestar-lhes qualquer ajuda, pois ficarão a contas com a justiça. Numa entrevista, o realizador chamou àquela zona “um pouco a nossa fronteira mexicana” e disse que as consequências de alguém ajudar um clandestino se assemelham às que sofriam os civis que ajudassem um judeu durante a II Guerra Mundial."

"Bilal tenta a travessia de várias maneiras, através de passadores que lhe extorquem as economias que possui. De barco revela-se impossível, devido ao controlo da polícia. Tenta então, com outros clandestinos, passar, camuflado, num camião TIR. Também aqui as autoridades mostram-se eficientes na descoberta de passageiros. Para evitarem serem descobertos pelos cães-polícias treinados para farejarem o anidrido carbónico da respiração, os clandestinos são forçados a enfiarem sacos de plástico na cabeça. Bilal, para quem tal situação reflecte a tortura de que fora vítima no Iraque, descontrola-se, acabando por denunciar, involuntariamente, a presença de todos. Descobertos, são levados para a esquadra, excepto um, que acaba por morrer sufocado."

"Bilal tenta então fazer a travessia a nado, dirigindo-se para a piscina para aprender crawl. É aqui que encontra Simon, professor de natação (Vincent Lindon, numa notável interpretação), que vive também uma situação de crise por estar separado da mulher. A ajuda de Simon é interrompida pela polícia, que o chama para interrogatório, devido à denúncia de um vizinho. Mesmo assim, ele continua decidido a apoiar Bilal, mas o drama está à espera."



"“Welcome” tem um tom quase documental, mas muito bem entrelaçado com a situação dramática. Sem jamais cair no maniqueísmo, faz um retrato sem complacências de uma realidade social bem actual, com uma força que acabou por provocar polémica em França, com uma intervenção crítica do ministro da Emigração. “Welcome” é um filme que é urgente ver e nele reflectir." Manuel Cintra Ferreira, Expresso de 03/10/2009

1.10.09

O Sangue
Título original: O Sangue
De: Pedro Costa
Argumento: Pedro Costa
Com: Inês de Medeiros, Luis Miguel Cintra, Pedro Hestnes
Género: Drama
Estúdios: Instituto Português de Cinema, RTP
POR, 1989, Cores, 95 min.

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Francisco Ferreira, Expresso de 26/09/2009

25.9.09

Distrito 9
Título original: District 9
De: Neill Blomkamp
Com: Sharlto Copley, Jason Cope, Nathalie Boltt
Género: Ficção Científica, Thriller
Classificacao: M/16
EUA/NZ, 2009, Cores, 112 min.

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"HÁ UMA ENORME nave espacial que se aproxima do nosso mundo, gigantesca, ameaçadora só pela dimensão. Depois de vaguear pelas alturas, não escolhe Nova Iorque, Paris ou Tóquio para se fixar, acaba por pairar sobre Joanesburgo — e de lá saem milhares, centenas de milhar, de seres extraterrestres que os terráqueos vão ter de instalar. São seres com o corpo coberto de uma espécie de quitina, têm o aspecto de insectos ou de crustáceos hominídeos e, segundo estudos sociológicos posteriormente estabelecidos, parecem ter perdido a liderança, são simples trabalhadores sem aplicação visível. A nave fica lá em cima, memória de sucata em levitação — e cá em baixo esses milhares de extraterrestres serão abrigados em campos de refugiados que depressa se transformam em lugares de infâmia concentracionária, onde não faltam os gangues de nigerianos que traficam tudo com os miseráveis, incluindo comércio sexual inter-espécies. As organizações não-governamentais bem se batem pelo respeito para com os direitos dos extraterrestres — mas pode-se falar em direitos humanos se eles nem humanos são?"

"Agora, 20 anos depois de terem chegado à Terra, chegou a vez de os deslocar, de os fazer sair daquele espaço infecto chamado Distrito 9 e pô-los noutro lugar. Quando o filme abre há um funcionário governamental chapadamente autoconvencido e encartadamente idiota que vai de barraca em barraca a fazer os extraterrestres assinar um permissão voluntária de transferência de habitação — sempre convenientemente enquadrado por forças policiais de choque. Só que as coisas não correm exactamente como previsto, o nosso homem é involuntariamente contaminado por ADN alienígena e o seu corpo começa a transformar-se..."

"O que há a esperar de um bom filme de ficção científica? Que seja um bom filme sobre a nossa realidade aqui e agora. Porque, por dentro da imaginação que convoca outros mundos e outros seres, é sempre a nossa realidade que desponta — ou então não acontece nada. “Distrito 9” é um filme sobre seres de outra galáxia amontoados num lugar infecto e deplorável e sujeitos a todo o tipo de discriminações e abusos (incluindo os quase inimagináveis que o filme se encarrega de pôr a nu). Não há emprego, não há cuidados de saúde, não há uma política social — apenas acantonamento e forças policiais em volta. Mas esse lugar não é uma construção cenográfica, quando a câmara plana sobre o bairro de lata a perder de vista é o Soweto que está diante dos nossos olhos... Ou seja, “Distrito 9” é uma inquietante parábola de extrema agudeza, um olhar sobre o apartheid, mesmo agora que o apartheid já não existe à face da lei — por dentro de um filme onde há acção a rodos, suspense controlado e um argumento tão eficaz e bem urdido que não faz a acção desenvolver-se segundo os caminhos mais previsíveis. A realização é de Neill Blomkamp, um homem que nasceu em Joanesburgo e sabe do que fala. Tudo fabricado debaixo do beneplácito de Peter Jackson (produtor avisado) com a utilização de efeitos especiais visuais imaculados."



"Inteligência dramatúrgica, competência industrial, acuidade humanista: “Distrito 9” é um filme que marca a diferença em tempos onde a estereotipação é quase um dogma." Jorge Leitão Ramos, Expresso de 26/09/2009

24.9.09

Séraphine
Título original: Séraphine
De: Martin Provost
Com: Yolande Moreau, Ulrich Tukur, Anne Bennent
Género: Drama, Guerra
Classificacao: M/12
BEL/FRA, 2008, Cores, 125 min.

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Francisco Ferreira, Expresso de 19/09/2009

23.9.09

Para a Minha Irmã
Título original: My Sister's Keeper
De: Nick Cassavetes
Com: Sofia Vassilieva, Cameron Diaz, Jason Patric, Abigail Breslin
Género: Drama
EUA, 2009, Cores, 109 min.

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Miguel Cintra Ferreira, Expresso de 19/09/2009

22.9.09

Abraços Desfeitos
Título original: Los Abrazos Rotos
De: Pedro Almodóvar
Com: Penélope Cruz, Lluis Homar, Blanca Portilla, Rossy de Palma
Género: Drama
Classificacao: M/12
ESP, 2009, Cores, 129 min.

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"O que é que se espera de cada novo filme de um autor que conhecemos bem e, sobretudo, amamos? Espera-se que nos transporte outra vez para o lugar superlativo das emoções - choro, riso, estremecimentos de alma - e do entendimento - uma visão do mundo, nos melhores casos - onde, com ele, já havíamos estado e, se possível, que nos leve para lugares que nem suspeitamos e que ele nos revela. Somos exigentes, cruelmente exigentes, com aqueles a quem mais queremos e, por vezes, isso acaba por ser injusto."

"Veja-se o que ocorre com "Abraços Desfeitos". É a história de um ex-realizador de cinema que cegou e mudou de nome ao resignar-se a escrever argumentos para outros. É um filme exemplarmente calibrado, com um argumento onde um drama esconde um mistério, um mistério recalca uma trágica história de amor — e, por trás de tudo, há uma traição e duas mulheres que se perderam porque se venderam por amor, uma por amor ao pai, a outra por amor ao filho. São os elementos basilares do melodrama e não há hoje cineasta que melhor saiba trabalhar esse género que o espanhol Pedro Almodóvar."

"Mas é um melodrama tintado de filme negro, um novelo arrebatado, com um tempero de humor e algum suor com cheiro de cama, inumeráveis piscadelas de olho cinéfilas (da Séverine de “Belle de Jour” ao filme dentro do filme que outro não é senão “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos” — para pior) e interpretações de grande nível com Penélope Cruz a dar-nos uma mulher capaz, a um tempo, de calculismo e de paixão sem freio e Blanca Portillo (era a vizinha da mãe que ficava cancerosa em “Volver”, lembram-se?) numa amiga fidelíssima e mais atenciosa que uma esposa, mas que tem uma mágoa, uma mancha, no olhar. É o peso da memória, o mesmo peso, mas com outra densidade, que o protagonista carrega — e não há como os habitantes do país mesmo aqui ao lado para saber como dói a memória, sobretudo a que se abafa, a que se não diz, a que não conta para o que fazemos todos e Lluís Homar: amor exilado os dias (uma Guerra Civil recalcada, nada menos, quando tantos traíram tantos e todos tiveram culpas). Estou a tresler, ou a ler de mais? É possível, só que o grande cinema é aquele que não fica pela superfície e permite este tipo de divagações."

"Há que concluir que “Abraços Desfeitos” é um grande filme? Não. Há apenas que dizer que pertence ao reduto do grande cinema, bastavam as sequências em Lanzarote, com aquela paisagem indescritível feita de sedução e desabrigo (um lugar de exílio, paixão, tragédia), para o provar. E há que sustentar que é fabricado com um saber feito de talento mas também de muita experiência. Almodóvar é como uma velha amante que já não funciona pela surpresa, mas pela astúcia, pelas variações sobre o reconhecido. Por isso, é possível dizer, sem faltar à verdade, que a fita não faz subir a obra do cineasta mais um degrau — não é uma obra mestra, como eram “Volver” ou “Fala com Ela” — e já ouvi a palavra ‘desilusão’ para a qualificar."



"Mas será cavernosa injustiça não ver que “Abraços Desfeitos” tem praticamente tudo o que fez deste realizador um dos maiores (sim, até alguma auto-indulgência, uma certa pose...), ou seja, não ver que, mesmo em ponto-morto, Almodóvar tem mais energia e mais capacidade de induzir ficções na nossa mente que 99% do cinema que aí há. " Jorge Leitão Ramos, Expresso de 12/09/2009