São Pedro do Sul

Pagamentos elevados em formação da Delegação do IEFP de São Pedro do Sul... [mais]

Não é de espantar que essa insólita iniciativa do CM tenha sido subscrita por vários juízes e procuradores, dado o sentimento de amor/ódio que certos sectores da magistratura sempre tiveram para com os titulares de cargos políticos, embora com uma especificidade bem portuguesa: o ódio é dirigido aos políticos do regime democrático e o amor era (sempre foi) reservado aos políticos das ditaduras (atente-se na dedicação com que as magistraturas em geral serviram o Estado Novo).
"Entretanto, em Londres, dois miúdos gémeos (Marcus e Jason/ Frankie e George McLaren) vivem com a mãe toxicodependente, sob estreita vigilância das autoridades. Um dia, após terem iludido essa vigilância, Jason vai a uma farmácia vizinha comprar um medicamento que combata a viciação em heroína e morre atropelado. Marcus é entregue a uma família de acolhimento, mas, quase apático e solipsista, num estado de desamparo extremo, apenas pensa em voltar a ter contacto com o gémeo."
"Ao mesmo tempo, em San Francisco, um homem (George Lonnegan/Matt Damon) aceita a solicitação do irmão para fazer uma “sessão” com um cliente. George consegue contactar o reino dos mortos, mas abandonara a atividade de vidente, porque percebera que o poder de falar com os que já morreram não é um dom, é uma maldição. Agora, tudo o que quer é ter uma vida normal, sem visões, sem saber de mais sobre os seus concidadãos. A teia assim lançada sobre um tripé de personagens e de histórias vai, evidentemente, unificar-se pois, dizem os cânones, as forças do destino hão de fazê-los encontrar-se para desvendar a verdade ou, pelo menos, mitigar as dores. Um homem que fala com defuntos, um miúdo que quer contactar o irmão morto, uma mulher que acredita ter pisado a antecâmara de outra vida, o que é que isto tem a ver com Clint Eastwood? Mais: como é possível tornar credível um filme arquitetado no campo do melodrama onde qualquer coisa parecida com a fé é essencial?"
"O que isto tem a ver com Clint Eastwood intuiu Spielberg que, lido o argumento de Peter Morgan (ele mesmo longíssimo do tipo de ficções políticas que lhe deram fama, como “A Rainha” ou “Frost/Nixon”), logo pensou no realizador de “Mystic River” para o dirigir. Uma das razões terá sido, avento eu, o caráter terra a terra, avesso a devaneios, do pragmático Eastwood que acabava por casar bem com uma história onde, bem vistas as coisas, nunca saberemos com exatidão se existe algo para lá do último suspiro ou se tudo não passa da esperança humana em poder rejeitar o negrume absoluto, o oblívio total. É isso que nos diz, leio eu, a sequência final do café em Londres, quando vemos, por uma única vez, algo que o vidente George vê (e não é sobre o outro mundo), um beijo que está no domínio dos desejos, não nos factos, vírgula num texto a instilar, pelo menos, um ceticismo discreto."
"Quanto à possibilidade de tornar credível uma ficção que, nas mãos de alguém na determinação de nos convencer, estaria confinada ao risível, só o génio de Clint Eastwood a explica. Digamos que numa teia de coincidências e de eventos extraordinários, o público é conduzido pela força das emoções a aceitar uma possibilidade, porventura pela empatia com a boa-fé com que os personagens se debatem com as suas dores e pela franqueza com que o cineasta as filma. Sem floreados, sem rodriguinhos, de um modo tão direto como filma o maremoto asiático de 2004 (efeitos especiais extraordinários para nos dar, com realismo, uma catástrofe que nunca ninguém viu com a magnitude que este filme nos mostra). São pessoas inteiras, diversas, com jeitos distintos de levar a vida — não é para demonstrar que a paciência é uma virtude que Clint Eastwood dedica tanta minúcia a algumas das tarefas quotidianas dessas pessoas, às vezes parecendo atrasar o curso do que queremos ver narrado. Assim se distingue a sabedoria com que se preenche de carne e particularidades personagens que, de outro modo, seriam estereótipos. Sabedoria ainda para, sem perder o centro de gravidade, sem fazer deles seres etéreos, conseguir mergulhá-los numa espécie de suspensão, como se um pingo de imaterialidade lhes houvesse tocado a pele e transmutasse a sua realidade numa coisa um palmo acima da do comum dos mortais (e há que sublinhar o papel da música — do próprio realizador — nessa suspensão). Em qualquer caso, “Hereafter — Outra Vida” é um gesto ousado daqueles que não se deve aconselhar. Questão de risco."
"Há várias coisas nada recomendáveis para fazer em cinema. Uma é pôr milagres a acontecer no ecrã — o público há de sempre achar que o ator está a fingir-se morto e abriu os olhos... Outra é figurar a vida para lá da morte. Sempre a tomaremos como onirismo, efabulação, faz de conta, só o admitindo dentro de um género — o fantástico — onde, precisamente, as coordenadas do que é possível e do que é credível têm chaves não-realistas. Se isto é algo que acredito aconselhável a qualquer candidato a cineasta, a verdade é que essas convicções, de vez em quando, vacilam. Estou pronto, assim, a asseverar que já vi um milagre acontecer — e foi no cinema: a ressurreição de Inger em “A Palavra”, de Carl Th. Dreyer. E já posso dizer que sinalizei, pelo menos, o portal de uma outra vida. Quem lá me levou, agora mesmo, foi o senhor Clint Eastwood, improbabilíssimo cicerone para tal jornada."
"“Complexo — Universo Paralelo” tem a sua origem nas filmagens de um videoclip de Mc Playboy, um cantor funk da favela, filmagens onde Mário e o seu irmão Pedro colaboraram e que lhes abriu o contacto com a realidade dessa comunidade nos arrabaldes da Cidade Maravilhosa. “Essa realidade era tão diferente da que eu conhecia”, disse-nos o realizador, “que senti que ali havia qualquer coisa que merecia ser mostrada e sobre a qual se devia refletir”. Em 2005, os dois irmãos passaram o Natal no Complexo do Alemão, “para ter material de pesquisa e para conhecermos aquela realidade de forma diferente. É que uma coisa é nós irmos lá e voltarmos para casa ao fim do dia, outra muito diferente é passarmos a dormir no local. Nessa altura fizemos uma série de entrevistas filmadas, como pesquisa, e de um leque de trinta personagens chegámos às quatro que estão no filme. Com isso montámos um pequeno teaser e começámos a procurar produtores e financiamentos”. Debalde, já que ninguém queria pôr dinheiro num filme onde nem sequer era certo que eles saíssem de lá vivos. Na verdade, as notícias sobre os confrontos entre a polícia e os bandidos eram constantes, o que tornava altamente improvável que o filme alguma vez se fizesse. Mas muitos desses produtores que fecharam as portas ao financiamento abriram-nas quanto a contactos ou facilidades de cedência de material. De maneira que Mário e Pedro Patrocínio acabaram por ser eles mesmos os financiadores do documentário. “Juntámos o dinheiro que tínhamos ganho em vários trabalhos no Brasil, vendemos um carro pequeno que lá tínhamos com seis ou sete anos e foi assim que fomos filmar”. Com o filme concluído a Valentim de Carvalho Multimédia torna-se distribuidor e a SIC adquire os direitos para televisão em aberto e torna-se media partner.
"A protagonista de “O Preço da Traição” (Chloé/Amanda Seyfried) é uma prostituta de luxo que sabe isso, afirma-o, de resto, a seu jeito, na sequência inicial do filme. Não o sabe a outra mulher do filme (Catherine/Julianne Moore) que lhe aluga os préstimos na intenção de testar a fidelidade do marido (David/Liam Neeson) e que, errónea, pensa que lhe freta o corpo. Errónea e reincidente, da primeira vez em que quer asseverar-se de que o marido é inconstante, da segunda em que se mete na cama com a rapariga. Com consequências, claro. É que, no primeiro tempo, a contratada supõe que o que agradará à contratante é a confirmação de expectativas e no segundo supõe que não está sob nenhum entendimento financeiro. As duas outorgantes de tão peculiar arranjo vão aprender, com dor, que a verdade é sempre mais determinante que a verdade da ilusão. Uma acabará a ser troféu da outra, como é timbre de uma sociedade dividida entre quem contrata e quem vende a força de trabalho. E nós a servir de impotentes testemunhas."
"“O Preço da Traição” é um remake americano do francês “Nathalie”, escrito e realizado por Anne Fontaine, por cá exibido em 2004, e, em relação com o seu modelo, traz algumas modificações de argumento que não são de somenos importância. Com efeito, enquanto para “Nathalie” o essencial da trama é a infidelidade do protagonista masculino (e, por isso, o clímax do filme ocorre na cena em que os três personagens principais se encontram), em “O Preço da Traição” as coisas jogam-se em termos de poder — o poder do dinheiro, do sexo, da ilusão — eo conflito só se resolve quando há quem ganhe e perda, sem remissão. Isso põe o filme de Egoyan num patamar diferente do simples drama burguês. Para Anne Fontaine, o cerne da questão é a cruel indiferença a que um casamento se pode reduzir. Egoyan ocupa-se mais de fantasmas, da autonomia que eles ganham quando os pomos na nossa vida, do fascínio que isso é e dos perigos que isso traz. Afinal, esse é o reino privilegiado deste realizador canadiano de origem arménia que, pelo menos desde “Exótica” (com um homem viciado em frequentar uma executante particular de lapdance num bar noturno) não tem cessado de interrogar os corredores do desejo e das suas inconfessabilidades (como em “A Viagem de Felícia” ou “Onde Está a Verdade?”) nos territórios de poder. E de culpa — dirão os que se lembram desse filme assombroso que era “O Futuro Radioso”, onde a libido e toda a esperança eram afogadas numa tragédia absurdamente sem responsáveis."
"Para Dvortsevoy, “Tulpan” representou outra coisa: sair do gueto dos documentários e abraçar uma ficção com atores não profissionais. O espaço é o da Ásia Central, no Cazaquistão desértico e profundo. E o tempo é o de um regresso a casa, o de Asa (Askhat Kuchencherekov), jovem cazaque que acabou de passar uma temporada a servir na marinha russa e agora volta para os seus, para seguir com a vida. Estamos num registo familiar com homens solitários e lacónicos e mulheres amaldiçoadas e inacessíveis. O nosso Asa tem queda para sonhador e fanfarrão. Enquanto descreve o que é um cavalo-marinho aos seus pares, eles que só têm por companhia uma fauna de ovelhas e camelos, vai passando o tempo na companhia da irmã, cunhado e filhos destes, que o suportam enquanto ele não casa. A alavanca dramática do filme vem precisamente daqui, do casamento. É que, para Asa, a única noiva possível num raio de centenas de quilómetros chama-se Tulpan, a tímida rapariga que passa o tempo a esconder-se e dá título ao filme. Asa, que não cai nas graças da hipotética noiva, tudo fará para sair vencedor da conquista e da maçada que significa ser solteiro naquelas bandas. Está preso a um círculo vicioso, a uma realidade que gira à volta de si própria e que só tem fim no horizonte. E é neste enquadramento vagamente exótico e novelesco, tão novelesco que até recorda “A Cartuxa de Parma”, que nasce também no filme uma hipótese de melodrama, permeável à comédia e ao burlesco."
Certo dia, numa pequena e distante vila, apareceu um homem a anunciar que compraria burros a 5 euros cada.