O Miúdo da Bicicleta
Título original: Le Gamin au Vélo
De: Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne
Com: Thomas Doret, Cécile De France, Jérémie Renier
Género: Drama
Classificação: M/12
Outros dados: FRA, 2011, Cores, 97 min.
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28.12.11
13.12.11
Um Método Perigoso
Título original: A Dangerous Method
De: David Cronenberg
Com: Michael Fassbender, Viggo Mortensen, Keira Knightley
Género: Drama, Thriller
Classificação: M/16
Outros dados: EUA, 2011, Cores, 99 min.
Título original: A Dangerous Method
De: David Cronenberg
Com: Michael Fassbender, Viggo Mortensen, Keira Knightley
Género: Drama, Thriller
Classificação: M/16
Outros dados: EUA, 2011, Cores, 99 min.
"David Cronenberg sempre filmou o que está debaixo da pele, escondido nas aparências. Mas filmou mesmo — não é como o famoso Almodóvar que parece julgar que basta nomear para se ter o que promete (veja-se “A Pele Onde eu Vivo” em que tudo fica pelo corpo belíssimo e elástico de Elena Anaya quando o que havia que dar era o tumulto do que está lá dentro). O canadiano, ao invés, nunca traficou arremedos, foi direito à coisa e, por vezes, a coisa saiu mesmo cá para fora, como um monstro que irrompe e devasta, razão pela qual houve quem o julgasse um cineasta de filmes de horror. Só que não, só que nunca no sentido gore que “Os Parasitas da Morte” (1975), “Coma Profundo” (1977) ou “Scanners” (1981) numa certa época pareciam indiciar. Antes numa dimensão onde, mais do que a carne, se rasgam as entranhas da alma (ou lá o que se lhe queira chamar) em vórtices tão abissais quanto os que experimentámos em “Crash” (1996), “existenz” (1999) ou “Spider” (2002). Um dia este cineasta dos abismos interiores havia de encontrar-se com os deuses da psicanálise, estava (quase) escrito nas estrelas. Encontrou-se agora."
"“Um Método Perigoso” é a história da relação de Carl Jung com uma sua doente célebre (a russa Sabina Spielrein), histérica e com fantasmas incestuosos e masoquistas, que seria sua paciente, sua amante e, finalmente, sua discípula. Sabina Spielrein tornar-se-ia, por sua vez, médica psicanalista, atividade que exerceria na Rússia soviética, antes de ser assassinada pelos nazis, em 1942."
"Sabina tinha 19 anos quando foi internada no hospital de Burghölzli, em Zurique, onde Jung trabalhava e o filme — baseado numa peça teatral de Christopher Hampton — decorre durante a década seguinte, centrando-se quer na relação entre Jung e Sabina quer no relacionamento de ambos com Freud — e com todas as minúcias de rivalidade entre os dois homens que não seriam meramente científicas. E não é a ‘cura’ de Sabina ou sequer o método que Jung adotou que ocupam o realizador. O que Cronenberg melhor encena é a desordem que o desejo proibido instala, a vertigem de uma relação onde os próprios impulsos ‘desviantes’ (o masoquismo dela, a vontade de ascendente dele) encontram um lugar, uma ocupação. Porque, finalmente, é o distúrbio a todos os níveis o que ali está em jogo, a começar pelas normas que regem uma sociedade patriarcal, hierarquizada, onde a conjugalidade é um dever e um espaço afetuoso de onde está ausente a transgressão e a volúpia."
"“Um Método Perigoso” não é um filme tão obviamente notável quanto o seu realizador nos habituou. Num primeiro momento estou mesmo a ver inúmeros espectadores a admirarem-se com o facto de Cronenberg se moldar aos códigos dos filmes de época (e com que rigor o faz!), aos fatos, ao modo de pegar numa bengala, aos tempos, aos espaços exteriores trabalhados por exímios e invisíveis efeitos digitais. Dotado de serenidade e certeza, não estrondeia, diz — numa obra em que cada plano é perfeito, cada sequência admirável, e onde a mise en scène muito se apoia na prestação dos atores, todos num altíssimo patamar (veja-se o peso que Viggo Mortensen dá a Freud, os riscos que Keira Knightley corre, em particular durante os seus ataques de histeria, onde o esgar atinge os limites do permitido, a milímetros de se despenhar no grotesco, a frieza perturbada que Michael Fassbender investe em Jung ou a compostura frágil, firme, dúplice de Sarah Gadon na sua mulher). A austeridade do filme é a capa debaixo da qual está a fúria dos instintos básicos — o sexo, a agressividade entre os homens, a guerra que aí vem." Jorge Leitão Ramos, Expresso de 26/11/2011
5.12.11
Melancolia
Título original: Melancholia
De: Lars von Trier
Com: Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg, Alexander Skarsgård, Cameron Sparr, Kiefer Sutherland
Género: Drama, Ficção Científica
Classificação: M/12
Outros dados: SUE/FRA/DIN/ALE, 2011, Cores, 134 min.
Título original: Melancholia
De: Lars von Trier
Com: Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg, Alexander Skarsgård, Cameron Sparr, Kiefer Sutherland
Género: Drama, Ficção Científica
Classificação: M/12
Outros dados: SUE/FRA/DIN/ALE, 2011, Cores, 134 min.



3.12.11
O Gato das Botas
Título original: Puss in Boots
De: Chris Miller
Com: Antonio Banderas (Voz), Salma Hayek (Voz), Zach Galifianakis (Voz)
Género: Animação
Classificação: M/6
Outros dados: EUA, 2011, Cores, 90 min.
Título original: Puss in Boots
De: Chris Miller
Com: Antonio Banderas (Voz), Salma Hayek (Voz), Zach Galifianakis (Voz)
Género: Animação
Classificação: M/6
Outros dados: EUA, 2011, Cores, 90 min.
"ESTREIA O personagem era um dos secundários de “Shrek”, de espada em punho, pose melosa de pretenso latin lover e olhinhos a provocar impulsos de ternura, criatura a que a voz de Antonio Banderas dava um salero inconfundível. Agora puseram-no a protagonista, num mundo onde se cruzam referências das histórias infantis (desde logo o João e o Pé-de-feijão) com uma ambiência mexicana que se aparenta às fabricadas em Almería no tempo em que se faziam western spaghetti em Espanha — ou seja, linhas ficcionais que os espectadores (pelo menos, os mais crescidos) reconhecem com facilidade e com que se divertem bastante."
"“O Gato das Botas”, como toda a melhor animação, não é exclusivamente para miúdos. A Dreamworks continua a dar cartas." Jorge Leitão Ramos, Expresso de 03/12/2011
2.12.11
Habemus Papam - Temos Papa
Título original: Habemus Papam
De: Nanni Moretti
Com: Michel Piccoli, Nanni Moretti, Renato Scarpa, Jerzy Stuhr
Género: Drama, Comédia
Classificação: M/12
Outros dados: ITA/FRA, 2011, Cores, 105 min.
Título original: Habemus Papam
De: Nanni Moretti
Com: Michel Piccoli, Nanni Moretti, Renato Scarpa, Jerzy Stuhr
Género: Drama, Comédia
Classificação: M/12
Outros dados: ITA/FRA, 2011, Cores, 105 min.
"De todas as instituições de poder, o Vaticano tem uma das cúpulas mundiais, mas o seu chefe é o único que não parte de uma candidatura, de uma assumida vontade pessoal. O Papa é eleito pelos cardeais reunidos em conclave, supostamente inspirados pelo Espírito Santo — a sua designação, uma consagração: entre pares, Deus escolhe. E se o escolhido por Deus não encontrar dentro de si méritos para o cargo? Se, perscrutando a sua alma, disser para si mesmo ‘ eu não sou capaz’? É dessa situação que Moretti parte para um dos seus filmes mais ousados e arriscados porque encena um bloqueio anímico e porque o seu humor se defronta com a púrpura cardinalícia e com o branco do papado. Não há, todavia, escárnio no olhar que Moretti lança sobre os interiores do Vaticano, nem quando encena a – impensável – entrevista do Papa que se recusa a sê-lo com o psicanalista que deve curá-lo dessa doentia indecisão, nem quando o põe em fuga por Roma, confessando uma antiga vontade de ser ator (e, dessa feita, convidando-nos a pensar nos rituais do espetáculo a que todo o Poder se entrega — e o papado mais que todos). Nem mesmo quando os cardeais confinados ao Vaticano — o mundo não pode saber a verdade de um Papa que não quer o cargo, os cardeais não podem saber que ele está em fuga, só Deus sabe onde, Roma fora — se entregam a um campeonato de voleibol, na invariável cena de desporto que todos os filmes de Moretti têm… Porque, finalmente, este filme não é uma sátira, é uma reflexão sobre a recusa do Poder numa época em que todos nele se embriagam."
"Todos? Nem por isso: o velho cardeal que Michel Piccoli interpreta com uma comovente dignidade preferia que o deixassem fazer Tchekhov..." Jorge Leitão Ramos, Expresso de 26/11/2011
A Pele Onde Eu Vivo
Título original: La Piel Que Habito
De: Pedro Almodóvar
Com: Antonio Banderas, Elena Anaya, Marisa Paredes, Jan Cornet
Género: Drama, Thriller
Classificação: M/16
Outros dados: ESP/EUA, 2011, Cores, 120 min.
Título original: La Piel Que Habito
De: Pedro Almodóvar
Com: Antonio Banderas, Elena Anaya, Marisa Paredes, Jan Cornet
Género: Drama, Thriller
Classificação: M/16
Outros dados: ESP/EUA, 2011, Cores, 120 min.



Vasco Baptista Marques, Expresso de 19/11/2011
19.11.11
Inquietos
Título original: Restless
De: Gus Van Sant
Com: Mia Wasikowska, Henry Hopper, Ryo Kase
Género: Drama
Classificação: M/12
Outros dados: EUA, 2011, Cores, 91 min.
Título original: Restless
De: Gus Van Sant
Com: Mia Wasikowska, Henry Hopper, Ryo Kase
Género: Drama
Classificação: M/12
Outros dados: EUA, 2011, Cores, 91 min.
"Não é a primeira vez que Van Sant se atira a uma adolescência assombrada pela morte. Mas, se em “Elephant”, por exemplo, o que dominava era o investimento quase abstrato de uma mise en scène que olhava de viés para as personagens, aqui há um melodrama de recorte clássico que arrisca olhá-las de frente. Van Sant de regresso ao mainstream anódino de “Descobrir Forrester”? Nem por sombras. De facto, o que fascina nesta história da paixão de uma rapariga com um cancro terminal e de um rapaz obcecado por funerais, é a forma como Van Sant evita todos os clichés aos quais o filme se presta para, abraçando as personagens (atenção aos grandes planos), nos entregar a comovente crónica da sua reconciliação com a vida. Quem lhe chama “banal” (e não são poucos) deve ter entrado noutra sala." Vasco Baptista Marques, Expresso de 19/11/2011
16.11.11
Sem Tempo
Título original: In Time
De: Andrew Niccol
Com: Amanda Seyfried, Justin Timberlake, Cillian Murphy, Vincent Kartheiser
Género: Thriller
Classificação: M/12
Outros dados:
EUA, 2011, Cores, 109 min.
Título original: In Time
De: Andrew Niccol
Com: Amanda Seyfried, Justin Timberlake, Cillian Murphy, Vincent Kartheiser
Género: Thriller
Classificação: M/12
Outros dados:
EUA, 2011, Cores, 109 min.
"Marx sustentava que a paga dos proletários era o mínimo necessário para que eles mantivessem e reproduzissem a força de trabalho. Andrew Niccol leva isso à letra no seu último filme, “Sem Tempo”. Passa-se num próximo futuro não tão diferente da atualidade que seja preciso gadgets, veículos ou mesmo indumentárias particulares para criar um efeito de real. A grande disparidade vem do facto de, nesse futuro, os humanos terem sido clonados, sendo-lhes incorporado um relógio no antebraço. Até aos 25 anos, tudo decorre sem incidentes de maior, nascem, crescem, desenvolvem-se e vivem. Mas, no dia em que esse prazo se completa, o relógio ativa-se, num estremecimento de passagem à idade adulta. A partir de então, o relógio entra em contagem decrescente — e só lá tem um ano para gastar. Para se prolongar a vida é preciso trabalhar — os salários são pagos em horas creditadas nesse relógio irrevogável — ou roubar. Ou, então, deter meios de produção, ser empresário, banqueiro, pertencer à casta dirigente. Esses, ao apropriarem-se da mais-valia das massas que correm e desesperam para sobreviver, têm um capital de séculos ou de milénios, podem ser virtualmente eternos. Para tornar as coisas mais problemáticas para os de baixo, os de cima criaram dois mecanismos de manutenção do status quo: controlam os preços, os juros, o valor dos produtos e da mão de obra (os chamados mercados), de modo a manter os trabalhadores sempre no limiar da pobreza, à beira da morte; e criaram portagens entre os locais onde vivem os pobres e aqueles onde vivem os ricos, anos que os de baixo nunca conseguem acumular para poder, ao menos, espreitar a riqueza dos outros."
"A partir do momento em que o relógio se ativa, nunca mais se envelhece, toda a gente tem a aparência de 25 anos — as filhas são iguais às esposas, iguais às mães, iguais às amantes, matéria para infinitas variações ficcionais. E, se há quem queira viver para sempre, mesmo depois de ter muitos anos e ter visto, gozado e sofrido o bastante para duas ou três vidas (numa ganância insaciável), também há quem se canse e queira partir. No princípio do filme, há um rico desiludido que passa mais de um século ao protagonista antes de se suicidar. Este resolve, então, atravessar as portagens, sair do gueto, ir até ao mundo dos ricos, tirar-lhes tudo o que têm."
"Andrew Niccol é um cineasta visionário que criou universos tão originais como os de “Gattaca” (1997), “Simone” (2002) ou “A Vida em Directo” (1998, este dirigido por Peter Weir). Nos territórios de ficção que vem criando, a opressão e a liberdade têm sido os invariáveis temas, em diferentes cambiantes, mas sempre apelando ao inconformismo, quando não ao combate aberto, perante os poderes. Mas nunca criara uma metáfora tão fremente sobre a luta dos homens pela sua sobrevivência — no fundo, a grande energia que nos move. Infelizmente, a excelente ideia que preside a “Sem Tempo” é apoucada pelos constrangimentos do filme de ação. Entre assaltos, perseguições e pulsões suicidárias (notável é o polícia no encalço do herói e da sua dama, interpretado com um brilho mecânico no olhar por Cillian Murphy), “Sem Tempo” ainda aflora o perfume de “Pedro, o Louco” ou de “Bonnie e Clyde”, não tendo, todavia, nem a poesia nem a vontade de apocalipse desses filmes sulfúreos. Um dos mais originais filmes do ano acaba, assim, por se esboroar nas convenções do cinema para os adolescentes consumirem. Sinal dos tempos." Jorge Leitão Ramos, Expresso de 12/11/2011
2.11.11
Route Irish - A Outra Verdade
Título original: Route Irish
De: Ken Loach
Com: Mark Womack, Andrea Lowe, John Bishop
Género: Drama, Thriller
Classificação: M/12
Outros dados: GB/FRA, 2011, Cores, 109 min.
Título original: Route Irish
De: Ken Loach
Com: Mark Womack, Andrea Lowe, John Bishop
Género: Drama, Thriller
Classificação: M/12
Outros dados: GB/FRA, 2011, Cores, 109 min.
Jorge Leitão Ramos, Expresso de 22/10/2011
20.10.11
Contágio
Título original: Contagion
De: Steven Soderbergh
Com: Marion Cotillard, Matt Damon, Laurence Fishburne, Jude Law, Gwyneth Paltrow, Kate Winslet
Género: Drama, Thriller, Suspense
Classificação: M/12
Outros dados: EUA, 2011, Cores, 107 min.
Título original: Contagion
De: Steven Soderbergh
Com: Marion Cotillard, Matt Damon, Laurence Fishburne, Jude Law, Gwyneth Paltrow, Kate Winslet
Género: Drama, Thriller, Suspense
Classificação: M/12
Outros dados: EUA, 2011, Cores, 107 min.
"Ao princípio nem se sabe bem como é que aquilo aconteceu: um vírus com património genético de morcego e de porco começa a provocar tosse, febre, convulsões e, eventualmente, a morte em 1, 2, 4, 8, 16, 32, 64, 128 pessoas — e a progressão não para —, numa cidade, num continente, no mundo. Não há remédio certo para o combater, apenas paliativos com uma taxa de ineficácia horrivelmente alta. Os cientistas tentam desesperadamente descobrir uma vacina enquanto a epidemia cresce, as pessoas se fecham para evitar o contágio e a sociedade se desorganiza. Há pilhagens, há motins, os hospitais rebentam pelas costuras, põem-se cidades inteiras em quarentena, os militares são chamados para a rua, abrem-se valas comuns, já não há tempo nem disponibilidade para funerais individualizados. E outra praga se espalha, tão infecciosa quanto a do vírus, a praga da informação desordenada que a Internet propaga e multiplica, sem controlo, sem aferição (talvez nenhum filme até hoje tenha mostrado tão claramente o horror que isso pode ser num momento de crise grave). Um blogger de sucesso proclama que uma mezinha qualquer que uma sua empresa produz evita o contágio — e fica rico à custa da desinformação reinante."
"Steven Soderbergh filma a progressiva instalação de um caos social planetário causado por uma nova doença, nada de muito improvável. Não é uma história de conspiração, não há forças tenebrosas a manipular na sombra, não há segredos militares ou de segurança nacional, é apenas uma história de fragilidade humana face a uma Natureza sem rosto que, evidentemente, não nos ama — é cega, sem sentimentos e sem moral. “Contágio” não é um thriller policial ou de espionagem, tem a frieza e o didatismo de um documentário (vejam-se todas as cenas onde simples contactos humanos ou com objetos infetados propagam indefinidamente a pestilência). Pode-se chamar ficção científica, porque ficciona a ciência e é credível nesse trabalho. Talvez por isso seja tão inquietante a morte em trabalho de ceifa ante a impotência de todos."
"O que fazem tantos nomes sonantes (Gwyneth Paltrow, Matt Damon, Kate Winslet, Laurence Fishburne, Jude Law, Marion Cotillard, Elliott Gould...) no campo dos intérpretes de “Contágio” — alguns com papéis que são quase aparições amigáveis? Antes de tudo, criam um efeito de estranheza: habituados a que nomes com aquela grandeza assumam lugares protagonistas, procuramos em cada um deles a liderança, a locomotiva que leve a ficção atrás de si. Depressa descobrimos, contudo, que, no meio de uma tragédia como a que o filme aborda, não há heróis, todos são agitados num turbilhão de onde sair vivo não depende da importância do nome nos cartazes. As vedetas também morrem neste filme, dirigido pelo menos previsível dos cineastas americanos. E se Matt Damon anda por lá, do princípio ao fim, tentando evitar que a filha entre no rol dos infetados, é apenas porque a lei das probabilidades o tornou imune, ninguém percebe porquê, não é porque tenha um poder qualquer. De resto, a imunidade só ajuda a que não morra, não o põe a resgatar o mundo, pobre dele..."
"“Contágio” não é um filme-veículo para vedetas (como “Ocean’s Eleven — Façam as Vossas Apostas”) nem um filme de arte e ensaio puro e duro (como “Bubble”), os dois limites entre os quais tem oscilado a obra de Soderbergh. É um filme-catástrofe sem ceder um cisco à espetacularidade de que Hollywood gosta. Chama-se realismo — e é muito bem feito." Jorge Leitão Ramos, Expresso de 15/10/2011
10.10.11
Meia-Noite Em Paris
Título original: Midnight in Paris
De: Woody Allen
Com: Kathy Bates, Adrien Brody, Carla Bruni, Marion Cotillard, Rachel McAdams, Michael Sheen, Owen Wilson
Género: Comédia, Romance
Classificação: M/12
Outros dados: ESP/EUA, 2011, Cores, 93 min.
Título original: Midnight in Paris
De: Woody Allen
Com: Kathy Bates, Adrien Brody, Carla Bruni, Marion Cotillard, Rachel McAdams, Michael Sheen, Owen Wilson
Género: Comédia, Romance
Classificação: M/12
Outros dados: ESP/EUA, 2011, Cores, 93 min.
"Woody Allen fez de Paris o décor para o seu novo filme e assina uma das melhores comédias dos últimos tempos. “Meia-Noite em Paris” abandona cedo o seu cartão postal para se reinventar em caminhos cada vez mais delirantes. Desta vez, Woody inventa um argumentista em crise criativa, Gil, que é a reprodução perfeita do ‘ americano pacóvio’ de visita à Europa, preso a uma noiva (e aos pais dela) mais pacóvia ainda. Mas Woody, que não é um salva todos, é generoso com Gil: por artes mágicas (as melhores no seu cinema) leva a personagem para os boémios e inspirados anos 20 de Hemingway, Gertrude Stein e Picasso, a um mundo que se adaptará aos desejos da personagem. "
"Para Gil, tal como para Allen, o passado não será coisa de saudosista: antes uma lição que o fará compreender melhor o presente e escolher um caminho." Francisco Ferreira, Expresso de 17/09/2011
9.10.11
A Morte de Carlos Gardel
Título original: A Morte de Carlos Gardel
De: Solveig Nordlund
Com: Rui Morrison, Teresa Gafeira, Celia Williams, Carlos Malvarez
Género: Drama
Classificação: M/12
Outros dados: POR, 2011, Cores, 85 min.
Título original: A Morte de Carlos Gardel
De: Solveig Nordlund
Com: Rui Morrison, Teresa Gafeira, Celia Williams, Carlos Malvarez
Género: Drama
Classificação: M/12
Outros dados: POR, 2011, Cores, 85 min.
"Há, no romance de António Lobo Antunes que Solveig Nordlund fez seu para realizar o filme mais pessoal de toda a sua obra, uma vertigem de sofrimento, um mal-estar de vida, um desencontro abissal entre as pessoas, entre as pessoas e o passado, entre as pessoas e a realidade que as circunda — sempre feia e áspera, para vomitar. Solveig aplanou um pouco os abismos entre os personagens para se centrar eminentemente num, a morte de um filho (Carlos Malvarez, na foto, com Teresa Gafeira), e no que isso faz a Álvaro, o pai, um realizador de cinema que nunca lhe ligou muito mas que agora se desmorona por inteiro, ali, à nossa frente. Outros personagens convergem: Cláudia, a mãe do rapaz, alemã (Celia Williams, penteada como a realizadora era há três décadas), com um companheiro jovem que quase tem a idade do filho; Graça, a irmã de Álvaro (Teresa Gafeira, com um papel para nos lembrarmos dela no cinema), médica, que vive com uma mulher muito mais nova que lhe faz a vida negra; mas, de facto, é Álvaro (Rui Morisson, sempre credivelmente natural, a mostrar que não é preciso histrionismo para figurar o mais entranhado desespero) o verdadeiro Cristo de uma via-sacra em que a vítima sacrificial, por uma vez, não é quem morre."
"A fuga para o tango, para essa improvável aliança com o ‘Carlos Gardel português’ (belíssimo contributo de Ruy de Carvalho às emoções de um filme que não tem vergonha de as ter a rodos), é uma espécie de preenchimento da vida por uma rêverie consciente e absurda, um esgar mais do que um sorriso, uma faca a fingir de véu — uma feérie tão triste que nos faz verter uma lágrima antes de desatarmos a aplaudir o filme. E, se me disserem que é para esconjurar a dor expressando um entusiasmo incomensurado, eu não digo que não." Jorge Leitão Ramos, Expresso de 24/09/2011
Sangue do Meu Sangue
Título original: Sangue do Meu Sangue
De: João Canijo
Com: Rita Blanco, Anabela Moreira, Cleia Almeida, Rafael Morais
Género: Drama
Classificação: M/16
Outros dados: POR, 2011, Cores, 139 min.
Título original: Sangue do Meu Sangue
De: João Canijo
Com: Rita Blanco, Anabela Moreira, Cleia Almeida, Rafael Morais
Género: Drama
Classificação: M/16
Outros dados: POR, 2011, Cores, 139 min.
"Espantoso plano inicial. Dir-se-ia prodígio cenográfico, pórtico de entrada para uma ficção, digno de Kurosawa, com aquela letra gigantesca no interior da qual o Joca/Rafael Morais se afunda no caminho para um bairro de onde — havemos de perceber ao longo do filme — a vida encontra maneiras de não deixar (quase) ninguém sair. Mas não é cenografia, é apenas um elemento edificado, está lá no terreno. É o princípio de “Sangue do Meu Sangue”, inscreve uma matriz estética que Canijo vai assumir o tempo todo: a narrativa há de mergulhar no naturalismo até quase nos convencer que estamos a ver gente e vidas em carne viva, suspendendo todas as descrenças; ao mesmo tempo, mostrará o artifício, a construção, seja pela posição da câmara (não raras vezes olhando de um ponto ‘impossível’ — e haverá ações que se passam fora do olhar), seja pelo trabalho sobre o som, sempre inserindo um pequeno grão na transparência. O filme navega num turbilhão de fúria. É a história de uma família, a mãe cozinheira (Rita Blanco), uma irmã que trabalha num cabeleireiro e é dada a esoterias (Anabela Moreira), uma filha que estuda para enfermeira e trabalha num supermercado, um filho que já esteve internado correcionalmente e, se é apanhado noutra, vai mesmo preso (Rafael Morais). Os fios de uma existência dura vão tornar-se trágicos quando a filha se torna amante de um professor, médico e homem casado (Marcello Urgeghe), e quando o filho tenta dar um golpe no patrão do tráfico da zona (Nuno Lopes) — ambos a caminho de um preço insuportável. O amor das duas mulheres mais velhas pelos mais jovens da família vai tentar fazê-los sair do destino que se afigura negro. A história podia ser de telenovela — mas a sério. Uma telenovela onde os pobres não fossem castiços e os ricos não se armassem em viscondes da treta. Onde houvesse sangue, falta de espaço, suor, cansaço, pouco dinheiro, falta de esperança, promiscuidade, ideias feitas. Onde a forma como as pessoas falassem e os sons que rodeassem as suas existências as definissem por completo (e nunca houve, no cinema português, banda sonora tão vibrante e significativa, em que a mistura e a montagem acordassem universos inteiros). Uma telenovela que mostrasse que a vida é tudo, mesmo o horror, às vezes além do intolerável. Nem nos apetece saber — mas há quem por lá ande. O trabalho dos atores é superlativo. Primeiro na construção do argumento (documentado em “Trabalho de Actriz, Trabalho de Actor”, exibido na quinta-feira na RTP e editado em DVD). Depois na generosidade com que se entregaram a esta ficção (as atrizes aceitaram desfear-se para que os poros, o desalinho, o mau gosto das roupas definisse as personagens do Bairro Padre Cruz — e não é um detalhe). E sempre o talento a derramar-se num filme inesquecível."
"Injustíssimo destacar seja quem for num conjunto sublime, mas refira-se Nuno Lopes e Anabela Moreira, extraordinários na transfiguração brutal que sobre si operam." Jorge Leitão Ramos, Expresso de 08/10/2011
A Nossa Vida
Título original: La Nostra Vita
De: Daniele Luchetti
Com: Elio Germano, Raoul Bova, Isabella Ragonese, Luca Zingaretti, Stefania Montorsi
Género: Drama
Classificação: M/12
Outros dados: FRA/ITA, 2010, Cores, 101 min.
Título original: La Nostra Vita
De: Daniele Luchetti
Com: Elio Germano, Raoul Bova, Isabella Ragonese, Luca Zingaretti, Stefania Montorsi
Género: Drama
Classificação: M/12
Outros dados: FRA/ITA, 2010, Cores, 101 min.
"Às vezes queixamo-nos de que só há cinema americano para ver, mas depois desleixamos o cinema europeu que merece atenção. Que isso não aconteça com “A Nossa Vida”, já que este filme de Luchetti, comédia cheia de sofrimento, melodrama cheio de sorrisos e calor humano, é filme para nos preencher as emoções, sem esquecer a justeza estética. A história é simples – um encarregado da construção civil, a braços com um drama familiar, tenta compensar os filhos à força de dinheiro. Há de se safar das trapalhadas lá para o fim, não sem antes nos termos envolvido com um quadro social gritante e com a força dos afetos como resistência."
"Elio Germano ganhou o prémio de interpretação em Cannes – e calha-lhe bem." Jorge Leitão Ramos, Expresso de 17/09/2011
O Hospício
Título original: The Ward
De: John Carpenter
Com: Amber Heard, Mamie Gummer, Danielle Panabaker, Jared Harris
Género: Terror
Classificação: M/16
Outros dados: EUA, 2010, Cores, 89 min.
Título original: The Ward
De: John Carpenter
Com: Amber Heard, Mamie Gummer, Danielle Panabaker, Jared Harris
Género: Terror
Classificação: M/16
Outros dados: EUA, 2010, Cores, 89 min.
"Se descontarmos os dois episódios que “Big John” realizou para a série “Masters of Horror”, já não tínhamos novidades do grande Carpenter há uma década, desde essa trip espacial de junkies galácticos (mas quase ninguém se comoveu com a toxicodependência...) chamada “Fantasmas de Marte”. Nessa altura, Carpenter sentiu-se um bocado queimado pelo movie business. E farto, sobretudo. Chegou a afirmar estar mais preocupado com os resultados da NBA (é grande fã dos Lakers) do que com o mundo do cinema e lá foi ele para o seu cubículo. No novo filme, “The Ward” (“O Hospício”), a fasquia desce uns pontinhos (mas não muitos). O projeto parece vir todo ‘escrito do papel’, com menos espaço para a folia. Recorda, em parte, alguns episódios da “Masters of Horror” e não é só por isso, nem pelo digital HD, que à partida parece um Carpenter mais televisivo. Estamos nos anos 60 quando somos apresentados a Kristen (Amber Heard), uma bela loira que é internada num hospital psiquiátrico depois de ter posto fogo a uma quinta. No hospital, Kristen, além de encontrar outras raparigas tão ‘talentosas’ como ela, começa a ter encontros inexplicáveis com um fantasma e começa a recear que, dali, ninguém mais sairá com vida. E, como boa carpenteriana que é, trata de esclarecer as coisas, mesmo que o esclarecimento, aqui, não seja mais do que um novo ciclo de alucinação (e mais não contamos, até porque, de resto, lá para o fim há um twist). Nada a ver, portanto, com a seriedade de um “Voando Sobre um Ninho de Cucos” — até porque, da seriedade, Carpenter costuma ser o primeiro a rir."
"“O Hospício” é um daqueles filmes que ‘custam a entrar’, sobretudo para quem conhece bem o trabalho de quem o assina. Parece irremediavelmente menor naquela constelação. Horror e fantasmas em manicómios não é propriamente coisa que escasseie no cinema americano e o filme de Carpenter também não se importa de pregar mais um prego no caixão, socorrendo-se de estereótipos batidos. Fica-se por aí? Não. Kristen resgata-o da mediania pela interpretação de Amber Heard. Ela é uma dessas personagens carpenterianas que já foram ao inferno e voltaram para contar, não tem medo de nada (nem mesmo de perder a sanidade), não se deixa quebrar pelas aparências (e este filme está cheio delas), conseguindo fazer evoluir a narrativa no terreno de um thriller psicológico, matrizado e eficiente. Neste ponto, Kristen entra diretamente para a galeria de heroínas do cineasta onde estão Jamie Lee Curtis, Adrienne Barbeau ou Natasha Henstridge. Há muito que sabemos, graças a Carpenter, que a perda de tino, venha ela de um desgosto amoroso, do medo da morte ou de influência alienígena, é coisa que a cabeça inventa e potencia. O maior inimigo dos seus heróis está neles próprios. Posto isto, “O Hospício”, embora não possa ser colocado a par de obras-primas como “Halloween” ou as duas “fugas” (a de New York e a de Los Angeles), também não envergonha a ascendência. Será exibido em antestreia nacional no MOTELx — e isto leva-nos para outras conversas."
"O MOTELx é um dos festivais portugueses mais interessantes, e talvez seja mesmo o mais claro de objetivos, o mais equilibrado entre meios e fins." Francisco Ferreira, Expresso de 03/09/2011
6.10.11
Os Famosos e os Duendes da Morte
Título original: Os Famosos e os Duendes da Morte
De: Esmir Filho
Com: Henrique Larré, Ismael Caneppele, Tuane Eggers
Género: Drama
Classificação: M/12
Outros dados: BRA/FRA, 2009, Cores, 101 min.
Título original: Os Famosos e os Duendes da Morte
De: Esmir Filho
Com: Henrique Larré, Ismael Caneppele, Tuane Eggers
Género: Drama
Classificação: M/12
Outros dados: BRA/FRA, 2009, Cores, 101 min.
"De entre os filmes brasileiros que têm estreado em Portugal ao longo da última década, podemos, grosso modo, distinguir duas ‘tendências’: a das obras que procuram replicar o modelo comercial do cinema americano, oferecendo-nos em espetáculo a marginalidade e o ‘caso social’ (“Tropa de Elite”, de José Padilha), e a das obras que tentam recuperar a herança neorrealista do “Cinema Novo” brasileiro (“Linha de Passe”, de Walter Salles e Daniela Thomas). Pois bem: esta primeira longa-metragem com título enigmático de Esmir Filho (que, à data da sua realização, tinha apenas 27 anos de idade) inscreve-se em contracorrente em relação ao passado recente do cinema brasileiro, encontrando as suas principais referências nos trabalhos de David Lynch e de Gus Van Sant."
"O que temos, neste quadro? Uma adaptação do romance homónimo de Ismael Caneppele, que, socorrendo-se em exclusivo das interpretações de não atores (excelentes, na sua maioria), nos convida a viajar até uma pequena vila sem nome do interior brasileiro (“o cu do mundo”, diz-nos o filme), para seguirmos o dia a dia de um adolescente desenquadrado (Henrique Larré). Dele, o pouco que vamos sabendo (através de uma narrativa lacónica, descontínua e difusa que ilumina gradualmente o perfil do protagonista e os contornos do seu meio) é que vive sozinho com uma mãe deprimida e com a memória de um pai falecido; que passa horas ao computador, alimentando com as suas observações um blogue intitulado Mr. Tambourine Man (em homenagem ao famoso Bob Dylan, que sonha ver ao vivo); e que a escola é para ele (como para os fantasmas do “Afterschool”, de Antonio Campos) uma espécie de campo de concentração em miniatura."
"Trata-se, aqui, de um universo claustrofóbico, fechado sobre si mesmo (daí que Esmir Filho se sirva, e bem, de uma escala de planos muito cerrada que isola as personagens num espaço sem coordenadas), que, no entanto, se deixa assombrar por um mistério, por um enigma que se faz presente desde a primeira sequência do filme. Nela, aquilo que de início vemos é apenas isto: um conjunto de imagens (captadas com um telemóvel, provavelmente) que, em silêncio, nos vão mostrando as estranhas poses de um jovem casal em passeio no campo (Tuane Eggers e Ismael Caneppele, o autor do romance que o filme adapta). Depois de um corte, um reenquadramento da cena (obtido pelo recuo da posição da câmara) revelar-nos-á a verdadeira natureza do que víamos, nomeadamente: um dos diversos vídeos colocados no YouTube pelo referido casal, que — sem que saibamos porquê — parece exercer sobre o protagonista um bizarro efeito de atração magnética. De facto, porque vão pontuando por sistema (e como uma obsessão) a narração dos episódios quotidianos que marcam a sufocante vida do nosso adolescente, essas imagens sem contexto afirmam-se como o único ponto de fuga capaz de inaugurar um horizonte no espaço. Sobre elas e sobre o seu sentido (que o filme se propõe decifrar) não diremos muito mais — apenas que elas se encarregarão de nos colocar em contacto com os “duendes da morte” do título, fantasmas portadores de uma ‘mensagem-limite’ (a da possibilidade do suicídio) que competirá ao protagonista adotar ou rejeitar. Nós, pela parte que nos toca, seguimos com ele, fazendo-nos cúmplices desta bela viagem pelo território sempre assombrado da adolescência."
"Em complemento a “Os Famosos e os Duendes da Morte”, será exibida, no início das sessões, a curta-metragem “Voodoo”, da autoria do português Sandro Aguilar." Vasco Baptista Marques, Expresso de 01/10/2011
31.8.11
A Autobiografia de Nicolae Ceausescu
Título original: Autobiografia lui Nicolae Ceausescu
De: Andrei Ujica
Género: Documentário
Classificação: M/12
Outros dados:ALE/ROM, 2010, Cores, 179 min.
Título original: Autobiografia lui Nicolae Ceausescu
De: Andrei Ujica
Género: Documentário
Classificação: M/12
Outros dados:ALE/ROM, 2010, Cores, 179 min.
"Último capítulo de uma trilogia de documentários sobre a queda do comunismo que teve em “Videogramme einer Revolution” (correalizado em 1992 com Harun Farocki) e em “Out of the Present” (1999) os seus primeiros momentos, o novo filme de Ujica começa e acaba exatamente no mesmo ponto: com imagens do julgamento sumário ao qual Ceausescu foi submetido no final de 1989. Entre o princípio e o fim, e ao longo de três horas de filme, há uma tentativa de reconstituir — em jeito de imenso flashback histórico-psicológico — uma possível memória do ditador sobre as principais etapas da sua carreira política (de 1967, com a sua chegada ao poder após a morte de Gheorghe Gheorghiu-Dej, até 1989, com a derrocada do regime comunista na Roménia, passando pelos seus encontros com uma miríade de chefes de Estado).
"Pois bem: para tentar coincidir com o ponto de vista que Ceausescu poderia ter tido sobre si mesmo nos últimos dias da sua vida (é a ficção a invadir o documentário), e levando às últimas consequências o método de trabalho que empregara já nos seus filmes anteriores, Ujica socorrer-se-á aqui, exclusivamente, das cerca de mil horas de imagens de época (e, sobretudo, das imagens de propaganda do regime) que conseguiu resgatar aos arquivos da televisão e do cinema romenos. E, por ‘exclusivamente’, entenda-se: sem narração em off, sem intertítulos e evitando, por inerência, a contextualização verbal, indireta, dos acontecimentos históricos retratados, numa tentativa de acentuar a força expressiva das imagens e de não atraiçoar o olhar do ditador sobre a sua própria biografia."
"Trata-se, neste quadro, de uma recusa de artifícios narrativos que, por um lado, permite que a história contemporânea apareça, sobretudo, como a história das imagens que produz e que, por outro, convida a montagem a assumir, por si só, a função de veicular um ponto de vista. De facto, como Ujica esclarece na entrevista que nos concedeu, aqui, a montagem desempenha um duplo papel: o de destruir as relações de sentido estabelecidas por um material previamente existente (as imagens de arquivo) e o de construir, pela ‘remontagem’ das imagens ‘desmontadas’, uma nova lógica de sentido. Ora, é através deste colossal exercício de montagem de uma banda imagem e de uma banda som que vai emergindo, lenta e organicamente, a perspetiva crítica do cineasta sobre o seu objeto de estudo. Por exemplo: depois de nos obrigar a assistir a um discurso de Ceausescu sobre a inutilidade do simbolismo em política, Ujica mostra-nos, com uma ironia subtil, como o poder do ditador se apoiou no uso intensivo que fez dos símbolos — pois aquilo que em seguida vemos são imagens de um gigantesco desfile popular, onde os retratos de Ceausescu se deixam venerar pelas massas."
"O poder, da era da reprodutibilidade técnica da obra de arte até à era do vídeo, do digital e do YouTube (que é a de um olhar panóptico fomentado pela desmultiplicação ao infinito dos suportes de registo do real), tornou-se indissociável das imagens que produz. Ter a ousadia de virar as imagens forjadas pelo poder contra si mesmas, dando-lhes a possibilidade de desmentirem — com os meios do cinema — os nexos de sentido que o poder lhes quis imputar... aí reside toda a força de uma obra que acredita, como poucas, nas infinitas potencialidades da sua matéria-prima." Vasco Baptista Marques, Expresso de 27/08/2011
31.7.11
Super 8
Título original: Super 8
De: J.J. Abrams
Com: Elle Fanning, Amanda Michalka, Kyle Chandler
Género: Thriller, Ficção Científica
Classificação: M/12
Outros dados: EUA, 2011, Cores, 112 min.
Título original: Super 8
De: J.J. Abrams
Com: Elle Fanning, Amanda Michalka, Kyle Chandler
Género: Thriller, Ficção Científica
Classificação: M/12
Outros dados: EUA, 2011, Cores, 112 min.
"Para quem segue o cinema americano das últimas três décadas, e para quem o segue e pertence a uma determinada geração, não faltará quem pense que filmes como “Super 8” estavam perdidos para sempre. Que não se fariam mais, eternamente presos a uma época maravilhosa do cinema americano que, nos anos 80, sonhou mais do que qualquer outra. Não foi uma época de ouro, essa, a que recebeu aliens, super-heróis, vilões intratáveis entre outros que tais, conquistados nas salas e nos clubes de VHS — mas nos anos 80, no cinema, tudo foi possível. Há quem ainda se lembre. Nenhuma outra década sonhou tanto, nem nos anos 20 em que se filmavam zepelins. Nenhuma foi tão demente. E a infância, nesse tempo e nesse cinema, ainda era um segredo. A magia adormeceu entretanto. O cinema sofisticou-se, julgamos que se tornou mais difícil, embora tudo à sua volta pareça ter contribuído para o facilitar (o digital, por exemplo). Mas não vale a pena perdermos tempo com isso. Ah, mas há a infância. A que tem a cor branca das origens e causa dores de estômago. Que foi feito dela? Cada um chora pelo que já perdeu. Nos anos 80, talvez a infância tenha tido o seu derradeiro sabor a transgressão. Esse desejo do medo e do escuro, de descer a grutas profundas. Não se vê — ou só muito raramente se vê — isso hoje, sobretudo lá pelas bandas dos estúdios de Los Angeles. Mas não é por causa do aqui e do agora que “Super 8” veio ao mundo."
"Estamos em 1979, numa cidadezinha (inventada) do Ohio. Um rapaz, Joe (Joel Courtney), chora num baloiço de jardim, coberto de neve. Morreu-lhe a mãe (num acidente), o pai (Jackson/Kyle Chandler) é o xerife da zona, o drama é sentido. E a melancolia não vem de uma panóplia de efeitos especiais, de umas falcatruas atiradas para os olhos, mas dos olhos desse miúdo, forçado a adaptar-se à orfandade — e da orfandade dos anos 80 fala também este filme. Quatro meses passam, o gelo derrete. Joe tem amigos, e um deles, Charles, decide fazer um filme de escola (e de zombies) no formato do título. Alice (Elle Fanning), a miúda mais gira da escola, fará parte do elenco. Não vamos contar muito mais do que isto. Apenas que Joe ainda guarda a foto da mãe num medalhão e que esta história de filiações rompidas, para o aqui produtor Spielberg (que mergulhou a fundo neste projeto) — ele que, mais do que ninguém, se bateu para deixar à infância uma porta aberta em Hollywood —, é uma velha preocupação. Mas J.J. Abrams, não melhor nem pior do que Spielberg, vai dar a esta história spielberguiana até à medula outro ritmo e outra emoção. Acrescente-se ainda que, quando o filme dos miúdos começa, a rodagem ‘tropeça’ nuns caminhos de ferro e que por lá passa um comboio que descarrila por causas que depois saberemos, enquanto a câmara continua a filmar sozinha. É um comboio fantasma, literalmente. Traz lá dentro uma criatura alienígena. É o pânico na cidadezinha. O Exército toma conta de tudo. A prova está na película. E, nesse comboio, fundem-se a ficção científica e o teen movie e materializam-se os fantasmas das crianças, os filmes que eles viram e os que eles sonham fazer, como se “Super 8” fosse uma espécie de chamamento a que o cinema decide dar resposta e consolo: sim, é possível."
"“Super 8”, que fala de cinema acima de tudo, não deixa de ser o filme de todos os riscos e de todas as misturas de géneros, e mais triunfante se torna a sua expressão quando consegue finalmente resolver a embrulhada, mantendo as baterias apontadas à emoção. Embora pareça estar a mascar o melhor de Spielberg, de Carpenter, de Dante e de McTiernan, “Super 8” consegue sair vivo da sua própria trituradora — e ser genuíno. Pensamos sobretudo na dificuldade da representação do monstro, cujas formas se vão descobrindo aos poucos (como no tubarão de Spielberg), e no seu confronto com Joe naquele magnífico final. Para a criança, o monstro não será jamais a realidade de uma representação antagonista. Antes uma manifestação de fé na ficção, pois o que Joe vê no alienígena é a memória da mãe que ele perdeu. “I know bad things happen. But you can still live!” Quando o luto nos é dado assim num filme, e pela boca de uma criança, podemos acreditar nele de olhos fechados." Francisco Ferreira, Expresso de 30/07/2011
25.7.11
A Conspiradora
Título original: The Conspirator
De: Robert Redford
Com: Robin Wright, James McAvoy, Tom Wilkinson
Género: Drama
Classificação: M/12
Outros dados: EUA, 2010, Cores, 122 min.
Título original: The Conspirator
De: Robert Redford
Com: Robin Wright, James McAvoy, Tom Wilkinson
Género: Drama
Classificação: M/12
Outros dados: EUA, 2010, Cores, 122 min.
""Ibelieve in America” — dizia, logo no início de “O Padrinho” e com o ecrã ainda em negro, o pobre pasteleiro emigrante que ia pedir a Don Corleone a justiça que a Justiça americana lhe negara. É uma das aberturas mais célebres do cinema, uma declaração de princípios amarga no confronto com a realidade. Toda a saga de Coppola é uma metáfora onde o capitalismo e o crime organizado são duas faces de uma mesma moeda, de tal maneira estão interligados, das ruas escusas de Nova Iorque do princípio do século XX às púrpuras cardinalícias do poder no Vaticano. Não é nada certo que Francis Ford Coppola possa fazer sua, sem ironia, a afirmação do seu personagem. Redford está nos antípodas. É um liberal que acredita profundamente nos valores americanos, mesmo quando mostra os desvios que a eles a realidade foi fazendo. O seu novo filme é uma apaixonante demonstração disso mesmo."
"Frederick Aiken, o protagonista de “A Conspiradora”, faz de toda a sua vida uma afirmação de crença na América e nos princípios matriciais que os pais fundadores deixaram gravados na Constituição. Abnegado herói da Guerra da Secessão, vê-se, mal regressado à vida civil, como advogado, empurrado para aceitar a defesa de alguém que, num dado momento, personifica todo o Mal de que a América está a padecer: Mary Surratt, a dona da pensão onde decorreu toda a bem sucedida conspiração para assassinar o Presidente Abraham Lincoln. Como o assassino confesso, John Wilkes Booth, fora morto no ato de captura e como a segunda figura no complô, John Surratt, filho de Mary, se encontrava em fuga, ela acabou por ser a individualidade central num processo, instruído por um tribunal militar especial, que se quis célere nos procedimentos, eficaz nos resultados e exemplar nas penas. Perante o horror dos yankees face ao crime cometido, como tolerar que uma mulher que se referia a Lincoln como “o vosso Presidente” pudesse auferir de todas as garantias de defesa e processuais (como ser julgada por um tribunal de júri) e, eventualmente, dada a fragilidade das provas carreadas para o processo, ser declarada inocente? Mary Surratt, apesar de sempre se ter proclamado ignorante do que o filho e os restantes conspiradores faziam num dos quartos da sua casa, acabou condenada e, pessoalmente, enviada para a forca por uma determinação do novo Presidente dos EUA. Todos os americanos o sabem: Mary Surratt foi a primeira mulher enforcada no seu país. Aiken, que invocou os direitos fundamentais de que todos os cidadãos gozam perante a lei, lutou até ao fim. Não estava convicto da inocência da sua constituinte (o filme também não, de resto) e expressava (tal como o filme) horror ante o assassínio de Lincoln. Mas não queria abdicar desses direitos, que, sustenta ele num diálogo do filme, foram postos na Constituição para momentos graves em que tudo parece colapsar — como naquela circunstância — para servirem de bússola, farol, guia."
"Os firmes valores de Aiken são os que Redford reivindica, para ontem e para hoje (estamos a ver os atropelos no julgamento de Mary Surratt e estamos a pensar em Guantánamo o tempo todo), através de um filme onde a História é matéria de reflexão para o presente. Mas o que é mais extraordinário é que, se o filme reclama um lado para afirmar quem teve (quem tem) razão, não invetiva o outro, também lhe compreende as razões. E, sobretudo, acredita que a grandeza americana é feita dessa tensão de contrários em que a alma não se perde, reencarna sempre."
"“A Conspiradora” parte de um espantoso argumento (de James D. Solomon), conta com um elenco notável (Robin Wright, no papel de Mary Surratt, magnífica de maturidade e contenção) e culmina na realização eficaz, substantiva, de Redford. É um dos grandes filmes — adultos — do ano." Jorge Leitão Ramos, Expresso de 23/07/2011
O Atalho
Título original: Meek's Cutoff
De: Kelly Reichardt
Com: Michelle Williams, Bruce Greenwood, Will Patton, Zoe Kazan, Paul Dano
Género: Drama
Classificação: M/12
Outros dados: EUA, 2010, Cores, 102 min.
Título original: Meek's Cutoff
De: Kelly Reichardt
Com: Michelle Williams, Bruce Greenwood, Will Patton, Zoe Kazan, Paul Dano
Género: Drama
Classificação: M/12
Outros dados: EUA, 2010, Cores, 102 min.
"O nome da americana Kelly Reichardt chegou-nos pela primeira vez aos ouvidos aquando da estreia, em 2006, de “Old Joy”, a sua segunda longa, que, seguindo o fim de semana de dois velhos amigos na floresta, definia uma estética minimalista caracterizada pela redução da narrativa a um motivo elementar, pela sua atenção à paisagem (natural ou social) e pelas suas personagens en panne. Foi uma primeira impressão que viria a ser confirmada, dois anos mais tarde, com a estreia de “Wendy & Lucy”, que, a partir da história de uma rapariga cuja viagem até ao Alasca se vê interrompida pelo desaparecimento da sua cadela, assentava arraiais numa pequena cidade dos EUA para revisitar uma paisagem social realista que o cinema americano abandonou na década de 70. Neste sentido, o novo filme de Reichardt (“O Atalho”) renova os votos de simplicidade já feitos e reforça uma dupla certeza: a errância é o tema central da obra da realizadora, e o cinema americano dos anos 60-70 a sua principal fonte de inspiração (a tal ponto que, nos seus filmes, nada parece ter acontecido de então para cá)."
"“O Atalho” é um western revisionista imune ao distanciamento irónico que recria um episódio célebre da história americana do século XIX: o dos pioneiros que, no Oregon de 1845, decidiram recrutar um tal Stephen Meek (Bruce Greenwood) para os guiar até ao seu destino por um atalho nunca antes percorrido. Ora, dizer isto é já dizer mais do que, no início, Reichardt nos diz. De facto, quando “O Atalho” começa — in media res, sem prefácio —, tudo o que vemos é uma caravana de três famílias que, em silêncio, vão forjando com dificuldade o seu caminho através das desérticas planícies do Oregon. A ausência de explicações convida-nos a ficar ao nível das personagens, a partilhar os seus pontos de vista sem horizonte e os seus esforços sem finalidade aparente, em suma, a fazer nossa a errância delas (como no cinema de Monte Hellman, que parece servir de modelo ao filme de Reichardt). Aliás, aqui, será preciso esperar até que uma voz se ouça pela primeira vez; e, quando ela se faz ouvir, é apenas para nos dizer aquilo de que já suspeitávamos: que as personagens estão, como nós, à nora, entregues à orientação de um fanfarrão (Meek) que, à laia de consolo, só tem para lhes oferecer o pouco reconfortante “we’re not lost, we’re just finding our way”. Entretanto, os dias vão-se sucedendo às noites e transformando-se em semanas sem que a paisagem pareça sofrer a menor variação (e nessa experiência de imutabilidade de um espaço reside, de resto, o melhor do filme)."
"Neste quadro, a captura de um índio (que, aparentemente, seguia a caravana) introduzirá uma cisão, se não na morfologia da paisagem pelo menos na unidade do grupo, que se dividirá quanto ao destino a dar ao intruso: ou a morte (proposta de Meek) ou a vida, a troco da sua colaboração na descoberta de uma fonte de água capaz de os salvar de uma morte por desidratação (proposta de Emily Tetherow/Michelle Williams). A segunda hipótese prevalece e, a partir daí — sem nunca abdicar do seu tom minimalista —, Reichardt concentrar-se-á nas tensões desencadeadas pela integração do índio na caravana, explorando o conflito que se estabelece entre Emily e Meek e mostrando-nos como os membros do grupo se entregam (de forma desconfiada) à condução daquele absoluto estranho, cujos hábitos, língua e religião desconhecem. O problema é que o filme parece querer constituir-se como uma alegoria política, servindo-se da situação que retrata para comentar a atualidade e lançando mão, no processo, de uma lógica de equivalências pouco subtil (os pioneiros, o deserto, o estranho que é objeto de desconfiança... Será preciso dizer mais?). E, nesse gesto de reenvio de ontem a hoje, o filme eleva-se acima das personagens, sobrepõe o seu ponto de vista ao delas e acaba por perder o que de melhor tinha: a sua absoluta adesão a um espaço e a um tempo sem coordenadas onde, com as personagens, nos descobríamos claustrofobicamente condenados a uma errância sem fim." Vasco Baptista Marques, Expresso de 02/07/2011
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